segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Resenha: O Mar de Monstros

 


"Ele avançou com um marshmallow assado na ponta de um galho fino e tentou arrancá-lo com muita naturalidade. Mas, antes que pudesse tocá-lo, o marshmallow saiu voando do galho. Tântalo tentou apanhá-lo no ar, mas o marshmallow cometeu suicídio, mergulhando nas chamas".

FICHA TÉCNICA
• Título: O Mar de Monstros
• Série: Percy Jackson e os Olimpianos
• Volume: 2
• Autor: Rick Riordan
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2010
• Páginas: 286
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.98078.44.1
• Tradução: Ricardo Gouveia
• Gênero: aventura mitológica, mitologia grega, literatura infanto-juvenil
• Revisão: Maria José de Sant'Anna | Umberto Figueiredo Pinto

SINOPSE:
 O ano de Percy Jackson foi surpreendentemente calmo. Nenhum monstro que colocasse os pés no campus da sua escola, nenhum acidente esquisito, nenhuma briga em sala de aula. Mas quando um inocente jogo de queimado entre ele e seus colegas se torna uma disputa mortal contra uma tenebrosa gangue de gigantes canibais, as coisas ficam, digamos, feias. E a inesperada chegada de sua amiga Annabeth traz outras más notícias: as fronteiras mágicas que protegem o Acampamento Meio-Sangue foram envenenadas por um inimigo misterioso e, a menos que um antídoto seja encontrado, o único porto seguro dos semideuses será destruído. Nessa vibrante e divertidíssima continuação da série iniciada com O Ladrão de Raios, Percy e seus amigos precisam se aventurar no Mar de Monstros para salvar o Acampamento Meio-Sangue. Antes, porém, nosso herói entrará em confronto com um mistério atordoante sobre sua família - algo que o fará questionar se ser filho de Poseidon é uma honra ou uma terrível maldição.

"Eu vi a mim mesmo - um reflexo, mas não um reflexo. Ali, cintilando no pano estava uma versão melhorada de Percy Jackson - com as roupas certas, um sorriso confiante no rosto. Meus dentes estavam alinhados. Nenhuma espinha. Um bronzeado perfeito. Mais atlético. Talvez alguns centímetros mais alto. Era eu, sem os defeitos". 

ASPECTO FÍSICO: A capa segue o mesmo estilo do volume anterior, com as letras do título em dourado e a arte exclusiva da série. Porém, a cor predominante da vez é o marrom. Contra capa e diagramação no mesmo padrão – e eu amo isso em séries. – Portanto, não há muito o que comentar sobre esses quesitos. Diagramação com espaçamento adequado, limpa, sobre as páginas amareladas do papel pólen soft, antirreflexivas, facilitando a leitura. O tamanho da fonte entra nesse conjunto facilitador, resultando em vontade de não parar nunca de ler, já que a escrita de Riordan é sempre convidativa. Todo o conjunto do aspecto físico é muito atrativo. E ainda que não fosse, o primeiro livro ganhou nossos corações. A capa poderia ser a mais horrenda possível – o que não é o caso –, ainda assim, compraríamos. Riordan conquistou seu público pelo enredo.

"Não somos tão diferentes, você e eu. Ambas buscamos o conhecimento. Ambas admiramos a grandeza. Nenhuma de nós precisa ficar à sombra de homens".

ENREDO: Nova escola, nova vida, tudo em paz na vida de Percy. E tudo parecia – e poderia – ficar em paz, se uma notícia não o abalasse logo no café da manhã. Atordoado com o sonho esquisito que teve, Percy suprimiu essa sensação com a empolgação do último dia de aula e com a expectativa de passar um divertido verão no Acampamento Meio-Sangue. É quando Sally, sua mãe, lhe conta sobre o telefonema de Quiron e lhe explica que o Acampamento não é um lugar exatamente seguro para os semideuses naquele momento, e promete ao filho que falarão mais sobre o assunto no fim da tarde. Frustrado, Percy segue para a escola e tem uma manhã divertida com seu novo e esquisito – e enorme – amigo, Tyson. E um inimigo em comum, o valentão da escola, Matt Sloan, que aparece acompanhado com o dobro de brutamontes em seu séquito do mal. E quando apenas um jogo de queimado mais violento que o normal aconteceria, Percy percebe que as bolas de borracha foram trocadas por balas de canhão flamejantes, e uma guerra entre ele e os monstros acontece bem ali, no ginásio da escola. Com a ajuda de Tyson, Percy se safa das investidas e socorre os outros colegas. E quanto mais monstros eram dissolvidos com o contra-ataque de Tyson, mais o "Zé Ninguém" se irritava. Tyson é atingido e fica atordoado, fora de combate. O fim parece iminente para Percy, que só teria uma mínima chance diante daquele monstro... até que surge Annabeth para salvá-lo. Em uma aventura pelas ruas de Manhattan, no táxi da danação, o trio – Percy, Tyson e Annabeth – chega ao Acampamento Meio-Sangue, que está sendo ferozmente atacado por touros de Colchis, criações do deus Hefesto. Acreditando que Tyson era apenas um garoto humano, grande e bobo, Percy ordena para que ele se mantenha longe do perigo. Depois, corre para ajudar os campistas que batalham contra os touros mecânicos cuspidores de fogo. Durante a peleja, Percy se fere e um dos touros está prestes a matá-lo, quando Annabeth clama para que Tyson o ajude. O touro cospe um jorro de chamas no grandão, e Percy acredita que esse era o fim do seu amigo. Porém, surpreendido, o filho de Poseidon testemunha o grande Tyson derrubando aquela máquina, enquanto Clarisse e sua turma acabava com a outra. No fim da peleja, vem a revelação: Tyson era um ciclope, filho de Poseidon, irmão de Percy. A grande questão era: como aqueles touros conseguiram avançar pelos limites do Acampamento Meio-Sangue? A resposta era cruel... o Pinheiro mágico, que basicamente era o espírito de Thalia, filha de Zeus, que se sacrificou pelos amigos Annabeth e Luke, parecia adoecido. O Pinheiro de Thalia reforçava a barreira mágica que protegia o Acampamento Meio-Sangue... e ele estava morrendo, foi envenenado, e apenas um objeto poderia salvá-lo, o Velocino de Ouro.

"Dizem que as sereias cantam a verdade sobre o que a gente deseja. Cantam coisas a seu respeito que nem você mesmo percebe. É isso que é tão encantador. Se você sobrevive... Se torna mais sábio".

ESCRITA: Percy tem o dom de se compadecer dos mais fracos, isso é uma característica que o sufraga como herói em nossos corações. No primeiro livro, acolheu o suposto aleijado Grover, defendendo-o do bullying na antiga escola. Agora, seu coração o leva para o grandão e infantilizado Tyson, uma alma pura e amedrontada. Apesar da névoa que mantém as aparências e oculta a verdadeira natureza desses amigos, antes mesmo de desvendá-los, Percy enxerga além. E é isso que nos ganha. Em outro ponto da história, especificamente no capítulo 4, página 53, a reação e a hesitação de Percy para encarar Tyson denota uma idiossincrasia típica dos autistas, e isso me arrebatou de vez para amar incondicionalmente esse personagem, vendo-o como se Percy Jackson fosse meu próprio filho autista. Tyson é um personagem carismático, cativante, desses que nos deixam com vontade de colocar no colo, encher de carinhos e cuidados e de protegê-lo com todas as forças. A sagacidade de Annabeth a sufraga como preferida, tirando-a da condição de coadjuvante para co-protagonista. Seus medos dão sentido à coragem, e são esses medos – normais à sua idade – que a tornam uma criatura verossímil. Todo herói tem um defeito mortal, como um pecado capital, algo que parece sutil, mas que o levaria à desgraça... ou à morte. O de Annabeth se chama Húbris, que significa arrogância e insolência, achar que pode fazer as coisas melhor que qualquer um. Circe foi colocada como uma femista (algo que beira o nazismo dentro do feminismo) ultra radical. Uma personagem forte que só profere audácias – "os homens são porcos"... "os homens ficam com toda glória". – O autor fez a imagem de qualquer mulher determinada como uma criatura maléfica com essa personagem. 

"O silêncio era assustador. Eu não conseguia ouvir nada, a não ser o sangue correndo na minha cabeça [...] Como a música podia desviar tantas vidas do seu curso? Sobre o que as sereias deviam cantar? [...] Podia sentir as vozes das sereias vibrando no madeirame do navio, pulsando em meus ouvidos junto com o ruído do sangue [...] Tive vontade de destampar minha espada, mas não havia nada contra o que lutar. Como se luta contra uma canção?".

GRAMÁTICA: O que dizer da Intrínseca? É uma delícia ver que a equipe dessa edição trabalhou com tanto cuidado e maestria em uma obra tão rica. Como disse na resenha anterior: quando se trata de Intrínseca, erros são coisas raras de se ver. Os revisores foram primorosos no trabalho de correção, pontuando corretamente até os seguimentos de fala, algo tão difícil de ver ultimamente. Aliás, pontuação é um problema nas publicações atuais. A dupla está de parabéns, assim como o tradutor, Ricardo Gouveia, que soube adaptar todas as expressões para que se adequassem ao nosso idioma sem perder a essência e a ironia típica da escrita de Riordan. 

NOTA FINAL: Com uma narração gostosa, fluída e divertida, Rick Riordan nos transporta ao mundo de Percy Jackson. E mesmo se tratando de um gênero literário mitológico/fantasioso, a vulnerabilidade e os medos dos personagens tornam o enredo verossímil, afinal, são pré-adolescentes lutando para salvar o mundo humano que tanto os maltrata. É perfeito, delicioso, fantástico! Esqueçam o filme – que nada tem a ver com a obra – e corram para o livro. Garanto que a emoção vivenciada pelos leitores a cada página vale a pena. Vocês não vão se decepcionar.

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