“Aonde foi teu querido, oh mais bela entre as mulheres? Para onde se virou teu amado, para que o procuremos contigo?”
| Cântico de Salomão 6:1 |
Todos cometem seus erros na vida. Eu não era diferente de ninguém. Acreditei que o maior dos meus lapsos fosse a covardia. Entretanto, analisando melhor os fatos, vejo que minhas escolhas destruíram a mim mesma. De alguma forma, quis agradar a todos que amei, só que ninguém teve a mesma consideração comigo. Não que eu esperasse algo em troca, contudo, um pouco de reconhecimento até que faria bem ao meu ego... Bem, isso não importava mais. Não agora, que eu estava morta...
Sou Jessica Thompson. Assinei meu atestado de óbito quando fiz uma promessa que nunca foi cumprida. Destruí a minha existência quando permiti que um anjo entrasse em minha vida. Foi assim que quebrei todas as regras.
E
Adam me fitava atentamente. Esperava minha resposta para sua pergunta, e eu já não sabia mais o que pensar. Ele me pegou desprevenida e permiti que minha mente retornasse ao passado, um passado não muito distante, um tempo em que eu era completamente feliz.
Como qualquer adolescente, quando tinha quinze anos, eu arrumei um namorado. E, por um acaso do destino, o cara era simplesmente a criatura mais linda do universo... Até que o imbecil resolveu desaparecer sem dar satisfações. Como se não me bastasse aturar o discurso de "eu te disse" da minha mãe, ainda tive que lidar com a depressão. Mesmo não fazendo o tipo “dramática”, o fato era que eu amava Emerson de uma maneira inexplicável. Sua ausência me destruiu, me colocou em um poço profundo de tristeza, decepção e ódio.
Dessa forma, aprendi que o ódio faz crescer. Ele nos destrói no começo, nos abala. Porém, da mesma forma que chega, trazendo tristeza, tal sentimento também nos enfurece, e a fúria nos encoraja.
Foi a coragem, impulsionada pelo ódio que eu sentia por Emerson, que me levou a dar a mais idiota das respostas para Adam:
— Sim, aceito.
E essa foi a minha escolha.
E
Meu pai era dono das empresas Thompson Tec e o líder principal de uma igreja de denominação evangélica da cidade. Como se não bastasse, o senhor Arthur Thompson ainda era um político influente e bem conhecido. Até que era um cara legal, mas quase nunca estava em casa, pois todos solicitavam sua presença para discutir diversos assuntos.
Minha mãe fazia o tipo "socialite" do paraíso. Dizia que odiava fofoca, mas não perdia a oportunidade de falar mal das pessoas pelas costas. Queria sempre manter as aparências, tinha um verdadeiro horror de que sua "adorável e exemplar família" caísse na boca do povo. E, para variar, eu era sempre o motivo de desgosto da dona Anne Thompson. Nem preciso dizer que ela odiava Emerson, chamava-o de "bad boy", enviado de Lúcifer, e outros adjetivos estranhos. Deu graças aos céus quando meu lindo namorado decidiu desaparecer.
Bem, era de praxe que a filha única do pastor fosse uma peste em forma de ser humano. Mas eu passava dos limites no quesito "rebeldia". E tudo o que eu fazia era criticado por Anne, que, consequentemente, resmungava com Arthur, que, para completar e calar a boca da esposa, vinha encher meus ouvidos com lições de moral. Eu escutava atentamente – fingindo, obviamente – suas reclamações sobre minhas roupas, minhas gírias, meus talentos musicais – desperdiçados em uma banda de rock ao invés de serem usados para louvar a Deus – e meu comportamento na escola. Apesar de ser considerada um "gênio" intelectual, eu era a aluna que tocava o terror e provocava a ausência dos professores. Tinha confusão, tinha Jessica Thompson envolvida.
O fato era que meus pais puderam suspirar aliviados quando Adam – o filho de um dos pastores da igreja que meu pai presidia, o bom moço, o cara mais lindo da comunidade, o melhor partido para as filhas solteiras – me pediu em namoro. Arthur e Anne quase entraram em êxtase de tanta alegria quando Adam anunciou que eu havia aceitado seu pedido de casamento. Ansiosos, deram início à festa de destruição da minha vida. E eu tinha apenas dezessete anos, ainda estava no Ensino Médio.
E
Mesmo com o casamento marcado, meu pai insistia em dizer que eu ainda não era dona do meu nariz e que não poderia me considerar suficientemente adulta e responsável. Ou seja, não escapei de continuar frequentando as aulas.
Para falar a verdade, eu até que gostava da escola. Só não curtia as aulas. Veja bem, era meio idiota ter que escutar um bando de professores ensinando tudo o que eu já sabia. Então, por que ficar ali? Eu não ficava, simplesmente dava um jeitinho de fugir.
Em uma dessas fugas, meu passado se fez presente...
Eu corria com um sorriso vitorioso por conseguir escapar, sem ser pega, de mais uma aula ridícula. Meu sorriso esvaneceu e meus passos se estancaram quando o vi. Caminhando como um deus, ele vinha em minha direção. Seus olhos brilhavam como esferas douradas. Seus passos eram elegantes e firmes. Sua beleza era tão fora do normal que poderia compará-lo aos anjos!
Tudo parecia acontecer em câmera lenta, como se o mundo parasse de girar aos poucos. Perdi-me nesse torpor e, quando dei por mim, já estava envolvida pelos seus fortes braços.
— Como é bom estar contigo – ele sussurrou em meu ouvido. – Senti saudades.
Minha razão voltou ao escutar essas palavras, e a fúria veio junto.
— Saudades? Você sumiu sem me dar satisfações, não me ligou um só dia sequer nem para me contar que estava vivo, e tem a cara de pau de dizer que sentiu saudades? – vociferei, enquanto o empurrava, tentado me livrar daquele abraço idiota.
— Para de drama, garotinha – rebateu, rindo da minha inútil luta para me desprender dele. – Estou de volta, pensei que você ficaria feliz.
— Ou você é um sequelado de nascença, ou é mesmo um enviado do capeta, como diz minha mãe – resmunguei, desistindo de me debater e me acomodando em seus braços. Recostei minha cabeça em seu peito e suspirei profundamente, permitindo que as primeiras lágrimas rolassem livres. – Por que não voltou antes que eu fizesse a pior besteira da minha vida?
— Você vive fazendo besteiras, borboleta. O que aprontou dessa vez? – indagou, enquanto alisava minhas costas e beijava o topo da minha cabeça, aninhando-me como uma criancinha desprotegida.
— Aceitei um pedido de casamento – respondi, mordendo os lábios.
Soltando-me bruscamente, ele me fitou nos olhos e vociferou:
— Você fez o quê? Pirou, borboleta? Depois eu que sou o sequelado! – Levando as mãos à cabeça e bufando exasperado, prosseguiu: – Nós estávamos juntos, não houve um fim de namoro nem nada do tipo, caralho!
— Também não houve nenhuma explicação – rebati firme, arqueando as sobrancelhas para fitá-lo de forma bem acusatória. – Eu não vou carregar essa culpa, Emerson. Foi você quem deu no pé, quem me deixou aqui, sozinha. Como diz o ditado: quem não dá audiência, perde a preferência e abre concorrência. Seu silêncio determinou o fim. – Fechei os olhos, tentando recuperar a calma e ordenar os pensamentos. Quando consegui colocar as ideias no lugar, suspirei profundamente e ergui as pálpebras para encarar o amor da minha vida. Então, controlando a voz, concluí: – Não foi um dia, nem um mês, nem um ano, Emerson... Foram quase dois anos sem notícias suas. Seus pais atendiam o telefone no começo, dando as mais esfarrapadas desculpas para o seu sumiço, mas... depois... depois, nem isso!
— Era comigo que você tinha que falar – bradou, apontando para o próprio peito, colocando-se na defensiva.
Dei dois passos para ficar face a face com o abestado mais lindo do universo – ignorando a diferença de altura, pois os trinta centímetros a mais que ele tinha já não faziam tanta diferença naquele momento. – Encarando-o com o cenho franzido, revidei, dizendo:
— Falar com você? Diga-me... como? Fui bloqueada em todas as redes sociais, seu WhatsApp desapareceu misteriosamente.
— Você está certa – declarou, rendendo-se.
— Sim, estou! – exclamei, cruzando os braços sobre o peito.
— Eu não podia...
— Por quê?
— Regras da empresa – respondeu evasivo, dando de ombros. – Consegui um trabalho fora da cidade.
— Conta outra – resmunguei, virando de costas, tentando ocultar meus olhos marejados.
— Quando vai acontecer essa merda de casamento?
— Daqui a duas semanas.
— E você o ama?
Droga! Eu não queria mentir, não para ele. Apesar da explanação sem sentido, ainda havia um resquício de esperança em meu coração. Eu amava aquele palhaço, e ele aguardava pela minha resposta, que não demorou a chegar... Voltei a encará-lo, decidida a não ocultar a verdade e a cravar uma faca na alma daquele infeliz.
— Sim, eu o amo... Como um amigo que segurou minha mão enquanto eu chorava por um imbecil que me deixou sem dar explicações – rebati com sarcasmo. Magoei-o, e essa era a minha real intenção, machucá-lo, da mesma forma que havia feito comigo. Só não entendia por que seu olhar ferido doía em mim.
— Voltei porque me casaria com você – murmurou derrotado, e vi uma lágrima escorrendo pelo seu rosto perfeito.
— E não vai mais?
— Se isso ainda fosse possível, gostaria muito. Eu te amo, Jessica.
Merda! Merda! Merda! Preferia que ele sumisse de novo, tudo seria muito mais fácil sem esse anjo em minha vida. Porém, eu não seria eu se não complicasse as coisas. Sendo assim, peguei-me suspirando, com as mãos na cintura e dando-lhe a resposta mais cretina que poderia inventar:
— Posso desistir de tudo, Emerson. Eu te odeio o bastante para te dar o castigo de passar o resto da vida ao meu lado.
Ele gargalhou, e seu riso era um som tão sonoro e contagiante que acabei caindo na risada também.
— Acho que mereço ser castigado – brincou Emerson, agarrando-me pela cintura. – E seus pais?
— Ah, minha mãe vai ter um chilique do inferno e, consequentemente, vai instigar meu pai a vociferar feito um louco... Mas terão que aceitar – respondi, dando de ombros. Ao lado dele, tudo parecia tão fácil...
— E se não aceitarem? Você é menor de idade, lembra?
— Não sei, Emerson... – retruquei evasiva. – Não posso me esquecer de Adam, meu noivo. Ele é um cara legal e, apesar de não desejar isso, terei que magoá-lo.
— Vai complicar tudo com os seus pais, não?
— Demais – murmurei, com os olhos fechados, balançando a cabeça em negativa e torcendo um bico com os lábios.
Emerson pegou meu rosto entre suas mãos e disse:
— Hei, vamos tentar fazer tudo certo, ok? – Assenti. – Mesmo assim, se nada sair como programamos, topa fugir comigo?
— Seria uma grande aventura – brinquei, com um sorriso enorme só por imaginar tal possibilidade... uma tremenda sandice!
— Estou falando sério, borboleta.
Fitei-o nos olhos por alguns segundos e encontrei a verdade que procurava, a sinceridade, a vontade de que essa promessa fosse eterna.
— Também falo sério, Emerson.
Com a minha confirmação, ele não hesitou mais, envolveu minha boca com a sua em um ósculo entorpecente e intenso. Não me importei de estarmos no meio da rua, de frente à minha escola. Não me importei com os olhares alheios, com as pessoas que ali passavam, com quem pudesse nos ver e nos delatar. Não dei a mínima para mais nada, porque nada mais importava, além dele.
— Te chamo no WhatsApp mais tarde, sei que seu número não mudou – sussurrou ao fim do nosso beijo, com seus lábios ainda encostados aos meus. – Espero que tudo fique bem, eu te amo demais, Jessica.
— Só não brinca comigo, Emerson. Não me abandone mais, porque eu te amo muito para te perder sem motivo algum.
— Estaremos sempre juntos, borboleta.
E ele sorriu... E seu sorriso incendiaria o universo...
E
— Você não é louca, criatura, é completamente insana! – bradava Niki, minha melhor amiga desde a pré-escola. – Se eu vi, imagina quantos mais também viram! – continuava a protestar, enquanto eu revirava os olhos e colocava os fones no ouvido, ligando meu Deezer no volume máximo. Porém, Niki era teimosa demais para aceitar minha atitude. Arrancou meus fones e reiniciou seu protesto: – Aquilo não foi um beijo, e sim um desentupimento de pia.
— Bem, pelo menos seus murmúrios provam que eu não estava sonhando. Emerson reapareceu mesmo – declarei, sorrindo vitoriosa.
— Argh! Jessica, você é impossível! – resmungou, levantando as mãos para o céu e acelerando seus passos.
Fitei-a enquanto caminhava. Niki era uma baixinha de cabelos negros, lisos e compridos, que contrastavam perfeitamente com sua pele branquinha e seus olhos cor de caramelo. Era tão lindinha e espevitada que eu a chamava de fadinha.
Rindo à toa, segui-a. Estava tão feliz da vida que nem dei trela para a sincera preocupação de Niki sobre o que poderia acontecer comigo depois que revelasse aos meus pais a minha nova decisão.
— E aí, beijoqueira? – cumprimentou-me Eric, meu outro melhor amigo, colocando-se a caminhar ao meu lado.
— Até tu, Brutus? – indaguei em tom jocoso.
— Deixa tua mãe saber disso, esse teu sorrisinho vai desaparecer no mesmo instante – rebateu, brincando.
— Saber, ela vai... Se permanecerei viva depois disso, aí já é outra história.
— O que eu perdi? – perguntou Eric, curioso.
— Não me casarei mais com Adam.
— Epa! Lembre-se de que estou na fila.
— Já disse que te amo como um irmão, idiota.
— Sei disso, bobona. Estou brincando contigo. – Eric me deu um estalado beijo na bochecha e completou, rindo: – Não se preocupe, estarei no seu velório.
— Acho bom!
— Ensaio hoje, às três horas, vê se não morre antes desse horário, ok?
Ele acariciou minha cabeça com um gesto nada delicado, bagunçando meus cabelos, e seguiu por outro caminho. Provavelmente, já tinha um encontro marcado com alguma doida da escola. Afinal, Eric era um gatinho.
Mesmo feliz com o retorno de Emerson e levando tudo na brincadeira com os meus amigos, por dentro, meu coração disparava só de imaginar a conversa que teria com os meus pais e com Adam...
E
Marquei um ensaio com a banda e decidi que teria a bendita conversa quando retornasse. Dessa forma, meu pai já estaria em casa para o jantar e seria mais fácil não ser morta pela minha mãe se ele estivesse presente.
Mal cheguei à porta da casa de Eric, sem ter tempo de tocar a campainha, e o Honda Civic de Adam estacionou ali, de repente. Ele desceu do carro e... – por Deus, o cara estava lindo! Seus olhos azuis brilhavam com uma fúria latente, e isso o deixava terrivelmente sexy. – Deu a volta até ficar ao meu lado. Segurando-me pelo braço com força, conduziu-me até o veículo sem dizer uma só palavra, abriu a porta do lado passageiro e ordenou:
— Entra.
— Por quê? – indaguei confusa.
— Porque estou mandando.
— Desde quando você manda em mim? – protestei, dando-lhe um safanão e livrando-me de seu aperto em meu braço.
— Jessica, não complique mais as coisas! – vociferou irritado. – Entra logo na porcaria do carro antes que eu faça uma besteira.
— Não. Vou. Entrar – falei cada palavra separadamente. – Entendeu ou quer que eu desenhe?
Depois dessa, tudo o que vi foi o punho de Adam vindo em minha direção. Esforçando-me para manter-me de pé, enquanto o mundo passava a girar mais rápido que o normal, fui agarrada pelos cabelos e encostada com violência contra o carro. Adam colocou-se às minhas costas, prendendo-me junto ao Honda e sussurrando por entre os dentes:
— Sabe, querida...? Seria melhor que você desenhasse, afinal, não estou entendendo metade das suas atitudes de hoje.
— Meus pais também não entenderão seus atos, Adam – rebati com raiva.
— Jura? – indagou debochado. – E o que eles dirão quando eu lhes mostrar isso?
Adam estendeu a mão com o celular para que eu pudesse ver o que tanto ele queria mostrar aos meus pais. Foi quando senti meu sangue gelar. Clicando em um dos ícones da tela daquele aparelho, mostrou-me, uma a uma, todas as fotos que tinha no arquivo. Emerson e eu nos beijando de maneira lasciva... em público!
— Droga! – murmurei, passando a língua nos lábios, sentindo o gosto acre de sangue.
Minha única reação foi lhe dar uma cotovelada no abdômen, fato que o fez afrouxar seu aperto, permitindo que eu escapasse daquele cerco que Adam me fazia. Livre, presenteei-lhe com um lindíssimo gancho de direita. Depois, saí correndo, porque eu podia ser boa de briga, mas não ficaria ali para sentir meu noivo machista revidando meus golpes.
Imaginei que Adam me seguiria de carro, isso me daria tempo para encontrar um lugar seguro para me esconder, pois ele teria que dar a volta, entrar no Honda, encaixar a chave na ignição, engatar a marcha... Porém, para minha surpresa, o doido passou a correr atrás de mim, e eu fugia de Adam como o diabo corria da cruz. Em meio à fuga, esbarrei na segunda criatura mais deliciosa do universo – Emerson era sempre o primeiro em tudo na minha lista. – Antes que eu caísse, ele me amparou e perguntou:
— Você está bem?
Por poucos segundos, tudo pareceu estancar. Era como se alguém apertasse o botão que pausava o mundo. Éramos somente ele e eu naquele momento. Fitei-o e analisei suas feições. Era um moreno maravilhoso, parecia um guerreiro indígena, com cabelos compridos e pele bronzeada.
Balancei a cabeça e tudo voltou ao normal. Vi que Adam estava prestes a me alcançar e respondi ao cara do esbarrão:
— Estou ótima, obrigada.
Tornei a correr, contudo, a mão de Adam logo me segurou pelo ombro, obrigando-me a estancar meus passos.
— O que você quer comigo? – bradei com ódio, frustrada por não conseguir fugir.
— Quero que me explique essa palhaçada toda – respondeu no mesmo tom.
— Não tenho o que explicar, Adam! Você perdeu esse direito quando me socou.
— Posso repetir a dose.
— Não tenho medo das suas ameaças!
— Não, mas teme seus pais – rebateu, com um sorriso vitorioso.
Coloquei as mãos na cintura e bufei.
— É... Dos meus pais, eu morro de medo – declarei, completamente frustrada.
— O que aconteceu, Jessica? – insistiu Adam, mais calmo, porém, com a voz firme.
— Emerson apareceu na porta da escola, contei que nos casaríamos e demos um beijo de despedida. – Tecnicamente, não era uma mentira... Bem, em partes, era...
— Faremos um trato – Adam sugeriu, após um longo suspiro. – Não contarei nada aos seus pais sobre o seu encontro. Entretanto, não quero mais que tenha contato algum com esse palhaço, e chega de banda de rock, estamos entendidos?
Ok, se Adam queria um jogo, eu lhe daria. Era uma excelente jogadora. Armei todo o plano na minha mente, sorri torto e lhe respondi:
— Que seja. Temos um trato.
Estendi-lhe a mão para firmarmos um acordo, como dois bons negociantes. Aproveitando-se da situação, Adam me puxou para junto de si e me abraçou. Com o ódio que eu sentia, seria capaz de lhe dar um belíssimo chute no meio das pernas. Porém, achei melhor me controlar e representar o papel de boa noiva.
— Quanto ao soco – falou, ainda me envolvendo em seus braços –, você bem que mereceu.
— E que tipo de homem acha que uma mulher merece ser socada no rosto? – protestei. – Teria sido mais educado se me perguntasse com gentileza.
— Era o que eu faria, mas você não entrou no carro. Mesmo assim, Jess, já te perdoei.
— Me perdoou? – indaguei incrédula, indignada, atônita. Adam era mesmo um idiota.
— Vamos só fingir que nada disso aconteceu – sugeriu. Aliás, ordenou. – Você pode fazer isso até o dia do nosso casamento, não?
— Até o nosso casamento? – questionei como uma estúpida, pois fazia parte do meu plano.
— Pode ou não pode? – insistiu ele.
Sim, eu poderia fingir que nada tinha acontecido.
— Nem sei do que você está falando – murmurei, arrancando-lhe risadas.
— É por isso que eu te amo, doidinha!
Adam me soltou de seu abraço, segurou minha mão e me levou de volta ao carro. Durante o trajeto, obrigou-me a telefonar para Eric e inventar uma desculpa esfarrapada para minha saída definitiva da banda. Era óbvio que meu melhor amigo não tinha acreditado em uma só vírgula do que lhe dissera. Porém, Eric era do tipo que não fazia perguntas, ao contrário de Niki, a personificação da curiosidade.
Adam me levou para casa e esse foi o fim da minha carreira musical. Entretanto, era um preço pequeno a pagar pela minha felicidade. Eu ainda tinha uma chance de mudar minha vida, só precisava fazer com que meus planos dessem certo.
E
Entrei em casa de cara emburrada e pisando duro. Adam me seguia.
— O que aconteceu com seu rosto, Jessica? – questionou minha mãe, assim que passei por ela.
— Nada – resmunguei, sem estancar meus passos, seguindo direto para a cozinha.
— Ela tropeçou e caiu sobre os instrumentos durante o tal ensaio da banda – mentiu Adam, inventando uma lindíssima explicação para sua declaração seguinte. – Tem males que vem para o bem, Anne. Jessica não tocará mais com aqueles baderneiros.
— Louvado seja Deus! – exclamou mamãe. – Você é uma benção na vida da Jessica, querido.
— Blábláblá – murmurei baixinho, revirando os olhos e fuçando a geladeira na expectativa de encontrar alguma porcaria para comer.
Meu celular vibrou e nem me dei ao trabalho de ver quem importunava minha tortura interna. Imaginei que Eric já tivesse comunicado Niki sobre minha desistência da banda, e que a fadinha estava pronta para iniciar seu inquérito investigativo. Sob os olhos atentos de Adam e da minha mãe, atendi:
— Fala, Niki.
— Entendi – era Emerson do outro lado da linha. – Você não está sozinha.
— Já tinha até me esquecido desse trabalho – prossegui na encenação. – Te chamo no WhatsApp depois e combinaremos um horário.
— Preciso te ver, borboleta.
— Claro que será hoje, Niki. Essa tarefa precisa ser entregue antes do fim da semana – dei-lhe um aviso em código. Por sorte, Emerson não era burro e entendia todos os meus enigmas.
— Passe meu número para a fadinha e combine tudo, nos veremos na casa dela.
— Certo.
Desliguei o celular e passei por Adam, resmungando:
— Vou tomar um banho, porque tenho mais o que fazer.
E
Assim que consegui ficar sozinha, chamei Niki no WhatsApp e lhe passei meus planos. Nosso combinado ficou assim: ela ligaria para Emerson e marcaria para que ele estivesse em sua porta às sete horas em ponto; eu falaria para o noivo machista que Niki pediu para que fosse fazer o trabalho às oito; os pais dela não estariam em casa, e só voltariam depois das duas da manhã. Adam, com certeza, teria imenso "prazer" em me levar até a residência da fadinha. Na verdade, sua intenção era verificar se Emerson estaria por lá. Porém, o gostoso ficaria me aguardando escondidinho no quarto da Niki, e Adam não o veria entrando e nem saindo do "reino encantado" da minha melhor amiga. Plano perfeito!
Fizemos tudo conforme o combinado. Como era de se esperar, Adam entrou comigo na casa de Niki, apenas para conferir se Emerson estava por lá. Como não viu nenhum indício da sua presença, o machista se retirou. Mas eu tinha certeza de que Adam ficaria me esperando na porta da residência, dentro do seu lustroso e imponente Honda Civic, vigiando todos os meus passos.
— Vai, ficarei de guarda. Qualquer coisa, eu te chamarei – falou Niki, em cumplicidade. Tudo para ela era uma festa.
Não perdi tempo, disparei para o quarto da fadinha e, assim que o vi, corri para os seus braços.
— Não contou nada, não é? – indagou Emerson, em tom acusatório.
— Pior, você nem imagina o que aconteceu...
— O que foi isso no seu rosto?
Relatei todo o ocorrido daquela tarde. Quando terminei, precisei de muito esforço e de muita persuasão para conter seus ímpetos. Emerson queria sair para quebrar a cara de Adam. Sim, eu queria deixar, porém, isso destruiria meus planos. Sendo assim, dei um jeito – não me pergunte como – de jogá-lo na cama de Niki e de deitar-me sobre ele, murmurando:
— Para de ser imbecil e me escuta!
— Desse jeito? – perguntou, com a voz maliciosa e olhar repleto de lascívia, enquanto suas mãos alisavam minhas costas e meus cabelos.
— Bobo! – exclamei, rindo. Retomei o prumo e declarei: – Emerson, fugirei contigo. Meus pais não vão aceitar que fiquemos juntos, e não estou disposta a ouvir sermão sobre isso.
— Como faremos?
— Hora de provar que você me ama de verdade.
— Ainda duvida disso, borboleta?
— Tenho meus motivos, anjo – rebati com firmeza. – Mas faremos assim, você aparece na igreja e deixarei Adam bem humilhado, da maneira que merece, naquele altar.
— Desse jeito será mais difícil, eles podem tentar nos impedir.
— É assim que eu quero.
— Bem, a culpa é minha por você estar nessa roubada. Não concordo, mas farei como me pede.
E nada mais foi dito. Ele me beijou e nossos carinhos se intensificaram. Aproveitei cada segundo em seus braços, e já era quase impossível me livrar dos desejos que provocavam as primeiras explosões eróticas em meu corpo. Em meio ao calor do momento, tive uma insana e desvairada vontade de mordê-lo. Queria experimentar o sabor do líquido que esquentava seu corpo. Mas não podia, porque não era certo, porque não era normal. Meu tempo com ele havia acabado, era hora de voltar à realidade. Despedi-me do meu anjo com um delicioso ósculo e saí da casa de Niki com todos os planos já arquitetados.
Como eu havia imaginado, Adam me esperava com o carro estacionado na porta da casa da fadinha. Assim que entrei no Honda, ele falou:
— Hum... Anda se comportando direitinho. Gostei de ver. Isso perdoa um pouco seu deslize, maluquinha... Um pouco – enfatizou, com o indicador levantado.
Enquanto ele dava a partida no Honda e manobrava para sair dali, vi o cara do esbarrão se aproximando da casa de Niki. Inesperadamente, ele me reconheceu e me cumprimentou com um discreto aceno com a cabeça e um sorriso torto nos lábios. Estranhei, e minha única reação foi franzir as sobrancelhas e revirar os olhos. Pura coincidência sua presença ali? Talvez...
E
Emerson me ligou todos os dias durante as duas semanas que antecederam ao casamento. Na noite de véspera da imensa bobagem que eu havia programado para minha vida, ele tornou a me telefonar:
— Eu te amo, borboleta. Aconteça o que acontecer, jamais te deixarei – murmurou pesaroso.
E essa foi a única certeza que ele me deu quando nos falamos pela última vez antes de realizarmos nossos planos... Pela última vez...

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