quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Crônica: Florescer no Caos

 


Aquele meu dia começou agitado. O trabalho consumiu minha mente, o que, de fato, foi bom. Colocando meus dotes gastronômicos e a nova profissão em ação, aceitei um pedido grande e urgente para o mesmo dia. Preparei-me e parti para o ataque. Encomenda pronta cerca de três horas depois que o pedido foi feito. Avisei minha filha, mediadora entre mim e o cliente, e foi à partir daí que um bom dia de trabalho virou minha apreensão...

Voltando um pouco para um passado não tão distante, a pandemia causou um balacobaco na minha vida financeira. Aguentei o quanto pude e me saí bem no primeiro semestre de 2020, mesmo com o lockdown. Em outubro, a história começou a desandar, e tive que desistir de uma das lojas.

“Em dezembro, as coisas vão melhorar” – pensei, fazendo planos e investindo no estoque da loja remanescente. Triste engano...

Dezembro chegou, as vendas caíram consideravelmente, não alcancei nem 10% das vendas dos anos anteriores. Sobrevivi com a loja aberta em janeiro de 2021, arrastei-me como pude em fevereiro, tendo um saldo de vendas de absurdamente quarenta e cinco reais!!! Dia 1 de março de 2021 fechei as portas definitivamente. Joguei a toalha, declarei minha falência. Segui por outros rumos, afinal, mãe solo não pode se dar ao luxo de ficar parada. Cursada e diplomada, descobri minha paixão pela gastronomia e me tornei uma confeiteira com atividade informal – vendendo minhas doces obras de arte para os amigos e para os familiares.

Minhas lojas ficavam dentro de um mini shopping muito charmoso, era o segundo mais bonito da região. Eu tinha orgulho daquele estabelecimento confortável e aconchegante. Achei que tinha feito muitos amigos por ali... e este foi o ponto crucial do meu dia que começou bem e se tornou uma bomba relógio na minha alma.

Quando fechei as lojas, procurei manter contato com outros lojistas que continuaram por lá. Eram pessoas simpáticas, que passavam a maior parte do dia em harmonia no local do trabalho. Infelizmente, uma vez que o dinheiro acaba, o carinho e a amizade se esvaem junto. Notei posts insidiosos e debochados nas respectivas redes sociais.

“Não tem nada a ver comigo” – dizia a mim mesma, afinal, a carapuça não me servia.

Mas, sim... tristemente, tive que admitir, eram para mim. As pessoas foram se afastando e me evitando, até que, por fim, não restou nada. Eu não recebia mais a resposta de um “bom dia”, ou de “você está bem?”... Tampouco de um “quer conversar?”... Bem, tudo isso logo se conectou com o meu dia caótico.

Voltando ao fatídico momento deste dia em questão, avisei minha filha de que as encomendas estavam prontas e fui organizar minha tarde. Meus planos eram: levar meu filho no curso, pagar a mensalidade do curso, entregar as encomendas e esperar minha filha sair do trabalho para, juntas, buscarmos meu filho na escola técnica – onde ele fazia o curso. – Voltaríamos para casa juntos, no mesmo ônibus, eu faria uma deliciosa janta pré-programada e terminaria o dia praticando outra profissão que amo muito exercer: o jornalismo, escrevendo textos para alimentar meu blog pessoal e os que sou paga para administrar. Fim de papo, um dia produtivo, corrido, mas feliz... Ah, que triste engano!

Minha filha me respondeu à mensagem no WhatsApp:

— Entregue a encomenda e pronto, porque minha chefe está estressada hoje. Onde você vai me esperar? Me avise que te encontro no local marcado.

“Merda!” – meu pensamento exclamou. Não era o que eu tinha planejado, não estava nem perto disso.

— Talvez eu espere na casa da Cacá ou do Sev, mas te avisarei antes. Não quero passar no shopping, estou evitando me machucar – respondi sucintamente.

— Imaginei isso – foi a mensagem seguida que ela me enviou. Encerramos o assunto.

Chamei a Cacá no WhatsApp, mas ela estaria ocupada com atendimento para o dia das mães, que seria no domingo seguinte. Sev era carta fora do baralho, uma carta que eu mesma evitava para não encarar outro dos meus traumas... havia menos de um mês que ele tinha perdido uma pessoa da família de forma trágica e inesperada. Dei-lhe meu conforto, meu acolhimento e minha atenção na data do ocorrido, porém, ainda não estava plena e forte para ficar cara a cara com meu amigo e ajudá-lo a enfrentar essa perda. Pareci egoísta, eu sei... só que meu processo de resiliência era intenso, e eu começava a brotar em meio às pedras, em meio ao caos. Eu não poderia ajudar ninguém sem antes me ajudar.

“Merda!” – exclamei novamente por dentro.

Eu não iria para o shopping, que ficava a uma quadra de distância de onde minha filha trabalhava. Sorrisos falsos que viravam bicos retorcidos de desprezo e sarcasmo; palavras amigáveis que viravam calúnias e comentários pejorativos... Eu não queria mais nada disso! Não faria “a social”, não entraria nessa onda. Minha semente brotava no meio de um solo pedregoso, e quase foi esmagada antes de germinar. Não seria justo comigo mesma passar por isso. Seria o mesmo que pisotear a graciosa folhagem verde que despontava em meio ao cenário cinza. Não queria, não fui, não fiz. Ao invés disso, entreguei as encomendas, caminhei um quilômetro de volta ao curso do meu filho e esperei minha primogênita nos encontrar por lá. Voltamos juntos, no mesmo ônibus. Fiz uma deliciosa janta pré-programada, com direito a sobremesa e refrigerante. Eu merecia, porque fui forte e disse “não” a todas as expectativas sociais que as pessoas jogam em nossas costas. Que fiquem com os sorrisos falsos, que retorçam bicos de desprezo, que caluniem, comentem... já não ligo mais, pois foi o meu não que fez o broto florescer em meio ao caos. 

Texto de autoria de Vanessa Araujo.

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