Tudo começou quando precisei encontrar alguns arquivos importantes para restaurar alguns projetos. O notebook antigo era fora de cogitação, o aparelho teve sua vida útil e decidiu falecer. Na época em que o usava, por vários problemas no sistema, acabei perdendo muitos textos importantes. Com isso, aprendi a fazer um backup no drive. Até aí, ok... Bem, nem tão ok assim. Lembrava-me do e-mail, lembrava-me das senhas, e lembrava-me dos traumas que vivi quando usava essa conta a trabalho. Eu tinha duas opções: ou deixava tudo trancado no almoxarifado on line, ou abria logo a porta do inferno e encarava meus monstros. Escolhi a segunda opção.
Enquanto abria a página de login do Google, digitava o e-mail e a senha, minha mente começou a me trair, rimbombando nos pensamentos:
“Todos vão saber, eles vão te achar, as afrontas vão recomeçar. Para que mexer no passado? Vale mesmo a pena?”
Sim, valia a pena. Eu precisava peneirar o que traria comigo para essa nova fase e o que deletaria para sempre, e essa limpeza virtual me aguardava há mais de cinco anos! Era agora ou nunca. Respirei fundo e cliquei no botão “avançar”. Minha mente prolixa imaginou os portões do inferno se abrindo e uma turba demoníaca surgindo da tela para me atacar. E não me culpo por essa sensação, os traumas que sofri foram tantos, eu fui tão destruída, esmiuçada, que foi quase impossível juntar os estilhaços e remontar o que restou de mim. E se não o tivesse feito, jamais teria aprendido que sim, é possível sair do poço de piche, da areia movediça, da merda do poço sem fundo. Mas a palavra do dia era “coragem”, portanto, não havia lugar para o medo. Não mais!
A cabeça latejava, as mãos tremiam e a tela se abriu. Nenhum demônio saiu dela. Eu apenas sorri, e exclamei para minha mente:
“Graças a Deus, eu consegui! Achei que não seria possível, mas foi. Venci a mim mesma, a coragem me invadiu e encarei meus medos. Eu consegui!”
É... não foi tão fácil quanto parece ao ler e reler este texto. E o dia foi marcado pela coragem desde cedo, e só depois de encarar os demônios foi que me liguei nisso. Na verdade, muito tempo depois, horas depois, pois precisei fechar a porta do inferno rapidamente, a campainha tocava, anunciando uma visita inesperada. Discutir com os traumas ficaria para outra hora, principalmente depois que vi que era minha mãe quem chegava.
Enquanto ela falava, sentia minha cabeça esquentar. Tentava me concentrar na conversa, mas minha alma bradava:
“Tenho que voltar, tenho que abrir aquela tela de novo, preciso recuperar os arquivos. Será que o texto x está lá? E a imagem y? Certamente, o arquivo z está em algum lugar daquele inferno”.
Não sei precisar quanto tempo minha mãe ficou em seu monólogo, afinal, estava ciente de que só lhe respondia de forma monossilábica, com meus “aham”, meus “sim” e alguns “nãos”. O problema é que quando ela precisou ir, pois seu compromisso a aguardava, outras obrigações também clamavam pela minha atenção. E meu âmago não parava... uma crise de ansiedade me invadiu a tal ponto que um nó se formou na minha garganta. Contudo, as lágrimas que quase brotaram nos meus olhos não eram de medo, tampouco de tristeza. Peguei-me sorrindo, enquanto preparava a janta dos meus filhos. O que era aquilo? Uma sensação nova, sentia orgulho de mim mesma. Foi bom, muito bom. Havia anos que não me sentia assim, que não me permitia isso. E foi a coragem que me proporcionou tamanho deleite. Essa coragem se chama "presença de Deus em nossas vidas", afinal, "Ele é o Leão da tribo de Judá".
Sim, o dia foi marcado pela coragem, pois, logo cedo, consegui criar o roteiro de um enredo que permeava minha mente há dias. Eu disse que uma amiga seria a primeira a saber do meu retorno. Ela vai saber, assim que eu escrever o primeiro capítulo da minha “torta de limão”. Por enquanto, quero me manter de mãos dadas com a coragem (Jesus).
Outra coincidência – mesmo não crendo muito nos acasos da vida – recebi o texto dos proprietários de um dos blogs que administro. Preparei o material e, antes de postá-lo, fui revisá-lo. Falava sobre coragem. O universo me dava um tapa na cara a cada segundo do dia.
Sobre o portão do inferno? Sim, voltei a abri-lo. Só que, dessa vez, a dimensão mudou. Encontrei o céu, meus antigos anjos, os arquivos que eu precisava e muito mais do que podia imaginar. A coragem me devolveu um mundo que acreditei estar perdido. Limpei o almoxarifado, tirei o mofo, e um arco-íris surgiu depois da tempestade... Tempestade que foi necessária, águas torrenciais que lavaram a alma.

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