segunda-feira, 6 de março de 2023

Resenha: Amante Sombrio

 


“Algumas pontes temos que atravessar sozinhos, não importa quem nos empurre até ali”.

FICHA TÉCNICA
• Título: Amante Sombrio
• Autora: J. R. Ward
• Série: Irmandade da Adaga Negra Vol. 1
• Editora: Universo dos Livros
• Edição: 2005
• Páginas: 448
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.7930.082.0
• Gênero: romance sobrenatural
• Tradução: Jacqueline Valpassos
• Revisão: Guilherme Laurito Summa e Julio Domingas

SINOPSE: Nas sombras da noite, em Caldwell, New York, desenrola-se uma sórdida e cruel guerra entre vampiros e seus carrascos. Há uma Irmandade secreta, sem igual, formada por seis vampiros defensores da sua raça. Ainda assim, nenhum deles deseja a aniquilação de seus inimigos mais que Wrath, o líder da Irmandade da Adaga Negra. Wrath é o vampiro de raça mais pura dentre os que povoam a terra, e possui uma dívida pendente com os assassinos de seus pais. Ao perder um de seus mais fiéis guerreiros, que deixou órfã uma jovem mestiça, ignorante de sua herança e seu destino, não lhe resta outra saída senão levar a bela garota para o mundo dos não mortos. Traída pela debilidade de seu corpo, Beth Randall se vê impotente em tentar resistir aos avanços desse desconhecido, incrivelmente atraente, que a visita todas as noites envolto em sombras. As histórias dele sobre a Irmandade a aterrorizam e a fascinam. Seu simples toque faísca, um fogo que pode acabar consumindo a ambos.

“O ego, afinal de contas, era a raiz de todo mal”.

ASPECTO FÍSICO: Convenhamos, apesar de amar a série, as capas dos dois primeiros volumes não são tão atrativas, apesar de algumas particularidades que passamos a apreciar quando estamos com o livro em mãos. Como o título, por exemplo, saltando ao toque em alto relevo. A contracapa é simples e direta, com o básico, sinopse, editora e código de barras, amo esse toque singelo, dá a impressão de livro clássico. A faixa negra na parte superior da capa frontal, com uma adaga à esquerda, vira uma logomarca única, anunciando o nome da série e seu sucesso. O interior do livro é perfeito, com letras em tamanho médio, páginas amarelinhas (papel pólen bold), espaçamento adequado entre as linhas, tudo para facilitar a leitura, aumentando nosso prazer ao saborear as palavras dessa obra esplêndida – acho que não preciso dizer que sou fã, não é? – No rodapé, de um lado, número de página e título do livro. Do outro, o complemento do número é o nome da autora, excluindo o cabeçalho e, assim, ganhando espaço na diagramação, já que o resultado do livro físico é uma peça grande já pelo formato (16 X 23) e grossa (448 páginas). A cereja do bolo vem no final, com o primeiro capítulo do volume seguinte, instigando os leitores.

“Química... Química pura, crua, animal”.

ENREDO: Em meio ao rap hardcore de 2Pac, Jay-Z, Ludacris, Cypress Hill e Notorius B.I.G., adentramos no mundo de fabulosos, enormes, destemidos e deliciosos guerreiros. Vampiros que lutam em favor da sua raça pela Irmandade gerada pela Virgem Escriba. A Irmandade da Adaga Negra. Os guerreiros normalmente se reúnem no Scream’s, uma boate frequentada por um público de reputação duvidosa, ou seja, um ambiente propício aos belos e mau encarados membros da Irmandade. Darius, Tohrment, Vishous, Rhage, Phury e Zsadist seguem a liderança do último vampiro de linhagem puro-sangue, o protagonista Wrath, que deveria assumir seu reinado, mas se nega a ser o governante do seu povo, encontrando respaldo para seus tormentos na batalha que trava com os irmãos. Solitário, rude, frio, Wrath vê seu destino mudar quando um dos irmãos é assassinado pela Sociedade Redutora. Honrando o último pedido do defunto – que ele mesmo negou –, o líder da Irmandade toma para si a tarefa de proteger a filha do falecido. É quando Beth Randall entra em cena: uma jovem jornalista que não faz a mínima ideia de sua genética mista, meio humana e meio vampira. A princípio, Beth se assusta com o cruel – e lindíssimo – homem trajado de negro. Seus amigos policiais a alertam sobre o perigo que a sonda, porém, a curiosidade de Beth se expande quando se percebe completamente atraída por Wrath, um desejo que ele corresponde selvagemente. O enredo se desenrola entre lutas, assassinatos, investigações policiais e cenas de sexo. Só posso chegar até este ponto da história para evitar spoilers. Mas posso garantir que, como já disse, o enredo não se foca apenas em cenas intensas do repentino romance entre Wrath e Beth – textos que, devo afirmar, foram escritos com maestria, sem termos chulos, pejorativos ou deselegantes, tão normais em determinadas tramas do mesmo tema. – Pelo contrário, nos deparamos com um mundo de ação em cada página virada. As labutas frenéticas que os guerreiros da Irmandade travam contra a Sociedade Redutora são charmosamente descritas, instigando-nos a querer mais e mais.

“Afinal de contas, um líder não deve mandar fazer o que não tenha feito antes pessoalmente, e bem”.

MINHAS CONSIDERAÇÕES: Com um vocabulário rico, elegante e inteligente, usando linguagem coloquial de fácil entendimento – tendo uma ou outra palavra insólita que, aos novatos da literatura, clama por um dicionário –, o texto de J. R. Ward é fascinante. Os jogos de palavras nos conduzem ao mundo de sonhos criado pela autora de forma sedutora, tornando quase que impossível desviar os olhos das letras no livro estampadas. Descrições sucintas, rápidas e precisas, suficientes para a imaginação projetar cada cena. O número de páginas é grande, mas a leitura flui prazerosamente, é o tipo de escrita que nos prende. Notei a discrepância da autora ao narrar com ênfase extasiante o enredo dos vampiros, enquanto a Sociedade Redutora ganhava um ar carregado, quase arrastado. Se esse era o ponto, acertou no alvo! Na primeira vez que li, odiei o Sr. X, e todas as cenas com ele me pareciam enfadonhas. Agora, talvez com a maturidade literária, passei a gostar. É um inimigo digno da Irmandade. Tudo seria fácil demais sem ele. Os personagens foram bem construídos, todos com suas idiossincrasias que os tornam únicos, fortes. Até mesmo o detetive humano, Butch – Brian O’Neal –, deixou sua presença altamente marcante nas páginas do mundo vampiresco de J. R. Ward. Wrath, o rei cego, o vampiro de sangue mais puro, seduz com sua fúria perigosa e altamente nociva. Contudo, no desenrolar da trama, seu amor por Beth lhe quebranta o coração, rendendo-se à sua leelan – termo carinhoso do antigo idioma vampiresco usado pelos guerreiros em determinadas cenas, algo que, traduzindo, aproxima-se por “muito amada”, conforme explicação no glossário inicial do livro. – Beth é diferente das mocinhas dos textos sobrenaturais. Ela não é a frágil menina inocente encantada pelo mundo dos bebedores de sangue. Pelo contrário, Beth é forte, corajosa e determinada. Sua única fragilidade é o corpo meio humano, que está prestes a passar pela transição que a transformará na criatura da sociedade que os guerreiros tanto defendem: uma vampira. As descrições das armas (adagas e hira shuriken), dos carros e de todo o ambiente que ronda a Irmandade são sucintamente bem detalhadas (discrepantes, porém, coerente, porque a autora fez uma rápida explanação com diversas e importantes informações, sem se estender além do necessário), mostrando a elegância de um mundo surreal em meio as batalhas.

“Que tipo de diversão haveria se nos fosse possível controlar com facilidade a ‘granada de mão’ que trazemos em nosso interior?”

GRAMÁTICA: Encontrei apenas um erro, o irritante “de mais” no lugar do “demais”. Dependendo do contexto, usar o “de mais” é um erro na gramática, o que foi o caso em questão. Apesar dos pecados cometidos pela tradutora, Jacqueline Valpassos, e pelos revisores, Guilherme Laurito Summa e Julio Domingas, conservando os excessos de pronomes pessoais – tão necessários no idioma inglês e completamente dispensáveis na maioria das frases em português –, a leitura é prazerosa e dotada de um vocabulário rebuscado, atraente e primoroso, com as devidas vírgulas em seus lugares e todas as concordâncias corretas. Uma equipe que merece aplausos.

NOTA FINAL: Surpreendente. Instigante. Delicioso. Estas são apenas três das muitas palavras que podemos usar para descrever a obra de J. R. Ward, o primeiro volume de uma série vampiresca diferente e moderna – Amante Sombrio. Recomendado aos fãs da literatura sobrenatural e de muita ação!

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