“Não era mais um lar. Já não tinha mais alma. De certo modo, aquela casa era exatamente como ele”.
FICHA TÉCNICA
• Título: Amante Desperto
• Autora: J. R. Ward
• Série: Irmandade da Adaga Negra, volume 3
• Editora: Universo dos Livros
• Edição: 2010
• Páginas: 464
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.79301.17.9
• Gênero: romance sobrenatural
• Tradução: Jaqueline Valpassos
• Revisão: Guilherme Laurito Summa e Felipe Vieira
SINOPSE: Nas sombras da noite em Caldwell, Nova York, desenrola-se uma sórdida e cruel guerra entre vampiros e seus carrascos. Há uma irmandade secreta, sem igual, formada por seis vampiros defensores de sua raça. Dentre eles, Zsadist é o membro mais assustador da Irmandade da Adaga Negra. Tendo sido por muito tempo um escravo de sangue, Zsadist ainda carrega cicatrizes de um passado repleto de sofrimento e humilhação. Conhecido por uma fúria que não acaba e por atos sinistros, ele é um selvagem, temido igualmente por humanos e vampiros. A raiva é sua única companheira, e o terror, sua única paixão... Até que resgata uma bela vampira das garras da maligna Sociedade Redutora. Bella sente-se imediatamente enfeitiçada pela ardente força que emana de Zsadist. Entretanto, mesmo quando o desejo de ambos começa a consumi-los, a sede de vingança de Zsadist contra os torturadores de Bella o leva à beira da loucura. Agora, Bella deve ajudar seu amante a superar as feridas de seu atormentado passado e vislumbrar um futuro ao lado dela...
“Alguns dias duram para sempre, e quando o sol se põe, não há final para eles”.
ASPECTO FÍSICO: A capa desse terceiro volume subiu de nível, trazendo uma sensualidade obscura e muito instigante. Apesar de contar com todos os ícones típicos e já reconhecíveis da série, como a faixa preta anunciando a Irmandade e a pequena Adaga no canto superior esquerdo, o título em alto relevo e a contra capa sutil e, ao mesmo tempo, impactante, a capa de Amante Desperto é atraente, única. O casal modelo representou tão bem os protagonistas que foi possível imaginá-los exatamente daquela forma durante a leitura. O livro é pesado, uma peça difícil de carregar na bolsa, por exemplo. Nesse caso, minha recomendação é para que a leitura seja em casa mesmo, com extrema concentração e uma xícara de café fumegante ao lado, porque Zsadist é intenso em nível hard ninja. Todo o interior do livro segue com o mesmo aspecto dos volumes anteriores, letras e espaçamentos agradáveis e que não embaralham a visão, estampando as páginas amarelas, confeccionadas em papel pólen bold. Finalizando esta parte, ainda que o livro seja pesado, a brochura se abre totalmente, facilitando o manuseio sem quebrar a lombada.
“Então, ele chorou... Chorou por sua generosidade, por sua gentileza, pela sensação de sua mão suave acariciando-lhe o ombro... o único toque ele bendissera desde... sempre”.
ENREDO: Para ler o terceiro volume da série, é preciso estar com o emocional fortificado, porque a trama é realmente pesada, daquelas que nos levam ao mais profundo breu de uma alma estilhaçada e nos faz encarar todo o terror que a esmiuçou. Lágrimas raramente são contidas. Amante Desperto conta a história de Zsadist e, de certa forma, de seu irmão gêmeo, Phury, ambos ao lado de Bella... ambos apaixonados por ela. O passado de Z é tão traumatizante que ele chega a se odiar, considerando-se nada mais que um monstro indigno e sujo. Sem entender a si mesmo, depara-se com uma atração insana e quase surreal por Bella. Ao resgatá-la, coloca-se como um lobo feroz a protegê-la, sem deixar que ninguém chegue perto, tampouco que a toque. Sim, Bella passou por maus bocados, uma situação quase tão humilhante e chocante quanto a de Zsadist. Pior ainda, ela pertencia à alta aristocracia da raça, onde qualquer mácula era suficiente para colocá-la como indigna. E tudo que Bella passou na mão do redutor a malucou profundamente. As cicatrizes do corpo, por sua composição vampírica, se curam. As da alma, nem tanto. Ela precisa de Zsadist, e ele necessita urgentemente de Bella. Uma situação dramática os coloca como amantes vorazes, um laço é formado, e o rompimento, caso acontecesse, seria imensamente doloroso. Surpreendentemente, Bella supera o que passou, deixando que o âmago e a mente se cicatrizem. O problema é Zsadist... o problema é Phury... o problema são os traumas do passado. Traumas que elevam a fúria à milésima potência, machucando o que já estava curado em Bella.
“Ânsia de vingança. Fria, gélida vingança. Tanta, que chegava ao infinito”.
MINHAS CONSIDERAÇÕES: a autora nos estapeia na face e nos sacode com esse enredo. A forma como cada palavra nos toca é surpreendente, principalmente ao relatar o passado de Zsadist e tudo que ele sente em relação a isso. Entrar na mente desse personagem pode ser tão traumatizante quanto vivenciar o trauma, e tal artifício da autora sufragou Z como um dos meus preferidos. J. R. Ward simplesmente ousou, enlouqueceu, retornou à sanidade e findou com chave de ouro, porque Zsadist não precisava salvar, ele tinha que ser salvo. Foi nesse ponto em que ela decidiu que precisava mudar. A vulnerabilidade do personagem é o que nos toca, nos envolve e nos carrega àquele mundo, ao passado triste e sombrio de Zsadist. Por que ser previsível? Não foi. Ward mexeu suas peças nesse tabuleiro, tirando do oponente qualquer oportunidade de vitória, um recurso arriscado... que deu certo. Fortalecer Bella foi o tiro mais certeiro nesse pis aller. Adoro quando os brutamontes se colocam como tais e, no fim das contas, eles que são resgatados. Bella não salvou apenas Zsadist, a vampira fez e aconteceu, ela resgatou Phury, consertou Revhenge, seu irmão, quebrou a imponência de sua genitora, estraçalhou todas as regras da aristocracia. Bella foi a guerreira da Irmandade. Não tem como não aplaudir a supremacia dessa autora, ela me deixou simplesmente embasbacada! E os coadjuvantes não ficaram de lado, afinal, ela sempre puxa uma ponta para atá-la no volume seguinte. Ainda que com jeito irritante, Butch dá indícios de homofobia, sem perceber sua alma se divide. John se coloca sempre no lugar certo e na hora certa. Tohr... caramba... melhor não soltar spoilers. E Vishous... esse promete quebrar mais regras que a própria Bella, e eu não vejo a hora de apreciar a coragem despudorada da autora em relação a esse personagem. J. R. Ward ainda não conseguiu o feito de me decepcionar – graças a Deus! – Falando em divindade, estou curiosa com o que vem por aí, pois, novamente – e, agora, com mais ênfase –, o Solstício de Inverno é citado, bem como as maçãs, símbolos especiais desse Sabbath pagão. Pelo simbolismo dessa celebração, chamada de Yule, segundo a tradição druida, é no Solstício de Inverno que nasce a criança prometida, o retorno do deus sol, aquecendo, ainda que sutilmente, a terra fria. Isso me faz levantar algumas teorias, tendo a transição de John como a maior de todas, sendo que uma das fêmeas ainda demorará para dar à luz, e a outra foi assassinada. Então, tudo realmente gira em torno de John.
“Às vezes, basta um espaço tão exíguo como um fio de cabelo entre dois carros para evitar um acidente mortal. Às vezes, sua vida inteira pode depender de uma fração de milímetro. Ou de um nanossegundo. Ou de uma batida na porta. É o tipo de coisa capaz de fazer alguém acreditar em intervenção divina”.
GRAMÁTICA: não tenho muito o que mencionar aqui, afinal, pelos jogos de palavras primorosos, vemos que a tradutora trabalhou muito bem em conjunto com a dupla de revisores. Tudo que encontrei foram algumas – poucas – vírgulas fora do lugar – ou faltando – e dois ou três erros de digitação, coisas passíveis até aos olhares mais minuciosos. A única coisa que realmente me irritou foi notar – e só constatei isso no terceiro volume, e nem cheguei a conferir os anteriores para apurar se o fato é algo recorrente – que não usaram travessão nos inícios de falas, e sim hifens. Não há diferença na transição, deixando um aspecto estético deselegante. Porém, creio que tal ajuste deveria ser feito em conexão com a equipe de diagramação com os revisores. Uma publicação desse porte exige perfeição, e a editora ainda está caminhando para o feito.
“A força seria sua homenagem a eles. O ânimo firme, seu elogio fúnebre. A vingança, as preces em suas sepulturas”.
CONSIDERAÇÃO FINAL: ainda me sinto extasiada com esse título, e não sei quando conseguirei prosseguir na leitura da série. Amante Desperto é realmente intenso, ele desperta o terror e a luz, uma discrepância que nos deixa atônitos. Recomendo aos amantes do estilo sobrenatural, com muitas aventuras. Porém, preciso deixar uma ressalva... quem tem algum tipo de trauma com violência física e/ou sexual, melhor se preparar psicologicamente antes de iniciar a leitura. Por experiência própria, as cenas dessa obra nos conduzem ao canto mais profundo da alma, aquele mais sombrio e cheio de mofo. Obriga-nos a fazer uma limpeza. A outra opção é se deitar em posição fetal e chorar como se não houvesse amanhã. Portanto, se você não tem nenhum tipo de problemas nesse sentido, pegue seu exemplar e aprecie, garanto que será uma das viagens literárias mais interessantes que fará.


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