sábado, 18 de março de 2023

Resenha: Para Sempre - Os Imortais Volume 1

 


“Só o amor pode curar. A raiva, a culpa e o medo apenas destroem, apenas nos afastam de nossas potencialidades reais”.

FICHA TÉCNICA
• Título: Para Sempre
• Autora: Alyson Noël
• Série: Os Imortais – Volume I
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2009 – 2ª Edição
• Páginas: 264
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.98078-62-5
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Marcelo Mendes
• Revisão: Liciane Guimarães Correia, Umberto Figueiredo Pinto e Sheila Til

SINOPSE:
 Depois de perder toda a família em um desastre de automóvel, do qual inexplicavelmente escapou, Ever Bloom tem sua vida transformado por completo. Ela muda de cidade, de escola, de amigos, e precisa aprender a conviver com uma realidade atordoante: após o acidente, Ever adquiriu dons especiais. Ela enxerga a aura das outras pessoas, ouve seus pensamentos, e com um simples toque pode conhecer a vida inteira de alguém. É angustiante. Tudo, porém, parece cessar quando Damen se aproxima. Só ele consegue calar as vozes que a perturbam tão intensamente. Mas ela não faz ideia de quem ou o quê Damen realmente é. Só tem certeza de estar cada vez mais envolvida... apaixonada.

“O amor nunca fez sentido”.

ASPECTO FÍSICO: Para Sempre é aquele livro que a gente compra por impulso, compra pela belíssima capa. Aliás, toda a série tem capas que se vendem sozinhas. Com acabamento fosco, a capa destaca as tulipas na laminação brilhosa. O título com fonte simples ganha seu glamour com sutil iluminação. Mantendo o aspecto singelo e elegante, sem poluição visual, a contracapa adorna a sinopse com um arabesco bem trabalhado. Todo o conjunto é instigante aos olhos. Uma peça fácil de ser manipulada, apesar do formato 16 X 23 cm, que o torna grande, o número de páginas se faz adequado. O miolo foi confeccionado com o meu adorado papel “chamois fine”, o amarelinho com sua acuidade antirreflexiva. Aos que sofrem com problemas de visão, o tamanho das letras pode ser um problema, creio que a fonte usada tenha sido em tamanho 11 ou 10. Por sorte, a diagramação ajuda, afinal, apreciar um livro “limpo” é um deleite aos amantes da literatura.

“E pretendo aproveitar cada segundo, apenas vendo a vida passar, atravessando os dias num único torpor embalado a vodca”.

ENREDO: Ever é a protagonista narradora da história. E ela inicia a narração com a chegada de Haven, sua amiga gótica, e o quanto o toque da amiga lhe é excruciante. Ever tem poderes paranormais, consegue enxergar a aura das pessoas, escuta os pensamentos de todos ao seu redor, e qualquer toque lhe revela coisas que preferia não saber. Um artifício que ela encontra para, de certa forma, “acalmar” seus poderes são as músicas do seu IPod no volume máximo. Ao som de Sex Pistols, Siouxsie and the Banshees, Bauhaus, The Cure e Evanescence, a protagonista tenta coordenar os estranhos poderes com uma vida supostamente normal, afinal, ninguém mais sabe sobre seus dons. Esses “talentos” foram adquiridos de maneira estranha, após um acidente que ceifou a vida dos seus pais, da sua irmã e da cachorrinha de estimação. Além de lidar com tudo isso, Ever também carrega nos ombros a culpa por tal acidente, como se a sua sobrevivência lhe fosse errada. Sem contar o fato de se considerar um fardo para sua tia Sabine, irmã gêmea de seu pai, uma jovem e rica advogada que a adotou, pois Ever era agora a única família que lhe restava. A mudança foi drástica, e não apenas nas perdas. Ever saiu de Eugene, Oregon, e foi morar com Sabine em Orange County, Laguna Beach/Califórnia. Sim, ela tinha de tudo, mas esse tudo não era o que precisava... Vivendo como podia, ou apenas existindo, Ever cria a rotina de escola-casa, sempre na companhia dos melhores amigos, Haven – a gótica – e Milles – um gay que ainda não se assumiu para a família. – Esses amigos fazem de tudo para compreendê-la, mas ela não lhe dá brechas. E a jovem ainda tem que lidar com Stacia, Honor e Craig, o trio popular do colégio que, sem motivos plausíveis, importunam a existência da protagonista. Em casa, sua companhia é Riley, o espírito da irmã morta. Mas tudo muda de repente, quando Damen, o lindo moreno que se torna o novo aluno da escola, se aproxima de Ever. Com o poder de silenciar toda cacofonia de pensamentos da garota com apenas um toque que faz a pele dela formigar, Damen intriga e conquista. Daí em diante, o enredo se desenrola, revelando novos personagens, como Evangeline, que gostaria de ser vampira, e a maléfica Drina, que anseia em destruir Ever.

“Quando acordo, percebo uma estranha sensação de paz e segurança, uma alegria interior que só os apaixonados conhecem. Como se eu estivesse cercada apenas de raios dourados de sol, muito segura, protegida e feliz”.

MINHAS CONSIDERAÇÕES: Ever, o nome da protagonista, já foi um perfeito acerto no alvo, combinando com o título original, em inglês, “For Ever”, vemos que a jogada da autora teve dois destinos: as flores que Damen lhe mandava com um bilhete – For Ever | Para Ever – e a eternidade dos imortais – Forever | Para Sempre. – O que dizer sobre isso? Simplesmente perfeito! Astuta e precisa. Os capítulos seguem em linguagem coloquial, elegante em certos pontos, com um bom vocabulário e algumas palavras rebuscadas nas frases certas. Os capítulos são rápidos, com cenas distintas, instigando a leitura. A tecnologia descrita no livro é típica da época em que foi elaborado, o que era o auge da modernidade, citando “Sidekick” e “IPod”. Os carros eram os que agora se tornaram clássicos, Miata e BMW. E parece que todo enredo juvenil dos anos 2000 tinha que citar “O Morro dos Ventos Uivantes”, como se tal literatura tornasse a obra mais inteligente, algo simplesmente inexplicável para mim. Sobre os poderes de Ever, facilitando a vida dos leitores, a autora fez uma lista com as cores das auras e seus respectivos significados. Tal lista é encontrada logo nas primeiras páginas, antes de iniciar os capítulos. Com os toques, Ever não vê a motivação das pessoas, apenas os fatos, as cenas e alguns símbolos, como cartas de Tarot, fazendo com que erre na interpretação de tudo às vezes. Um exemplo foi quando viu um coração partido e entendeu como desilusão. No fim das contas, a pessoa morreu vítima de um infarte fulminante. Tal erro tornou a personagem bem construída, conectada com sua idade, a típica adolescência cheia de lapsos. Muitos termos, símbolos e situações pagãs são citadas, algumas com rápidas e interessantes descrições. Solstício de Inverno, Summerland – a forma “wiccana” para Avalon, a dimensão feliz do druidismo – e outros termos que envolvem a filosofia da antiga religião celta são jogadas no texto, saltando aos nossos olhos e nos fazendo teorizar o que vem para nos deleitar ao longo da série. Para finalizar esta parte da resenha, preciso citar a tatuagem de uróboro que Haven fez no pulso, um símbolo alquímico – conforme explicado pela autora, nas palavras do personagem Milles: “Representa vida eterna, a criação a partir da destruição, a vida a partir da morte, a imortalidade, ou algo assim”. – Um fato realmente interessante essa conexão com a alquimia, sendo que tal símbolo também tem uma representação semelhante em outras ramificações pagãs, como a nórdica, por exemplo, onde a serpente que morde o próprio rabo – Jörmungarðr – se torna personagem da destruição no Ragnarök, em que a atual natureza passa pelo fim para que tenha um recomeço. Mas deixemos isso para outra ocasião... E sobre os “imortais”, bem... a autora é digna de aplausos com essa jogada. Deixando um enorme spoiler aqui: não são vampiros!

“Para ele, sou uma espécie de fruto proibido que respira, vive”.

GRAMÁTICA: Apesar desse quesito apontar para erros e acertos no conjunto todo da obra, nem tudo que citarei aqui tem realmente a ver com a gramática em si, portanto, deixo claro que minha intenção não é desabonar o trabalho da autora, tampouco da editora e dos profissionais que executaram todos os trâmites da publicação. A narração muda do passado para o presente sem uma lógica, e isso é um tanto irritante para mim, afinal, se alguém “conta/narra” uma história, é porque algo já aconteceu – passado – ou está acontecendo – presente. – Essa pipocada me deixou atônita, porém, não tirou a compreensão das frases. Nos seguimentos de fala, o conjunto “ela diz, eu digo, ele diz” não muda até a metade do livro. São repetições amadoras, inocentes, palavras que teriam mais acuidade sonora se fossem trocadas por “perguntou, murmurou, questionou, falou, anunciou, comentou” e por aí vai... a lista é imensa. Por sorte, do meio em diante, parece que a autora ligou um fusível em sua mente e decidiu usar outros termos para explanar as falas dos personagens. A contração de preposições se faz necessária nos diálogos, sendo que a linguagem usada é a coloquial. Porém, nas narrativas, essas contrações me faziam arquear as sobrancelhas quando lia “pra” no lugar de “para” e “num” em vez de “em um”. Não que seja errado, não é. Apenas um artifício que tornaria a escrita mais rica e elegante.

NOTA FINAL: Eu gosto de romances adolescentes, pois os autores desse gênero não têm medo de explorar e de criar mundos sobrenaturais com idiossincrasias interessantes. A história de “Para Sempre” foge totalmente do convencional e do clichê. Apesar do romance com cenas piegas, toda estrutura do enredo torna a leitura muito interessante. De zero à cinco, dou nota quatro e recomendo para todas as idades, principalmente aos adeptos da leitura mística e sobrenatural.

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