“Por isso que o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua esposa, e ambos se tornarão uma só carne”.
| Gênesis 2:24 |
Busquei-o com o olhar, mas não o encontrei. Emerson prometeu que me encontraria, que me resgataria das garras do noivo machista que me torturou. Mas ele não apareceu. Algo deveria ter acontecido, tinha certeza disso, Emerson jamais me deixaria. Bem, me deixou uma vez... Entretanto, agora era diferente. Ele me certificou de que estaríamos juntos, confiei em suas palavras, acreditei no que dizia meu próprio coração.
Caminhando em direção ao altar, de braços dados com meu pai, hesitei em meus pensamentos e estanquei meus passos. Algo estava errado. E quem era o idiota que estava ali, rindo de tudo? Ah, sim, era o “cara do esbarrão”.
“Imbecil” – pensei comigo mesma ao notar a expressão divertida daquele cretino. – “O que ele faz aqui?”...
Arthur me puxava sutilmente, disfarçando para que os convidados não percebessem meu torpor.
— Entendo seu medo, filha. Porém, já que chegou até aqui, vai desistir agora? – indagou meu genitor, carinhosamente.
— Eu te amo, papai. Sempre te amarei – declarei, com uma ideia em mente.
— Tenho certeza disso, meu amor. E, acredite, a recíproca é verdadeira – rebateu Arthur, com um sorriso acolhedor. – Agora, vamos. Sua mãe já nos notou aqui e está irritada. Melhor não perturbamos a fera.
Com essas palavras, fiquei instigada e procurei mamãe com o olhar. Encontrei-a com o cenho franzido, em notável expressão de desagrado, e sibilando uma muda ameaça de “não se atreva”, como se pudesse ler meus pensamentos e adivinhar meus planos. Mas eu me atreveria, era ousada e destemida. Não era uma ordem da minha genitora que me faria desistir de quem eu tanto amava.
“Droga! A quem estou tentando enganar?” – resmunguei em pensamento. – “Se ele estivesse aqui, não hesitaria nem por um segundo. Porém, sozinha é bem mais complicado”.
Não fui forte o bastante, não fui corajosa o suficiente para dizer não. Fui covarde. Deveria ter saído dali correndo, deveria ter ido ver o que havia acontecido, porque meu anjo tinha quebrado meu coração novamente. Eu disse sim. E, ali, em nada me parecia com uma caçadora. Eu era apenas um cordeiro sendo levado para o abate.
E
A festa era de uma perfeição impressionante. O salão estava inteiramente decorado com flores do campo – em tons de rosa e lilás – e lavandas, as minhas preferidas. A comida era excelente, apesar de eu não ter provado nada. Porém, pelos elogios que meus pais receberam, deu para ter certeza disso.
A seção de fotos foi a pior de suportar. Eu tive que sorrir e fingir que estava feliz. Quando uma lágrima escorria pelo meu rosto, dizia que era emoção... Assim me fiz acreditar e enrolei em uma das piores noites da minha vida.
Tudo ocorreu conforme mandava o protocolo. Durante a dança que tive com Adam, pude ver o quanto estava bonito em seu fraque bem alinhado, seus olhos azuis reluziam, e ele realmente acreditou que me casei com todo amor que “sentia”. Babaca, imbecil... Na verdade, eu estava furiosa com Emerson, o canalha tinha me deixado de novo, me fez de boba mais uma vez!
Eu me tornei a “senhora esposa do babaca do século”. Estúpida, idiota, cretina. Era mesmo uma anta! Se ao menos eu soubesse que minha existência nunca foi marcada para que tudo ocorresse dessa forma, se fosse corajosa...
Estava casada e odiava meu anjo por cada segundo que esperei pela minha liberdade. Abominei-o em cada minuto da minha lua de mel. Odiei-o.
Adam até que foi gentil e paciente, acreditou que minha estranheza se dava ao fato do medo da primeira vez. Ele venceu. Teve tudo o que queria. Adam virou meu amigo de novo... Para mim, era apenas amigo e nada mais.
E
O tempo passou e odiei Emerson pelos trezentos e sessenta e cinco dias daquele ano. Outros doze meses se passaram, e o odiei ainda mais.
Eu já não era a mesma. Tinha me tornado como um robô. Era fria, deprimida, quieta e triste.
Ainda amava Emerson, e o odiava com todas as minhas forças. Minhas lágrimas eram derramadas em segredo, no meio da noite, enquanto meu marido dormia profundamente e não podia ser atormentado pela minha dor.
Minha vida virou uma rotina de sorrisos falsos, medo do marido – que eu não sabia como reagiria a qualquer erro meu –, limpar a casa, terminar os estudos e... Um presente invadiu minha existência. Achei que nunca seria capaz de amar novamente. Meu ódio pelo anjo era tanto que jamais pensei que eu fosse capaz de tal ato. E esse amor era mais forte. Estava radiante. Eu estava grávida! Nunca me imaginei assim, contudo, já que essa criança era uma realidade, amá-la era natural e belo.
Uma estrelinha surgiu em minha vida desde que meu grande sol se pôs para nunca mais nascer. Mas não nesse dia, porque uma pequena luminosidade invadia minha escuridão.
Em homenagem à minha melhor amiga, que nunca me abandonou, coloquei o nome de Nicole em minha filhinha.
A vida seguiu...
Mais três anos de amor e ódio.
Amor pela minha anjinha linda e sorridente. Ódio pelo anjo mau que quebrou parte do meu coração.
Até que fui capaz de amar novamente...
E
Adam se preparava para deitar. Esse era um momento de tortura para mim. Não o amava, e ele me obrigava a fazer coisas que eu não queria, mas que não tinha como evitar. Sentia-me como se fosse sua escrava. Poderia brigar, lutar, me debater. Porém, tinha que cumprir com minhas obrigações como sua esposa. Sim, eu era obrigada. Adam me violava, e protestar era algo extremamente doloroso, pois me trazia consequências graves. Pior ainda, busquei o apoio da minha mãe, e tudo que ganhei foi um austero ralhar. Estava sozinha nessa vida inexorável, sentia vergonha de contar tais fatos para Niki.
Meus momentos íntimos com Adam ficaram mais agressivos e intensos. Em uma noite, ele me agrediu e, como uma boa mulher que não aguentava esse tipo de desaforo, revidei o golpe. Adam tombou para o lado e bateu a cabeça na quina da cama. Arrependida da minha fúria – sabendo das consequências que tamanha imbecilidade me custaria –, corri até ele na intenção de verificar se estava tudo bem. Foi quando notei seu sangue escorrendo e fiz a maior nojeira da minha vida, passei a língua naquele filete rubro que descia da sua testa. A excitação aumentou e um desejo lascivo umedeceu meu corpo, aquilo era como um vinho entorpecente, deixando-me mais selvagem e voraz. Sorri maliciosamente e me senti forte. Adam entendeu errado, e eu também. Ainda não sabia por que tinha feito essa nojeira – raciocinar era fora de cogitação diante do torpor que me assolava –, contudo, aquilo me envolveu de um jeito tão intenso que foi impossível resistir. Adam retribuiu meu sorriso torto e lascivo, gostando, tanto quanto eu, da excentricidade da situação. Tivemos a primeira melhor noite de sexo das nossas vidas... Senti desejos sexuais pelo meu marido e me entreguei cheia de prazer. Depois disso, fiquei fraca e me sentia constantemente doente. Ele nunca comentou o ocorrido, no entanto, sempre achava que aconteceria de novo, e quando percebia que não, me surrava e me violentava.
Nessa noite, sentei-me na cama e encolhi-me, abraçando os joelhos. As lágrimas escorriam. Lágrimas de ódio. Não pelo meu marido, não mesmo. Mas pelo anjo que me deixou nessa situação. Eu culpava Emerson por tudo que acontecia. Por que ele nunca mais apareceu? Eu poderia ter sido feliz ao seu lado...
Senti um toque em meu rosto, como se alguém me acariciasse, mas não havia ninguém por lá, deveria ter sido só minha imaginação – ou loucura mesmo.
Eu costumava orar quando era criança. Agora, não mais. Entretanto, orei...
“Alguém me ajude, por favor. Ajude-me a passar esta noite sem me machucar, ajude-me a aguentar. Quem estiver ouvindo, ajude-me”.
Foi apenas um sussurro, bem baixinho, ninguém escutaria. Só que alguém escutou, porque, assim que acabei de orar, adormeci e tive o sonho mais lindo que um ser humano poderia ter. Sonhei com um anjo. Ele tinha cabelos escuros, compridos, e lindos olhos de anil com um fulgor prateado que me hipnotizava. Estávamos em meu quarto. Eu, sentada na cama, do mesmo jeito que ficava antes de dormir; e ele, em pé, ao meu lado. O anjo inclinou-se e sua boca ficou a centímetros da minha.
— Permite-me isso? – perguntou. E sua voz era doce, suave, inebriante, sedutora.
— Sim – balbuciei em resposta.
Ele me beijou de uma maneira que nunca fui beijada. E não paramos por aí. Tive a melhor experiência sexual da minha existência. No entanto, era somente um sonho e nada mais. Quando acabamos, o anjo me olhou e sorriu.
—Obrigado por me amar, flor de Arelli, por fazer de mim uma criatura feliz.
Nesse sonho, o nome Arelli não me pertencia por completo, mas era como se, de alguma forma, fosse meu, como se me chamasse assim todo o tempo, era parte de mim, uma ligação do passado...
— Não vá – pedi em desespero, mas ele já tinha desaparecido.
E
Acordei. Olhei para o lado e vi Adam arfando.
— Jess, você foi maravilhosa. Não sabia que podíamos fazer sexo desse jeito, como deuses!
E eu já não entendia mais nada. Havia dormido e sonhado. Ou não? No fim, tudo o que tive foi uma oração atendida. Enfrentei uma noite com Adam, e foi a segunda melhor de todas que tive com ele, simplesmente porque não me lembrei de nada. E poderia ser a melhor de toda a minha existência... Porque não foi meu marido quem me possuiu, e sim o anjo que me arrebatou...
Nove meses depois, Jacob nasceu e voltei a sorrir...
E
Jacob. Meu filhinho amado. Exatamente como a irmã, ele era lindo, com aqueles olhos azuis acinzentados, encarando-me e sorrindo cada vez que me reconhecia. Ele parecia um pequeno anjo perfeito. A criança mais calma e primorosa que já conheci. Era estranho falar, porém, toda vez que fitava meu filhinho, lembrava-me de olhos prateados me seduzindo.
E
Nessa rotina de amor, ódio, paciência e submissão, eu vivi. Sobrevivi.
Não vivia mais por mim. Existia por eles, para eles.

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