“Era uma vez um pequeno príncipe que habitava um planeta pouco maior que ele, e que precisava de um amigo”...
FICHA TÉCNICA
• Título: O Pequeno Príncipe
• Autor: Antoine de Saint-Exupéry
• Editora: Agir
• Edição: 51ª Edição | 2015
• Páginas: 96
• Formato: 10 X 13 cm
• Gênero: Infanto-juvenil
• Tradução: Dom Marcos Barbosa
• Revisão: André Marinho e Taís Monteiro
“Se alguém ama tanto uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para fazê-lo feliz quando a contempla. Ele pensa: minha flor está lá, em algum lugar... Mas se o carneiro come a flor, para ele é como se todas as estrelas repentinamente se apagassem!”
Com a capa e a aquarela original do autor, iniciamos nossa viagem com esse clássico infantil. Espera... infantil? Calma, já vamos falar sobre isso. Por partes, iniciamos com o enredo. Mesmo sendo um livro pequeno, de curta leitura e com muitas páginas contendo apenas ilustrações, a essência do texto é formidável, digna de longas dissertações. Sendo assim, temos muito o que falar dessa obra.
Narrado em primeira pessoa, a história nos dá a entender que o próprio autor é o personagem coadjuvante do enredo, tendo o surgimento do pequeno príncipe como marco inicial e, automaticamente, colocando-o como protagonista supremo. Tudo gira em torno do loirinho que surgiu do nada, no meio do deserto, ao nosso narrador, cujo avião entrara em pane e se viu obrigado a um pouso forçado nas areias do Saara. Enquanto o narrador peleja para consertar a aeronave no calor escaldante, o principezinho começa a contar sobre suas aventuras. Bem, a essa altura do campeonato, creio que a maioria de vocês já deve ter lido essa maravilhosa pérola da literatura. Ainda assim, tentarei ao máximo evitar os spoilers. A jornada do pequeno príncipe tem início quando ele conta ao novo amigo sobre seu minúsculo planeta e sua melhor amiga: uma flor. Ansiando por uma deleitosa aventura, ele se despede da sua rosa em uma cena comovente.
“É claro que te amo” – disse-lhe a flor. – “Foi minha culpa não perceberes isso. Mas não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Tenta ser feliz... Larga essa redoma, não preciso mais dela”.
Fica claro que, apesar do amor mútuo entre o príncipe e a flor, a relação deles era tóxica. A flor era uma personagem autoritária, vaidosa, manipuladora e usava do drama para incutir a culpa no doce e inocente coração do pequeno príncipe. Contudo, ele a amava, e nada disso importava. E a flor só percebeu a importância dessa amizade no momento da despedida.
“É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá me visitar? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles, eu tenho as minhas garras”.
Na sua aventura, o pequeno príncipe visitou sete planetas. Vamos conhecer um pouquinho sobre cada um...
1º planeta: habitado por um rei.
“Se eu ordenasse que um general se transformasse em uma gaivota e ele não obedecesse, a culpa não seria do general, seria minha” [...] “É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar” – replicou o rei. [...] “Tu julgarás a ti mesmo. É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdadeiro sábio”.
2º planeta: habitado por um vaidoso.
“Porque, para os vaidosos, os outros homens são seus admiradores”.
3º planeta: habitado por um bêbado, que bebia para esquecer que tinha vergonha de beber.
“As pessoas grandes são decididamente estranhas, muito estranhas”.
4º planeta: habitado por um empresário que possuía 501.622.731 estrelas.
“Eu, se possuo um lenço de seda, posso amarrá-lo em volta do meu pescoço e levá-lo comigo. Se possuo uma flor, posso colhê-la e levá-la comigo. Mas tu não podes levar as estrelas”.
5º planeta: habitado por um acendedor de lampiões.
“Seu trabalho ao menos tem sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, ou uma flor. Quando o apaga, porém, faz adormecer a estrela ou a flor. É um belo trabalho. E, sendo belo, tem sua utilidade” [...] “É o único que não me parece ridículo. Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio”.
6º planeta: habitado por um geólogo.
“Minha flor é efêmera” – pensou o pequeno príncipe. – “e não tem mais que quatro espinhos para defender-se do mundo. E eu a deixei sozinha”.
7º planeta: a Terra.
Na Terra, além do papo que trocou com o narrador, o príncipe também conversou com uma serpente, com uma flor do deserto, com um jardim de rosas e com uma raposa. E como era sábia a raposa. Se eu pudesse, transcreveria todo o diálogo belíssimo de ambos. Porém, decidi separar alguns trechos – que colocarei no final da resenha – e postar apenas a sublime frase aqui:
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Ainda na Terra, o principezinho também conversou com um manobreiro e com um vendedor de pílulas especiais que matavam a sede. E nessa rápida jornada, o pequenino ensinou muito mais que a própria vida. Ao mesmo tempo que os trechos finais nos preparam para a despedida, nossa alma anseia por outro final, porém, nos vemos chocados com o destino inusitado do pequeno príncipe. Eis a jogada de mestre, o autor ativa nossa imaginação para as mais diversas teorias. Eu tenho as minhas... já associei toda a personalidade do príncipe com a do meu filho autista. Já refleti e meditei sobre cada metáfora encontrada. Já cogitei um delírio do narrador, como uma miragem causada pelo calor e pela sede no deserto. Já filosofei tanto... Mas encerro aqui meu discorrer sobre o enredo. Vamos falar de outros pontos que gosto de destacar em uma resenha desse naipe.
“Eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim” [...] “Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo” [...] “Se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho dos teus passos, que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fossem música”.
Toda a estética do livro é convidativa ao universo infantil, principalmente por ser uma obra ilustrada. Porém, o enredo se torna pesado com a linguagem clássica, palavras insólitas e termos que fogem do cotidiano dos pequeninos, e isso pode ser um ponto de desistência. Aliás, como o próprio autor cita na nota final, O Pequeno Príncipe é uma obra para todas as idades. Na minha humilde opinião, um adulto consegue apreciar com mais acuidade essa rápida leitura, que, apesar da linguagem clássica, é fluída. Falando em elegância, o jogo de palavras de Antoine é um deleite, beirando o poético. Ele nos conduz a refletir sobre os ínfimos detalhes que desprezamos no dia a dia, mas que, sem eles, não conseguimos sobreviver. A água é um bom exemplo disso.
Não encontrei erros gramaticais, apenas alguns poucos lapsos de pontuação – vírgulas faltando, principalmente. – Eu tenho duas edições da obra, presentes que recebi de duas pessoas importantes que sabiam da minha paixão pelo Pequeno Príncipe – justamente por conta das metáforas contidas na obra, nas quais faço uma alusão ao convívio com meu filho autista; um dia discorro sobre isso aqui, no blog. – A versão que usei para releitura e análise foi a mais simples, com capa maleável, brilhante e páginas com imagens coloridas e impressas em papel off-set (branco). A edição da foto foi um dos presentes que mais amei no meu aniversário em 2016, capa dura almofadada, um primor a uma apaixonada por tal texto.
Finalizando nossa resenha, creio que O Pequeno Príncipe se tornaria ainda mais atrativo ao público-alvo se a linguagem passasse por uma atualização, trocando a clássica pela coloquial, mas sem perder a elegância e a eloquência. Afinal, não estamos mais em 1943, ano da primeira edição da obra. As crianças não falam mais “tu fizeste isso”. Hoje em dia, o pronome de tratamento simples (você) se adéqua melhor ao vocabulário infanto-juvenil. Fica a dica para que algum editor corra atrás disso... eu, certamente, faria questão de folear O Pequeno Príncipe e lê-lo falando “você fez isso”, seria muito mais divertido e conveniente a idade... O que estou dizendo? Esse principezinho pode ter milhões de anos... por sorte, seu coração é puro, e sua alma não passa de uma eterna criança.
Leitura que sempre farei questão de indicar! E não se esqueçam de pegar um bloco e uma caneta, pois, acreditem, anotações se farão necessárias, e todas se tornarão ditados para a vida.
“Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei agitada e inquieta: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual”.
Gostaram? Já leram? Comentem e façam uma blogueira feliz!


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