quarta-feira, 26 de abril de 2023

Crônica: Sorvete no Dia Quente

 

Não sei precisar o dia, mas me lembro que foi no início de fevereiro de 2021, quando minha alma se atormentava na busca de uma solução para a vida financeira e para outros problemas pessoais. Minha existência parecia se revolver em caos, e eu não encontrava o eixo para equilibrar tantas situações. A pandemia me tirou o foco, a péssima administração do país nesse evento insólito contribuiu para a derrota de muitos. A falência não chegou apenas aos pequenos, grandes empresas caíram, e eu estava prestes a fazer parte dessa história. Arrastar aberta a única das minhas lojas que restou, tendo uma venda mensal de setenta e cinco reais em Janeiro de 2021, realmente não era um cenário convidativo para aguentar Fevereiro e o resto do ano, sem previsão nem esperança de melhoras. As pessoas simplesmente não tinham mais emprego e, consequentemente, não tinham dinheiro. A economia não girava, as vacinas não foram compradas, as pessoas morriam... e tudo parecia escoar pelo ralo da ignorância.

Presa nesses pensamentos, quase não troquei nenhuma palavra com meu filho enquanto caminhávamos. As lojas fecharam, mas as escolas se mantinham abertas, expondo crianças, jovens e adultos ao perigo. Nenhuma vacina, nada! Pandemia e pandemônio estampavam a nova bandeira metafórica do país. Pior ainda, os defensores do consagrado gritavam tantas asneiras que redes sociais se tornaram o foco que gerava outro vírus: a raiva. “Querem liberar a maconha, mas não liberam a cloroquina”. Era tão difícil assim entender que a famigerada cloroquina não surtia efeito contra o protagonista da pandemia? E que essa química era liberada, vendida em cada farmácia, distribuída em cada posto? Não, eu não perderia meu tempo com a ignorância alheia. Maconha e cloroquina que se danassem, eu estava prestes a não ter mais nenhuma fonte de renda. Bem, levando em conta que a loja era mais uma despesa que uma renda, eu estava prestes mesmo era a jogar meu orgulho no lixo e declarar minha falência.

Letárgica das ideias, deixei meu filho na escola e voltei para casa. Estava cansada do mundo, da pandemia, das redes sociais cheias de falsas, fúteis e fátuas criaturas – o dicionário nos presenteou com uma farta lista de adjetivos esdrúxulos, porém, elegantes, na letra F. – Simplesmente cheguei em casa, deixei o celular de lado, pois nem as notícias me apeteciam, afinal, só falavam do senhor energúmeno líder da nação – que nada liderava. – Enchi uma xícara de café, escolhi um livro na minha estante e regressei ao hábito que havia deixado de lado por conta das falsas, fúteis, fátuas e famigeradas companhias do local de trabalho. As horas passaram rápido, graças aos céus. Fechei o livro e fui buscar meu filho na escola.

No caminho de volta, com a alma um pouco mais leve pela decisão do “que se lasque o mundo”, vinha brincando com meu filho, quando, do nada, ele – um autista – falou:

— Tenho saudade de ir naquele lugar cheio de lojas e tomar um sorvete.

Franzi o cenho em confusão e tentei entender o que ele dizia. Quando me dei conta, expliquei:

— Aquele lugar cheio de lojas se chama shopping.

Rindo, ele perguntou:

— Podemos ir lá para tomar um sorvete?

A meleca de uma dor apertou meu coração. Fazia vinte dias que eu tinha comprado o último maço de cigarros e, apenas para clarear minha mente, fumava um por dia (sim, eu fumava na época, antes de ser resgatada pelo meu Salvador). Aqueles cinco reais do cigarro faziam falta naquele momento, pois eu poderia comprar o sorvete para o meu filho. Notando que eu chorava, ele disse:

— Não precisa ser hoje, vamos quando der.

Apenas assenti e seguimos em silêncio. No dia seguinte, tomei a mais certa das minhas decisões, fechei a loja de vez. Não gastaria mais nenhum centavo com aluguel. Se o time estava perdendo de lavada, era melhor retirá-lo de campo. Vendi as peças que sobraram a preço de custo aos amigos e familiares – que nunca se prestaram ao trabalho de prestigiar minhas lojas, mas que muito se interessaram em comprar os produtos de uma falida pelo valor de uma banana.

Contei o dinheiro que aquilo me rendeu. Não era muito, dava para comprar o gás, colocar comida na mesa e... Não, não fomos tomar sorvete. Fui arriscar. Comprei todo material necessário e fiz uma montanha de pães de mel. Para quem estava vendendo 75 reais por mês e gastando mais de dois mil reais de aluguel, lucrar 100 em um dia foi o estopim que me fez encontrar o rumo.

Março, abril, maio... nada do sorvete, e nem tínhamos mais dias quentes na minha região, pois o outono trazia o agradável dia ameno e a deliciosa noite gélida. Foi em uma dessas noites frias, contando o absurdo lucro de quinhentos reais em um fim de semana – de muito trabalho pesado na cozinha –, que me lembrei de uma promessa. Na tarde do dia seguinte, deixei tudo de lado. Não faria pães de mel, tortas, trufas... não faria nada na cozinha naquele dia. Meus planos se resumiam em aquecer os corações. Decidida, olhei para o meu filho e ordenei:

— Desliga o notebook. – Precisei apertar os lábios e segurar o riso quando ele me encarou com os olhos esbugalhados e o semblante confuso. – Vamos ao shopping, vou te comprar um sorvete.

Aquela alegria, aqueles pulos, aquela vibração... tudo isso me fez entender que o ego de me declarar empresária, proprietária de lojas, não valia a pena. Ser uma confeiteira informal me rendeu a maior alegria de 2021, e nenhum CNPJ seria capaz de superar a felicidade do meu filho – e a minha – ao tomar aquele sorvete. A tarde estava fria, um vento gelado, vindo da praia, piorava o clima. Porém, aquele dia foi o primeiro de muitos outros, extremamente calorosos, que nos levou a tomar sorvete no shopping. Foi o nosso sorvete no dia quente.

Lembrei dessa história aos prantos, quando li a crônica que o próprio Juninho escreveu para a prova de redação da escola. Com as palavras dele, pela sua perspectiva autista, de um jeitinho especial, ele me emocionou. Então, decidi retribuir. O título foi o mesmo que ele deu a sua crônica, não faria sentido mudá-lo na minha. Meu sorvete no dia quente...

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