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Depois de estragar a vida da pobre Jenny, passei um mês inteiro tentando me desculpar com ela. No entanto, tudo o que consegui foram três socos na cara, cinco chutes no saco, uma cotovelada no abdômen e um pedido de desculpa após cada golpe. E só.
Certa noite, já estava dormindo, quando escutei uma nova briga. Fiz o possível para conter meus ímpetos, não me intrometer e não desgraçar ainda mais a vida dela. Porém, os barulhos aumentaram, ficando cada vez mais infernais. Até que foi possível ouvir a porta do apartamento ao lado se quebrando.
Uma mulher... Ela era somente uma mulher... E Matt não percebia que estava agredindo uma doce mulher? Bem, uma mulher que não fugia da briga... Mas, para mim, ela era doce e meiga.
Sim, eu já estava completa e incondicionalmente apaixonado por aquela mulher.
Não aguentei mais e saí para ver o que estava acontecendo. Encontrei Jenny jogada no chão, sangrando por todo o rosto, arrastando-se para fugir de Matt, que estava totalmente descontrolado pela quantidade de drogas e bebidas que havia consumido. Cerrei meus punhos e caminhei na direção do maldito, mas fui detido no meio do caminho, pois Jenny fez um movimento com a mão, um sinal, pedindo que eu parasse. E foi automático, estanquei meus passos.
— Durma na rua, porca! – vociferou Matt após dar um chute nas pernas da esposa.
Ele entrou e se deitou no sofá. Não se passaram nem cinco minutos e seus roncos já podiam ser ouvidos. Aproveitei o ensejo e corri até Jenny, que continuava ferida e sangrando no piso frio daquele corredor.
— Menina má – sibilei, enquanto alisava cuidadosamente seus cabelos. – O que fez para deixá-lo tão irritado? – Bem, não importa... Irritado ou não, ele não tinha o direito.
Tomei-a em meus braços e carreguei-a para dentro do meu apartamento. Ajeitei-a no sofá, limpei seus ferimentos e chorei com cada gemido de dor que ela soltou enquanto a tocava. Naquele estado, Jenny parecia tão pequena e frágil... Tirei-a do estofado e a levei para o quarto, sentando-me na cama com ela ainda em meu colo, mantendo-a em meus braços.
Jenny abriu os olhos e esboçou um sorriso.
— Obrigada – balbuciou agradecida.
— Eu sabia que tinha uma doce menina dentro dessa guerreira – rebati, retribuindo-lhe o sorriso.
— Houve... Um dia... Agora não existe mais – corrigiu. Para cada palavra, uma careta de dor.
Estendi-lhe um comprimido de analgésico e um copo com água.
— Bem, isso não vai curar o estrago, mas fará com que se sinta melhor – expliquei, ajudando-a a sentar-se para tomar o remédio.
Jenny estava fraca demais. Logo, deitou-se novamente em meu colo. Puxei o lençol para lhe cobrir e lhe aquecer. Era tão bom tê-la em meus braços, toda encolhidinha de frio e precisando de mim, que imaginei estar vivendo uma utopia.
— Eu não fiz nada – balbuciou com os olhos fechados. – Nunca faço. Ele simplesmente me bate e pronto... Matt não precisa de motivos para me agredir.
— Desde quando isso vem acontecendo? – perguntei indignado com o fato de ver que um homem tinha a sorte grande nas mãos e a esmigalhava com as próprias.
— Desde que o flagrei com outro homem na nossa cama.
Essa resposta me pegou de surpresa. Matt, que parecia o típico macho viril e másculo demais para aflorar seu lado sexual com outro homem, era, na verdade, um homossexual frustrado por ter que manter as aparências em um casamento fracassado com uma linda mulher. Podia imaginar quão difícil era para ele, porém, não precisava ser para ela. Havia mil maneiras do casal resolver isso... um acordo mútuo, qualquer meleca do tipo. Agredi-la não era a solução. Ele continuaria frustrado, preso. E Jenny... Bem, sempre machucada.
— Não vai acontecer de novo – sibilou Jenny, enquanto abria os olhos e fitava-me com intensidade.
— Como não? Ele te bateu quase todos os dias desde que se mudaram. E você sofreu em silêncio esse tempo todo.
— Não vai acontecer de novo – repetiu as mesmas palavras, insistindo em uma ideia que não ousava revelar em voz alta.
— Jenny, você precisa denunciá-lo às autoridades.
— Já o fiz, nada resolveu – declarou com a voz mecânica... E o robô estava de volta naquele corpo...
— Jenny, Jenny... A destemida... – sussurrei, após um profundo suspiro frustrado, pois eu sabia que nada iria dissuadi-la daquela ideia.
— Por quê... – hesitou por um momento. – Por que você me ajudou?
— Ainda não percebeu?
— Isso não pode ser verdade, Lucas. Não sou boa o bastante para que goste de mim.
— Por que não se deixa amar ao menos uma vez na vida?
— Porque sairei daqui sorrindo. Estarei algemada, mas sorrindo.
Aproximei meus lábios dos seus e a beijei. Devagar. Temi machucá-la ainda mais. Jenny correspondeu ao ósculo.
Então, deixei-a ali, deitada, descansando, desfrutando de um sono que, havia muito, ela já não tinha o direito.
Juntei tudo o que precisávamos. Dinheiro, roupas, comida. Coloquei essas tralhas no carro e o tirei da garagem, estacionando-o na porta do prédio. Retornei para meu apartamento e passei o resto da madrugada velando seu sono.
— Nunca mais, Jenny, minha querida... Nunca mais... – declarei, enquanto acariciava delicadamente sua face machucada.
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Ela acordou às cinco da manhã e me encarou sem expressão alguma no rosto. Como era seu costume, nada falou. Porém, entendi perfeitamente quais eram suas intenções. Apenas assenti com a cabeça, como se pudesse ler seus pensamentos, e ela, os meus. Dei uma última conferida no apartamento que tinha sido a única herança que meus pais me deixaram. Depois, saímos juntos. Eu desci as escadas e ela foi de encontro ao marido.
Não precisei esperar muito. Escutei três tiros e liguei o motor. Jenny veio correndo e entrou apressada no meu carro. Nada dissemos. Aprendi com ela que o silêncio, em certos momentos, era a melhor forma de comunicação. Dirigi até sairmos da cidade, sem um destino traçado, apenas seguindo sem rumo, para onde a vida pudesse nos levar.
Jenny me fitou e, pela primeira vez, a vi sorrindo feliz. A única bagagem que trazia consigo era sua mochila de formato esquisito, uma Glock 9 mm e seus óculos escuros.
— Nunca mais – ela murmurou.
— Nunca mais, Jenny.
E é assim que vivo no momento, seguindo pelo mundo sem destino, sempre com ela ao meu lado. E, mesmo fugindo da polícia, sou mais feliz agora...
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Nunca Mais - Autoria: Vanessa Araujo - da obra Acasos da Vida.

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