A alma ferida pode não mostrar seu valor no momento inicial... Por isso, sofre as pancadas da vida. Depois, determinada, ergue sua lâmina e vence!
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Fitando a movimentação da chegada dos novos moradores do apartamento ao lado, notei algumas idiossincrasias daquele casal. Ele era enorme, um gigante, o tipo de homem que dominava e amedrontava somente com o seu tamanho. Ela era linda, porém, com um semblante triste. Não parecia ser como as mulheres delicadas que precisavam de cuidado o tempo todo. Pelo contrário, demonstrava ser forte e decidida.
Minha intenção era me apresentar formalmente ao casal, uma política de boa vizinhança, assim que se instalassem. Entretanto, quando o fim da tarde chegou e eu já estava pronto para dar meus cumprimentos e oferecer qualquer ajuda que pudessem precisar, mudei de ideia e refreei meus passos.
Do lado de dentro do apartamento ouvia-se sons secos, como de um corpo sendo surrado. Depois, seguiu uma sequência de louças sendo quebradas. Porém, nenhuma voz, nenhum grito, se fez ouvir. Nenhum clamor. Talvez estivessem fazendo algo que eu, com certeza, não queria atrapalhar. Dei meia volta e retornei ao meu lar. Falaria com eles em um momento mais oportuno.
Após uma semana observando o casal, eu já não acreditava como uma mulher linda aceitava ser esposa do brutamonte que ela chamava de marido. O cara chegava todos os dias – quando chegava – bêbado e fedendo como um porco. Tratava a moça como um nada, gritando a todo o momento: “Jenny, onde está minha comida?” ou “Jenny, a cerveja está quente, sua imprestável”. E ela nada respondia. Não que eu escutasse. Talvez falasse em baixo tom. Ou talvez tivesse medo. Porém, eu estava certo, medo era um sentimento que não habitava naquela moça. Bem, ao menos já sabia seu nome: Jenny.
Eu estava saindo para o trabalho, parei no corredor do prédio, apertei o botão do elevador e o esperei até que subisse ao nono andar.
Não era costume de Jenny sair naquele horário. Com uma pontualidade britânica, ela seguia sua rotina, sempre saindo antes de mim, tornando impossível um encontro casual ou qualquer outra coisa do tipo. Entretanto, nesse dia foi diferente. Ela não estava atrasada, ou não parecia estar. Um ser humano com pressa fica impaciente e dá chilique. Ela não. Estava calma como um monge tibetano. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo emaranhado, revelando que pouco se importava com a aparência. Ou, talvez, por ordem superior – do marido –, aquele seria o único artifício aceitável para sua vaidade. Porém, ela não precisava de nada, já era linda por natureza. E nunca vi a cor de seus olhos, pois estava sempre com óculos escuros, mesmo quando chovia.
Em um súbito rompante de coragem, cumprimentei-a:
— Bom dia.
— Hum... – resmungou, retorcendo o canto dos lábios. E isso foi tudo o que ela me respondeu.
— Ainda não nos apresentamos – insisti em manter um diálogo. – Sou Lucas, seu vizinho do apartamento ao lado. Muito prazer. – Estendi a mão direita para cumprimentá-la.
Ela apenas fitou meu membro estendido e não correspondeu ao gesto. Nem preciso relatar o tamanho da minha vergonha e o quanto fiquei completamente sem graça diante da rejeição.
— Jenny – e essa foi a sua resposta para a minha fracassada tentativa de nos apresentarmos.
O que ela era? O sonho de todo machista: uma mulher linda, sem maquiagem e de poucas palavras.
O elevador chegou e esperei que ela entrasse. Apertamos o mesmo botão, que nos daria acesso à garagem. Percebi que ela carregava uma mochila em um formato esquisito pendurada nas costas.
Jenny saiu do elevador e caminhou em direção ao seu carro sem falar mais nada – não que ela tivesse dito muita coisa antes, apenas duas vagas palavras. – Abriu o porta-malas e jogou a mochila esquisita ali. Andei devagar em direção ao meu automóvel. Eu não queria perder nenhum momento que pudesse ter ao lado daquela mulher misteriosa.
Percebi que tentava dar a partida, mas o carro não funcionava. E Jenny não perdia a calma, não demonstrava nenhuma emoção. Nem raiva, nem tranquilidade. Nada. Um robô era o que ela parecia ser.
Caminhei até seu carro, estampei um sorriso cordial no rosto e indaguei:
— Precisa de uma carona?
Ela me fitou e deu de ombros. Saiu do carro, pegou sua mochila – que estava no porta-malas – e me acompanhou.
— Diga-me onde devo levá-la – falei quando já estávamos acomodados dentro do veículo.
— No clube do centro da cidade – Jenny respondeu, olhando para frente, fitando o nada.
Suspirando após mais uma frustrada tentativa de me comunicar com ela, murmurei:
— Então, vamos.
Fiz de tudo para conversar com Jenny durante o trajeto. Contei piadas, relatei um pouco da minha vida. Ela não fez um só movimento.
— O que você carrega nessa mochila esquisita? – indaguei curioso. Homem quando quer ser fofoqueiro é pior que mulher.
— Meu instrumento de trabalho.
— Que seria...? – instiguei.
— Arco e flechas.
— Hum... É boa com isso?
— O suficiente para ser a instrutora – rebateu secamente.
— Então, é boa – concluí.
— Como te disse, o suficiente.
E essa foi a conversa mais longa que troquei com Jenny.
Estacionei na porta do clube e tive um ataque de cavalheirismo, saí para abrir a porta do carro para a linda dama. Bem, essa era a minha intenção. Porém, mal dei a volta e ela já estava fora do veículo. Novamente imperou um silêncio de palavras entre nós. Ela apenas me fitou por detrás das lentes escuras dos seus óculos, e ficou assim por quase um minuto inteiro. Foi esquisito e constrangedor, porque eu não sabia o que dizer ou o que fazer.
— Obrigada – Jenny agradeceu e saiu andando.
Um simples “obrigada” não me bastava. Eu queria algo a mais. Não entenda mal os meus intuitos, apenas desejei ser um amigo, mas ela me tratava como uma doença contagiosa. Tinha acabado de lhe prestar um favor e meus bons modos foram, praticamente, hostilizados.
— Hei, Jenny – chamei-a em um ímpeto involuntário.
Virando-se, olhou-me com a mesma expressão robótica de sempre.
— Qual é o teu problema? – indaguei. – Sofre de retardo mental?
Não sei onde estava com a cabeça para tratá-la dessa forma, mas, muito provavelmente, não era em cima do pescoço. E, quando esperei por uma flechada no crânio, o que recebi foi um sorriso. Depois, ela se virou e entrou no clube. Rindo da minha própria idiotice, retornei para o carro e fui trabalhar.
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Nunca Mais - Autoria: Vanessa Araujo - da obra Acasos da Vida.
Parte 2 - Dia 15/03/2023. Aguardem... e comentem!

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