“O lar é o lugar em que a mãe está... e todo mundo volta para o lar no Natal”.
FICHA TÉCNICA
• Título: O Último Jurado
• Autor: John Grisham
• Editora: Rocco
• Edição: 2004
• Páginas: 392
• Formato: 14 X 21 cm
• Gênero: suspense
• Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos
• Revisão: Mônica Martins Figueiredo
SINOPSE: Em uma área de mata densa e coberta por pântanos, charcos e brejos instalou-se, no Mississipi, a família Padgitt, desde sua origem, notória por feitos ilícitos - vários anos de fabricação de uísque ilegal, contrabando, roubo, suborno, prostituição e até assassinato. Reservados e unidos, resguardavam sua privacidade, sempre temerosos de que alguém se infiltrasse em seu pequeno reino e interrompesse seus lucros consideráveis. Cuidadosos, inteligentes, determinados e pacientes em suas maquinações, nunca qualquer de seus membros fora acusado de crime algum. Até que Danny Padgitt, o filho caçula, é preso pelo estupro e assassinato da jovem e atraente viúva Rhoda Kassellaw, e consegue, assim, aterrorizar o pacato condado de Ford.
“A princípio, não pude determinar se Miss Callie estava ansiosa ou excitada. Não tenho certeza se ela própria sabia. A primeira eleitora negra do condado poderia se tornar agora a primeira jurada negra. Ela nunca recuara de um desafio, mas tinha graves preocupações morais com o julgamento de outras pessoas”.
ASPECTO FÍSICO: O livro, com encadernação em formato brochura, páginas brancas com papel off-set, tem a capa simples, sem orelhas, com acabamento laminado brilhoso. A imagem de capa é simples, chamando a atenção para o título e o nome do autor. Na contracapa, uma foto do escritor e sua biografia. Sinceramente, eu não compraria o livro pela capa, muito menos sem uma sinopse atraente. Adquiri a obra pelo sucesso que precedia o nome de John Grisham. Após o enredo de Tempo de Matar, que virou filme com Samuel L. Jackson no elenco, estava ansiosa por mais do autor. Porém, a capa é mesmo desestimulante. As folhas brancas me incomodam, pois são reflexivas, atrapalhando a visão. As letras têm um tamanho adequado. Considero arrogante a foto grande do autor na contracapa, deixando a sinopse de lado. O livro tem que se focar no enredo, afinal, não se trata de biografia, e sim de uma criação. Mas isso é minha mera opinião.
“Por que a cidade se mostrava tão ansiosa em atribuir a culpa por um veredito impopular à única pessoa negra do júri”?
ENREDO: O livro se passa na década de 70 e conta a história de Willie, um jovem jornalista que se muda para atuar em um pequeno jornal de Clanton – Condado de Ford, Mississipi. – Logo ele se vê com a oportunidade de comprar o jornal para resgatá-lo da falência, e as coisas parecem fluir para Willie. Um assassinato brutal acontece, atordoando a pacata cidade. É quando Danny Padgitt entra em cena, sendo preso pelo corrupto xerife Colly horas depois do crime, e fotografado por Willy Meek. As fotos de Wiily estampam a primeira página do Times, com um texto audacioso e sensacionalista de Willie. Tal matéria vira prova de julgamento, iniciando a rixa entre o jovem dono do Times e do advogado de defesa de Padgitt, Lucien Willbanks. Willie recebe ameaças de morte após a matéria, e começa a entender que a família Padgitt não é exatamente como os tranquilos cidadãos de Clanton. Harry Rex, um advogado “brutalmente honesto” em suas palavras, se torna amigo de Willie, orientando-o nessa situação. No entanto, o jovem precisa de novos ares, é quando busca outras histórias para completar as páginas do Times, que agora fluía infinitamente melhor de quando o comprou. Willie vai atrás de uma exemplar cidadã do Condado de Ford, do outro lado dos trilhos, onde apenas os negros moravam. Dessa história, nasce uma linda e sincera amizade de Willie com Calia H. Ruffin – ou, como todos a chamavam, Miss Callie, a melhor personagem do enredo, sem contestações. – A vida de Miss Callie se destaca por ser uma negra íntegra em uma sociedade altamente racista. Com uma educação exemplar e culta, ela e o marido, Esaú Ruffin, criaram oito filhos, sete deles com mestrado e doutorado. O mistério de Miss Callie é sobre o filho caçula, Sam, foragido de uma vingança que poderia lhe custar a vida por uma bobeira adolescente. Sam se envolveu com uma mulher de 41 anos, casada, mãe de dois filhos da mesma idade que ele (17 anos). O marido de Iris (amante de Sam) o jurou de morte, e Sam teve que fugir. A trama se divide entre Miss Callie e o julgamento de Danny Padgitt, já que ela, depois de ser destaque de uma edição do Times, em uma enorme matéria escrita por Willie, é convocada como jurada, tornando-se a primeira negra a se sentar na tribuna para julgar um assassino estuprador à prisão perpétua ou à pena de morte. Falar mais que isso sobre o enredo seria arriscado, poderia soltar algum spoiler e estragar a leitura alheia.
“Um brinde a duas famílias fracassadas”.
MINHAS CONSIDERAÇÕES: Narrado em primeira pessoa, o texto tem toques divertidos, um humor inteligente que cativa. Na cena do julgamento, o patologista discorre sobre os ferimentos da vítima com detalhes técnicos precisos, voz fria, detalhes angustiantes para os leitores. Um dos destaques é o racismo que reinava no Mississipi na década de 70, e o autor deixa o fato bem explícito em vários capítulos. A linguagem coloquial é carregada de acuidade, com algumas palavras arcaicas, porém, condizentes com a época em que a história se passa. O começo do livro é enfadonho, cansativo. Depois, tudo se agita, ao ponto de instigar o leitor a absorver os capítulos com uma sede ansiosa. E novamente tudo volta ao ponto maçante. Descrições desnecessárias, que nada acrescentam à trama principal. Quando, já nos últimos capítulos, tudo parece trazer uma grande surpresa, aquele clímax que um leitor voraz adora, a decepção se faz presente. Tudo é muito óbvio, muito previsível. Os pontos altos ficam no meio do livro, e nenhuma surpresa nos é apresentada no desfecho, deixando muito a desejar. Para ser sincera, eu tinha esperanças de que o autor me provocasse a sensação de “plot twist”, fato que não aconteceu, infelizmente. Acho que coloquei uma expectativa alta... Há o esboço de um romance entre Willie e Ginger, irmã de Rhoda, a vítima estuprada e assassinada na frente dos filhos. Mas é tudo muito superficial, e nesse ponto concordo com John, um gênero de suspense não tem muito espaço para romance. Para finalizar, o autor deixou pontas soltas que poderia ter explorado melhor, crimes não solucionados e abordados superficialmente. O paradeiro final de Lydia Vince, testemunha álibi de Danny Padgitt, ganharia um toque interessante, bem como o desvendar do assassinato de Malcom Vince, ex-marido de Lydia, que refutou o testemunho da ex-mulher com veemência. E tudo ficou no ar, decepcionante e insuficiente para o mesmo autor de Tempo de Matar.
“Eu tinha procurado uma casa para comprar. Mas, para ser franco, sentia-me tão bem pagando cinquenta dólares por mês que tinha dificuldade para sair. Estava com 24 anos, solteiro e me divertia muito vendo o dinheiro se acumular no banco. Por que me arriscaria à ruína financeira ao comprar aquele sorvedouro de dinheiro”?
GRAMÁTICA: A tradução e a revisão foram muito bem feitas, meticulosas, exemplares. Se o enredo atendesse às expectativas, teríamos um conjunto delicioso para enriquecer a literatura. Grisham elaborou boas frases impactantes, chamativas, pecando apenas na parte criativa. Não tenho muito o que dizer sobre esse quesito, a equipe de edição fez o seu trabalho de maneira exímia e merece os aplausos. Ênclises e próclises em perfeitas colocações, fazendo-me vibrar com esse cuidado da revisão. Encontrei até as “famigeradas” mesóclises corretamente alocadas nas falas do promotor durante o julgamento, um êxtase aos amantes da língua portuguesa. Um único incômodo, porém, não um erro: numerais. Prefiro quando são escritos por extenso, faz mais sentido para mim, prefiro que a matemática fique com os números, e o português, com as letras. No entanto, como já disse, não é um erro, apenas um senso de estética que grita aos meus olhos.
NOTA FINAL: Para quem leu Tempo de Matar – ou assistiu ao filme –, não espere pelo mesmo nível de trama. Ainda estou tentando entender se o título tem a ver com Willie como testemunha final de uma vida ou se está entrelaçado com um dos assassinatos. Não é uma leitura que eu indicaria sem as ressalvas certas. É um suspense cansativo, decepcionante... e o pior: sem suspense! Tudo é previsível, escancarado, sem aquela epifania deliciosa. O ponto alto, além do assassinato principal, é a afronta ao racismo, e isso o autor explorou devidamente. De zero à cinco, minha nota é dois (pelo racismo denunciado nas páginas).


Nenhum comentário:
Postar um comentário