segunda-feira, 9 de outubro de 2023

Resenha: Marcada - The House of Night, Vol 1

 


"Olhei fixo para a exótica tatuagem. Misturada às minhas feições Cherokee, parecia uma marca de bestialidade... como se eu pertencesse a tempos ancestrais, quando o mundo era maior... mais bárbaro".

FICHA TÉCNICA
• Título: Marcada
• Série: The House of Night
• Volume: 1
• Autoras: PC Cast e Kristin Cast
• Editora: Novo Século
• Edição: 2009
• Páginas: 327
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 975.85.7679.229.1
• Tradução: Johann Heyss
• Gênero: romance sobrenatural
• Revisão: Equipe Novo Século

SINOPSE:
 Em The House of Night você vai conhecer um mundo parecido com o nosso, exceto pelo fato de que nele os vampiros sempre existiram e convivem tranquilamente com as pessoas normais. No primeiro volume, Marcada, Zoey, uma garota de 16 anos, acaba de receber uma marca que vai transformar a sua vida por completo. Zoey terá que se afastar de seus amigos e de tudo aquilo que fazia parte da sua vida até então. A menina vai se transformar em vampira e usufruir de poderes que ela nem imaginava possuir. Mas para isso ela precisa suportar o difícil período de transformação, caso contrário morrerá.

"Depois deste dia minha vida nunca mais seria a mesma. E por um momento – só por um instante – me esqueci do horror de ser excluída e senti um chocante estouro de prazer, enquanto internamente regozijava o sangue do povo da minha avó". 

ASPECTO FÍSICO: Apesar de minimalista, a capa chama atenção – exatamente por sua simplicidade e pelos elementos em destaque. – Com um arabesco floral – que nada tem a ver com o enredo, tampouco representa algo relacionado às mitologias abordadas ou à cultura pagã exercida –, a imagem rosa parece saltar sobre o fundo negro. Acima, a barra pink ilumina a peça na prateleira, anunciando a obra como mais um dos best sellers do New York Times. O título do livro vem em alto relevo, com fonte gótica e rebuscada, ganhando uma lua crescente – também em alto relevo – à esquerda. A contra capa tem uma sinopse curta (e nada chamativa) acima da caixa pink, que traz as opiniões dos principais veículos de comunicação estadunidenses. Por dentro, as quatro primeiras páginas fazem o coração dos leitores ávidos palpitar com as folhas negras. A diagramação é simples, sem nada em especial, apenas mantendo o clássico espaçamento entre as mudanças de cenas e os capítulos iniciando-se sempre nas páginas ímpares. No todo, é uma peça elegante, leve e... diferente.

"Lembre-se, a escuridão nem sempre equivale ao mal, assim como nem sempre a luz traz o bem".

ENREDO: Enquanto Zoey conversa com sua amiga, Kayla, sobre a embriaguez de seu namorado, Heath, em meio à estranhas tosses, algo surpreendente acontece. Um vampiro rastreador a encontra, anunciando que Zoey foi marcada. Seu destino muda. Zoey não pode mais ficar onde está, precisa seguir à Morada da Noite, o único destino que pode lhe mostrar um futuro certo. Caso contrário, morrerá. O mundo não é mais o mesmo, a sociedade humana precisa dividir lugar com criaturas sobrenaturais. Na verdade, para muitos – cientistas –, os vampiros eram apenas criaturas com genes modificados, mutação de causa desconhecida, como uma doença que, de certa forma, evoluía o corpo... ou matava. O fato era: cada um no seu canto e todos se odiando em silêncio. O problema é que Zoey se tornou uma aberração odiada por todos que conhecia, inclusive sua própria mãe. Linda, mãe de Zoey, era casada com John Heffer, um idiota repugnante, Veterano do Povo da Fé, grupo de hipócritas cristãos que achavam que tudo era obra do diabo, inclusive Zoey e sua nova marca. Surpreendentemente, Linda se juntou ao marido para fazer coro contra Zoey, colocando a filha como aberração demoníaca que precisava de oração. Doente, pois precisava desesperadamente correr para a Morada da Noite, Zoey se viu sozinha, e sua única aliada seria vovó Redbird, anciã materna da protagonista, descendente dos Cherokee e expert nos assuntos místicos. Zoey não queria a nova vida que a aguardava. Apesar da mãe omissa, do padrasto idiota, dos irmãos fúteis e falsos, do namorado bêbado e da prova de geometria, ela queria o seu mundo como sempre foi. Então, correu até a Fazenda da vovó Redbird, em busca de socorro. É quando um evento mágico acontece. Zoey tem um experiência mística diante da deusa da noite, Nyx, que a induz a aceitar sua nova jornada e seu destino. Vovó Redbird leva Zoey à Morada da Noite. Lá, nossa protagonista conhece a Grande Sacerdotisa, Neferet, que se torna sua mentora. Logo faz amizade com a espevitada caipirinha Stevie Rae. A marca de Zoey é diferente das dos demais novatos. Enquanto todos têm uma lua crescente na testa, a dela evoluiu, tornando-se uma lua cheia. E isso chama a atenção de Aphrodite, a aluna mais popular – e maléfica – da Morada da Noite. Temendo pela suposta concorrência de popularidade que a recém chegada pode lhe causar, Aphrodite não se acanha e ameaça Zoey, que também não se rende perante a petulância da poderosa e efusiva loira. E o problema aumenta quando Erik Night, ex-namorado da suntuosa Aphrodite, surge na vida de Zoey, seduzindo-a e, com isso, gerando invejosos olhares que lhes causam muitos problemas.

"O que sabemos é que uma sociedade matriarcal, como a nossa, não implica necessariamente oposição aos homens. Até Nyx tem um consorte, o Deus Erebus, a quem ela é fiel".

ESCRITA: Linguagem coloquial, com excesso de gírias e palavras contraídas nos diálogos. Leitura fluída, de fácil entendimento. O enredo nos prende a atenção. Apesar de ser mais uma série de vampiros adolescentes na escola, a premissa é diferente. O mundo é diferente, uma sociedade distópica que "aceita" os seres sobrenaturais em seu entorno, convivendo de forma mútua e supostamente pacífica. Bem, essa suposta paz perde o sentido quando falamos de um grupo específico: os Veteranos Povo da Fé – aquela turma de preconceituosos e falsos moralistas que criticam a tudo e a todos porque apenas eles são santos. Ou seja, nada de novo no reino da Dinamarca, pois é exatamente o que vivemos atualmente. – Criticar os tão santos, maravilhosos e perfeitos "cristãos" (puro sarcasmo) foi a jogada ousada das autoras, o primeiro ponto que ganhou minha atenção. Odeio enredos mimizentos e cheios de firulas, onde o "bem vence o mal, espanta o temporal" e blábláblá. Se falamos de vampiros, vamos falar direito, vamos ousar, chocar, fazer da série um marco contra essa patifaria preconceituosa da massa que se acha digna e santa – A verdade é o total oposto disso. Eeita povinho maléfico esse bando de falsos cristãos... – A cultura Cherokee é explorada, mostrada ao leitor em doses homeopáticas, algo novo nesse tipo de enredo; e acabei descobrindo que uma das autoras realmente é uma mestiça com sangue Cherokee nas veias. Aliás, as autoras são mãe e filha. No caso, a filha, Kristin Cast, é a indígena em questão. Vovó Redbird, ainda que em sua simplicidade indígena e completamente conectada à natureza e à magia, surge sempre como uma sábia anciã, assemelhando-se a uma divindade ancestral. Neferet é uma personagem ímpar. Forte, imponente, respeitada. Enigmática, fato que a torna interessante. Na Morada da Noite, o grupo de Zoey passou a impressão de que as autoras quiseram enfatizar o estereótipo dos "rejeitados", tendo: Damien, um gay; Erin, a loira metida; Shaunee, a negra; Stevie Rae, a caipira; e a própria Zoey, descendente indígena. Em certa conversa, Stevie Rae fala sobre um garoto homofóbico, citando que ele havia mudado o nome para Thor quando chegou à Morada da Noite, e completando: "isso não diz tudo"? – colocando todos os nórdicos como homofóbicos. Não, eles não são. A cultura escandinava, bem como seus achados arqueológicos, nos mostram ritos ao deus Freyr, onde relações sexuais homoafetivas eram normais. Mais pesquisas e menos estereótipos fariam bem para a construção de uma série desse porte. – O paganismo apresentado na Morada da Noite é baseado em cultura wicca, destacando-se nos cumprimentos típicos desse antigo – e extinto – Coven, como "abençoada seja" e "merry meet". O ritual – Esbbath – da Lua Cheia, apesar da deusa matrona ser do panteão grego – Nyx –, segue a tradição celta da religião druida. Ou seja, uma miscelânia digna de neo-wiccanos universalistas que não sabem mais o que fazem. A protagonista é muito crítica em relação a tudo e a todos, chegando a criticar até um cabelo tingido, como se isso fosse um dos crimes mais hediondos do universo. Em um dos rituais das Filhas das Trevas – grupo de Aphrodite – é usado incenso de maconha – erva típica desse tipo de celebração, principalmente para conduzir os participantes à viagem astral. – Zoey volta a criticar mentalmente, zombando de tudo em sua narrativa. Tais críticas deixaram claro o preconceito das autoras com tudo, o que é uma pena, já que duas mitologias foram bem abordadas. O primeiro Esbbath que Zoey participa é um ritual da Lua Cheia, em pleno outubro, e as autoras não citaram que essa seria uma Lua Rosa – Lua Cheia que antecede um grande Sabbath; no caso, o Halloween; ou, para os pagãos druidas, o Samhain –, provando que a pesquisa não foi feita. Elas poderiam ter explorado a situação, já que a Lua Rosa é considerada a Lua dos Desejos, sejam eles quais forem, bons ou ruins. Vovó Redbird é humildemente mestra na magia, chegando a ensinar para Zoey sobre banho de purificação e como montar um bastão de defumação com sálvia e lavanda, ervas usadas justamente com esse propósito. Melhor personagem!

"Ao dizer as últimas duas frases, ele fixou seus olhos nos meus e, exatamente como no dia anterior, parecia que não tinha mais ninguém no recinto, ninguém mais no mundo".

GRAMÁTICA: Vou dispensar comentários excessivos sobre tudo que me irritou nesse quesito. Sendo a Novo Século uma das grandes editoras do país, é triste perceber que a equipe simplesmente traduziu e nada revisou, tampouco se deu ao trabalho de adaptar expressões norte-americanas aos aspectos coloquiais elegantes da língua portuguesa. E o resultado disso foi uma enxurrada cansativa e chucra de “ele, dele, nele, ela, dela, nela”, e exageradas repetições de verbos de ligação seguidos de gerúndios: “estava fazendo, ia lendo, estava estudando, ia caminhando”. Qual o problema? Nenhum, apenas minha irritação em nível hard ninja mesmo, porque, convenhamos, “fazia, lia, estudava, caminhava” fica incrivelmente mais sonoro e inteligente. Sim, linguagem coloquial, no entanto, não precisa ser uma linguagem burra. Sim, uma série adolescente, porém, não é preciso “emburrecer” os jovens. Fora isso, encontrei erros de pontuação após os seguimentos de fala na narrativa, além de... chega. Vou concluir com: os revisores não trabalharam. Fato!

NOTA FINAL: As autoras deixaram a impressão de que, um belo dia, sentindo-se experts em mitologias grega e Cherokee, decidiram escrever sobre o assunto. Fizeram uma pesquisa bem básica sobre wicca e se deram diplomas de mestras no assunto. Envolveram um paganismo daqui e dali, encheram a protagonista do que estava em seus próprios corações – ou seja, preconceito, racismo, machismo, inveja e mais um monte de “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” – e criaram a série. A premissa era boa, se as autoras não estragassem tudo com suas enxurradas preconceituosas. O problema é que... agora que comecei, lerei todos os volumes. Indico? Não. A protagonista é irritante, crítica demais e imensamente hipócrita. E não se trata de verossimilhança, pois nós sabemos que adolescentes se sentem os donos do mundo e da verdade absoluta. O problema é que os adolescentes desta década não aceitam mais isso, eles são mais inteligentes e desconstruídos que nós, e a série cairia por terra se fosse republicada atualmente. Então, não... não indico. A não ser que você queira passar raiva, aí é por sua conta e risco.

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