"Por que alguém deveria se dar ao trabalho de se apegar a alguma coisa se a) não vai durar para sempre e, b) dói demais quando acaba? Se tudo é finito, se tudo tem começo, meio e fim definidos, então, por que começar? Qual é a razão, se tudo leva ao fim?"
FICHA TÉCNICA
• Título: Terra de Sombras
• Autora: Alyson Noël
• Série: Os Imortais, volume 3
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2010
• Páginas: 280
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.98078.98.4
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Flávia Souto Maior
• Revisão: Umberto Figueiredo Pinto e Shirley Lima
SINOPSE: Ever e Damen atravessaram diversas vidas e enfrentaram os mais terríveis inimigos com um só objetivo: ficar eternamente juntos. E quando esse sonho está ao alcance das mãos, um poderoso feitiço cai sobre Damen. Agora, para ele, simplesmente tocá-la ou encostar os lábios nos dela significaria a morte, o exílio definitivo em uma terra de sombras. Desesperada por livrá-lo da maldição, Ever mergulha de corpo e alma na magia e encontra uma ajuda inesperada: um surfista chamado Jude. Apesar da profunda lealdade a Damen, é inevitável que ela se sinta atraída por esse garoto estranhamente familiar, de olhos verdes, dons mágicos e passado misterioso. Ever sempre acreditou que Damen fosse seu destino, mas e se o futuro tiver reservado outros planos? Com Jude cada vez mais próximo, pela primeira vez em séculos, esse amor é posto à prova.
"Porque atrair esse tipo de atenção garante que seu nome e afins sejam registrados na história, algo que devemos fazer de tudo para evitar".
ASPECTO FÍSICO: Não dá para negar, toda a série tem capas que se vendem por si. É como comprar um livro apenas pela capa, de tão belas e atraentes que são. Nesta edição, o destaque fica para o amuleto que pende do cordão que se enrola pelo dedo da modelo, levando-nos a visualizar essa mesma peça quando ela é citada no enredo. O aspecto sombrio com destaques iluminados é o ponto alto de todo visual. Mesmo no formato 16 x 23 cm, a peça é leve e não causa incômodo ao segurá-la durante a leitura. A contra capa é singela, mantendo o estilo adotado, como marca registrada. O arabesco lilás que emoldura a sinopse se destaca sobre o fundo negro, também enfatizando o texto em seu interior. As páginas, em papel pólen bold, evitam o reflexo da luz, facilitando a leitura. Em contrapartida, o tamanho da fonte se torna um martírio a quem tem problemas de visão. Talvez, para baratear o produto, ainda que cada capítulo se inicie em uma página distinta, percebemos a economia ao não ter um padrão. Normalmente, os capítulos se iniciam nas páginas ímpares, independentemente se o anterior se findou na par ou não – no caso, a página de número par ficaria em branco. – Para ser sincera, o aspecto físico do livro me agrada, minha única reclamação é mesmo o tamanho da fonte. A diagramação é limpa, deixando nossa atenção voltada exclusivamente para a leitura.
"Algumas coisas, não importa o quão dolorosas sejam, acontecem por uma razão. Uma razão que você e eu podemos não entender à primeira vista, não sem conhecer toda a história de vida daquela pessoa, seu passado cumulativo. Simplesmente se intrometer e interferir, não importa o quão boas sejam as nossas intenções, seria como privar as pessoas da sua jornada. Algo que é melhor não fazer".
ENREDO: As coisas se complicaram para o casal protagonista, afastando Ever e Damen de todos os toques. Enquanto ele reflete sobre o assunto, tirando a culpa de Ever e jogando-a em seus ombros, crendo que o karma o alcançou e o pune da pior maneira, ela se mostra disposta a qualquer sacrifício para reverter a situação, evitando seu último recurso, Roman, o jovem imortal sedutor que criou toda essa situação por pura vingança. Se ele não podia ter o que queria, Damen, seu arquirrival de todos os tempos, também não teria. Em meio a tudo isso, enquanto Roman fustiga a paciência de Ever, as férias de verão se aproximam, e Sabine, a tia da protagonista, sugere – quase ordenando – que a garota não desperdice seu tempo, pedindo para que ela trabalhe em meio período durante o recesso escolar. Para se livrar do fitar da tia, que deseja colocá-la na vaga de estagiária em seu escritório de advocacia, Ever decide trabalhar na loja mística que pertencia à esotérica Luna. Lá, ela conhece Jude, um belíssimo surfista que fez parte de suas vidas passadas, mas que ainda não se lembra de nada. Jude é espiritualizado, conectado à magia, e Ever encontra a brecha que precisava para solucionar muitos dos seus problemas. Além de cumprir com a ordem de Sabine ao trabalhar na loja que agora pertence a Jude, ela recorre à magia para solucionar a maldição que Roman lançou sobre Damen. O problema é que Roman sabe jogar, movimentando suas peças de forma a cercar Ever. E como se não bastassem todos os obstáculos em seu caminho, incluindo a súbita atração por Jude, as gêmeas de Summerland, Romy e Rayne, ficam presas no mundo físico, sob a responsabilidade de Damen, privando o casal do parco tempo que teriam para compartilhar. Os amigos se afastam, as gêmeas não colaboram, Damen pede um tempo para que Ever decida entre ele e Jude, Miles está prestes a viajar para a Itália, Haven se vê perdida em seu mundo de frustrações, e Roman insiste em perturbar. É quando um passo em falso complica Ever, colocando-a cada vez mais perto de uma terra sombria, sem luz, sem nada.
"Uma realidade que parece vasta, infinita e poderosa, sem limites visíveis... até que se percebe a verdade de ver seus amigos definharem e morrerem, enquanto você permanece igual. E você é obrigado a observar de longe, porque, quando a desigualdade se torna óbvia, não há escolha, a não ser seguir adiante, ir para outro lugar e começar de novo. E de novo. E de novo... Tudo isso faz com que seja impossível criar laços verdadeiros. E a ironia é que, apesar do nosso acesso ilimitado a poderes e magia, a tentação de causar grande impacto ou efetuar alguma mudança real deve ser evitada a qualquer custo. É a única forma de nos mantermos escondidos, com nossos segredos preservados".
MINHAS CONSIDERAÇÕES: O título, Terra de Sombras, tem mais a ver com o estado de espírito da protagonista que ao próprio mundo em si. No enredo, existe um local chamado Shadowland, um lugar de punição da alma, um monte de nada em completo breu, o esquecimento total. Na verdade, achei a premissa interessante, e a autora poderia ter explorado melhor essa dimensão. Em Shadowland, é como se a alma não tivesse acesso a nada, nenhum dos seus sentidos funciona. Incrível como a autora tem essa ânsia em ser politicamente certinha. A série tinha potencial, ela só precisava ousar... mas falhou quando quis se manter no óbvio, colocando os humanos como criaturas maravilhosas e superiores, as únicas dignas de um pós morte feliz, longe de Shadowland. Em certos momentos, Alyson Noël não consegue se desprender da personagem. Ao contrário dos dois primeiros volumes, onde Ever realmente não se interessa por coisas fúteis, de repente, em Terra de Sombras, ela se torna expert em estilos de decoração, citando a referência apenas com uma rápida análise do ambiente. Isso se tornou imaturo demais à escrita, porque foi algo que surgiu do nada, sem precedentes. Os erros de Ever se tornam cansativos. Tudo bem que adolescentes cometem um erro após o outro. Porém, o fato de já ter uma experiência traumática com Roman deveria afastá-la, e não colocá-la em louca e desesperada corrida até ele no meio da noite, menos ainda depois de uma conversa recente sobre o assunto com Damen. Pior... ela correu direto para o cara que a enganou e que lhe tirou a felicidade do toque com o amor de sua vida. Há uma citação sobre o “Conselho Wiccano” na página 81, especificamente: “sem ninguém prejudicar, faça o que desejar”. Foi nesse ponto que me decepcionei. Porém, isso é algo que explicarei na próxima resenha, assim poderei abordar tudo de uma vez sem ficar repetitiva... Diante de tudo isso, minha decepção surgiu ao perceber que a autora simplesmente leu alguma baboseira no Google, sem se dar ao trabalho de se aprofundar no assunto, de pesquisar com afinco, e acabou jogando todas essas besteiras no enredo. Pior ainda, conectou tudo ao julgamento das bruxas de Salém. Bem, já deixei meu argumento exposto na resenha do próximo volume, Chama Negra, com as explicações plausíveis para sustentá-lo. Sendo assim, voltemos ao que interessa... Damen está um porre de chato, até que, no capítulo vinte e três, conseguimos ver o Damen de sempre. Ainda que melancólico e frustrado, é o Damen ousado que aprendemos a amar. Falando em amor, amo Jude, o novo personagem, seu alto astral é simplesmente incrível. As gêmeas comentam com Ever que não se faz feitiço na Lua Negra, outro fato equivocado da autora, afinal, os melhores banimentos, os mais eficazes feitiços de limpeza e de autoconhecimento são praticados durante a Lua Negra. O problema foi que Ever fez um feitiço de amarração, que não deve ser feito NUNCA, pois mexe com o livre arbítrio de outrém. Encerro aqui minhas críticas, já me estendi demais no assunto.
“A tecnologia avança muito rápido, tornando o familiar obsoleto a um ritmo cada vez mais veloz. E, enquanto coisas como a moda parecem avançar e mudar, quando se vive tempo suficiente, percebe-se que tudo é cíclico. A readaptação de ideias antigas de maneira a parecerem novas. Mas, enquanto tudo ao nosso redor parece estar em fluxo constante, no fundo, as pessoas permanecem exatamente iguais. Ainda fazemos as mesmas buscas de sempre... Uma busca imune à evolução... E quando se obtém o básico, quando se asseguram comida e abrigo, passamos o resto do tempo apenas querendo ser amados”.
NOTA FINAL: Estou terminando a leitura do quarto livro da série, e posso dizer que, na minha opinião, Terra de Sombras, volume três, é o pior e o mais arrastado de todos. Foi quase insuportável, doloroso, enfadonho. A autora se perdeu, jogou pontos e mais pontos sem atar os nós, decepcionou ao mostrar que não teve um pingo de acuidade em pesquisar, estudar antes de escrever. Na literatura, tudo é possível, e sim, criamos nossos mundos, dando vida aos personagens e suas leis. Porém, quando conectamos a ficção com fatos históricos, precisamos sincretizar os acontecimentos. As coisas não devem ser simplesmente lançadas ao léu. O romance pode – e deve – ter seu destaque, afinal, esse é o contexto principal. No entanto, não deve ser o único ponto. A ação, tudo que acontece ao redor, tem que chamar nossa atenção, ter coerência. Foi nesse ponto que a autora pecou, deixou de ousar... ou apelou para o lado que não funcionou. Ainda assim, insisto para que leiam e não desistam. A série retorna ao potencial no quarto livro, Alyson Noël se redime dos erros e nos eleva ao delicioso êxtase dos primeiros volumes. Vale a pena superar Terra de Sombras para chegar à Chama Negra.


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