"Olhei fixo para a exótica tatuagem. Misturada às minhas feições Cherokee, parecia uma marca de bestialidade... como se eu pertencesse a tempos ancestrais, quando o mundo era maior... mais bárbaro".
FICHA TÉCNICA
• Título: Traída
• Série: The House of Night
• Volume: 2
• Autoras: PC Cast e Kristin Cast
• Editora: Novo Século
• Edição: 2009
• Páginas: 331
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.7679.250.5
• Tradução: Johann Heyss
• Gênero: romance sobrenatural
• Revisão: Alessandra Kormann
SINOPSE: Zoey se estabelece na Morada da Noite. Finalmente sente-se incluída e aprende a controlar seus poderes. Agora, ela supera novos desafios, luta contra a morte que se abate sobre adolescentes humanos e sobre a própria Morada da Noite. E, de repente, percebe que seu coração e sua alma acabam de ser partidos por uma grande traição. Neste segundo livro da série The House of Night, depare-se com novos mistérios, surpreendentes emoções e muita sensualidade.
"O melhor da beleza é que nenhum retrato pode expressá-la".
ASPECTO FÍSICO: Seguindo o aspecto da primeira publicação, o segundo volume da série conta com as mesmas idiossincrasias do anterior, ou seja, capa minimalista, com um arabesco que, agora sabemos, simboliza as tatuagens naturais da protagonista. Dessa vez, os destaques da capa são azuis sobre o fundo negro. Gosto de toda essa sutileza e, principalmente, da Lua e do título do livro em relevo. É uma peça chamativa justamente por ser singela. Na contra capa, apenas a sinopse sucinta do enredo – e eu não o compraria pela sinopse, que não ficou atrativa – e o pequeno arabesco com a curiosa frase “Get Marked”, estampada em fonte cursiva e charmosa. Nos cantos inferiores, o código de barras com o ISBN e a logomarca da editora. O interior do livro surpreende no começo, com as belíssimas páginas negras. Cada capítulo se inicia em páginas ímpares, e eu amo essa forma de diagramação. Falando em diagramação, temos um trabalho seco e, por tal motivo, primoroso. Fonte e espaçamentos adequados até a quem tem problemas de visão. Completando o pacote, as folhas foram impressas em papel pólen bold, o amarelinho preferido dos apreciadores de livros.
"Loren Blake era outro universo. Um universo totalmente fora de cogitação e impossivelmente sexy, ao qual eu não tinha acesso".
ENREDO: Zoey não é mais a esquisita da escola. Agora, suas marcas rendadas a sufragaram não apenas como popular, mas, também, como a exótica, imponente, respeitável e admirável líder das Filhas das Trevas e futura Grande Sacerdotisa. Pela primeira vez desde que foi marcada, Zoey revê sua mãe – e o padrastotário vai junto. - A situação não foi exatamente como deveria ser. Por sorte, Neferet conduziu e contornou a situação, impondo e exigindo que John Heffer – o padrastotário – respeitasse sua fé, principalmente dentro da Morada da Noite. O homem prefere se retirar a respeitar. E quando Zoey pensa que sua mãe fará o que ela tanto espera – enfrentá-lo e lutar pelo direito de estar com a filha –, Linda decepciona mais uma vez. É assim que começa o segundo volume da série. Não foi apenas Zoey quem sofreu com o dia de visita da família. No começo do livro, Aphrodite alcança sua redenção. Seus pais, tão elegantes, ricos e lindos quanto a filha, mostram-se pessoas de atitudes asquerosas, desprezíveis. Dois gananciosos que incitam a filha a fazer o que for preciso para derrubar alguém. Surpreendentemente, diante dos pais, Aphrodite mostra sua verdadeira face, uma garota justa, consciente e abnegada de poder. O problema é a pressão dos pais, que traçam um plano maligno contra Zoey e a obrigam a segui-lo. Como se não bastasse a árdua tarefa de assumir a liderança das Filhas das Trevas e remodelar o grupo, além de enfrentar as futuras tramoias de Aphrodite e a ausência de Erik Night – que viajou para participar do concurso de poesia –, Loren Blake chega para bagunçar ainda mais a mente de Zoey. Incrivelmente lindo, o professor poeta encanta a protagonista, arrebatando-a ao seu universo poético. E esse novo universo parecia bem, com inúmeras possibilidades, se... Aphrodite não surgisse para se tornar o pedregulho no caminho. Porém, a inimiga se mostra uma aliada. A avó de Zoey corre perigo, e uma visão de Aphrodite a alerta. Correndo contra o tempo, Zoey e seus amigos precisam salvar vovó Redbird e muitas pessoas que estão prestes a sofrer um acidente de dimensão catastrófica. E como desespero pouco é bobagem, uma série de assassinatos de jovens humanos redirecionam os detetives direto para a Morada da Noite, colocando Zoey como uma das suspeitas. É quando ela descobre que os antigos amigos não eram tão amigos, e que os novos inimigos podem ser mais fiéis do que se pode imaginar. Zoey foi traída... pelos seus mais improváveis amores. No Ritual da Lua Cheia, Neferet agindo estranhamente, morte de Stevie Rae, sequestro de Heath. Daí em diante, a história se desenrola com muitos mistérios, suspenses, dramas e surpresas suntuosas.
"Lembre-se, a escuridão não equivale ao mal, assim como a luz nem sempre traz o bem".
MINHAS CONSIDERAÇÕES: As autoras tentam parecer descoladas e desconstruídas. No primeiro capítulo, a protagonista narra sua indignação com os pais de Damen por não aceitá-lo do jeito que é: gay. Já no capítulo seguinte, a homofobia fica explícita quando Zoey narra sua saudade de Erik Night e o descreve como "um astro de cinema das antigas, sem as últimas latentes tendências homossexuais". Fico a me perguntar se um astro de cinema só pode ser bonito se for heterossexual... As autoras pecaram feio! A suposta abnegação e "santidade" de Zoey cai por terra justamente quando ela diz que não almejava o poder – mas também não o negou quando a liderança das Filhas das Trevas lhe foi entregue. – Não entendo o que se passa na mente de uma – no caso, duas – escritora em construir uma personagem vampira com conceitos "politicamente certinhos". É ridículo! Conceitos humanos – que já são cruéis, injustos e falsos – jamais fariam parte do mundo vampírico. Essa insistência de protagonizar o merecimento por praticar o bem supremo vai contra até a essência da principal divindade citada, Nyx. A heterossexualidade das autoras é tão frágil que elas precisam afirmar e reafirmar o quanto sua protagonista é hétero o tempo todo. No terceiro capítulo, novamente, enfatizam o fato. Zoey usa uma desculpa atrás da outra na narrativa para justificar o quanto acha Neferet bonita, ao dizer "sei que é meio estranho, ou talvez gay fosse a palavra correta, ficar reparando como uma mulher é bonita quando se é mulher também". Não há problema algum em achar outra pessoa bonita, seja ela do mesmo sexo ou não. Admirar a beleza de alguém não nos torna gay, tampouco nos sufraga como héteros. Trata-se apenas de evidenciar o dote físico de uma pessoa. A homofobia das autoras fica explícita a cada página. Ao citar Medusa como Grande Sacerdotisa vamp – com grande afinidade com o elemento terra, dom cedido por Nyx, mesmo Medusa sendo sacerdotisa do templo de Athenas –, as autoras desperdiçaram a chance de esculhambar o machismo e de elevar o matriarcado. Já que a sociedade vampira se declara como matriarcal, eis a oportunidade de revelar o verdadeiro mito sobre Medusa – que foi violentada por Poseidon dentro do Templo de Athenas. Ou seja, além de desrespeitar uma mulher em posição de liderança, colocando-a como uma escrava aos seus desejos sexuais, ele desrespeitou uma deusa! Pior ainda, Medusa é quem foi amaldiçoada. Gostei do lance de sincretizar o mito com o enredo da série, declarando Medusa como Grande Sacerdotisa vamp. Porém, faltou coragem para enfrentar o patriarcado. Isso porque são autoras bem sucedidas em país de primeiro mundo. Deveriam dar o exemplo, em seus livros, às jovens leitoras: mulher não abaixa a cabeça para macho, porque mulher não é escrava. – Gosto da ideia de Zoey não ficar presa a uma só paixão. Afinal, ela é uma vampira, a futura Grande Sacerdotisa da Morada da Noite. Poderosa, bonita. O problema é que a protagonista tem posicionamento discrepante em diversas cenas. Fala mal de nerd, diz que eles não tomam banho, depois se chama de nerd porque gosta de Starwars e porque ser nerd às vezes soa inteligente. Zoey é do tipo "pimenta no furico alheio é refresco". Praticamente deu pulos de alegria quando Eliot morreu, mencionando até o cheiro atrativo do seu sangue. Porém, quando acontece com um dos seus amigos, o drama rola solto. Em um dos capítulos finais, o personagem Erik fala que os desenhos na nova tatuagem de Zoey têm runas. Logo quando pensei que as autoras haviam feito uma pesquisa minuciosa para compor o enredo, deparo-me com isso, decepcionando-me por completo. Runas são exclusividade nórdica. Vamos falar um pouco sobre essa errônea ideia de que "runas" são de vários tipos para várias ramificações da magia. Runas são, antes de tudo, caracteres de um alfabeto escandinavo. Portanto, não existem "runas druidas", o nome disso é "ogham", um alfabeto irlândes. Também não existem "runas enoquianas", como aquela série disseminou e muitos "wiccans" adotaram; o real nome de tais símbolos são "chaves enoquianas". Enfim, esta é apenas uma explanação superficial para deixar claro o lapso das autoras. Porém, vejo que isso é um erro comum até entre os pagãos. Um erro que deve ser consertado, e que farei questão de desmistificar sempre que possível.
"Fascinada, observei uma fina linha escarlate surgir contra a pele branca. Então o cheiro me atingiu... Rico, sombrio, sedutor. Como chocolate, só que mais doce e selvagem... Ele exercia sobre mim uma atração que jamais senti antes".
GRAMÁTICA: Fico me perguntando quanto ganha – no mole – um revisor de grandes editoras, porque é nítida a falta de atenção – e de trabalho – até mesmo na primeira leitura. Sem mencionar a não adequação da tradução ao coloquial do nosso idioma, deixando o texto com excesso de repetições de pronomes pessoais do caso reto e de pronomes possessivos, algo que é necessário na língua inglesa e dispensável na língua portuguesa. Convenhamos, para que tantos “ele, dele, ela, dela, nela” ... a frase se torna deselegante, sem um pingo de estética sonora ao ler em voz alta. Irritante ao extremo. E os erros? Sim, preciso mencioná-los, pois a obra é traduzida, portanto, a culpada dos erros recairá na revisora, que certamente teve tempo para fazer três revisões e deixou passar os erros que serão citados. Na página 31, primeiro parágrafo: "sei" pai estava dizendo... em vez de "seu" pai estava dizendo. Página 42, antepenúltimo parágrafo: "quebrou o encanto entre eu e Loren". O correto seria "entre mim e Loren". Esse mesmo erro se repete no último parágrafo da página 74, no segundo parágrafo da página 127, também no segundo parágrafo da página 275, no parágrafo sete da página 280 e no primeiro parágrafo da página 282. Calma, os erros não acabaram... Na página 117, segundo parágrafo, encontramos: "além dessa história estavar girando sem parar"... erro de digitação (?) = falta de atenção da revisora. Nada mais a declarar, porque mencionar as palavras contraídas me colocará em colapso mental.
NOTA FINAL: Mesmo diante de tanta experiência de PC Cast, a autora declarou que precisou recorrer à filha, Kristin Cast, para compor as falas adolescentes dos personagens. Independentemente disso, o que me irrita nos livros dessa série são as controvérsias da protagonista e seus preconceitos, mesmo que Zoey insista em dizer que não é preconceituosa. Há muitos erros que poderiam ser consertados apenas com uma pesquisa minuciosa, e não colocando qualquer merda para que os jovens leiam. Livro é cultura, e desinformação não combina com cultura. Não indico! A série está longe de ser sobrenatural ou pagã, é racista, machista, homofóbica e sem noção. Vou ler todos os volumes? Sim, porque sou masoquista e tenho problemas com coisas inacabadas. Já me embrenhei nessa tortura, aguentarei até o fim.
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