"O propósito da reencarnação é vivenciar o máximo de vidas diferentes. É assim que aprendemos as lições mais importantes sobre amor e compaixão, ao nos colocarmos literalmente no lugar do outro, que, no final, se torna o nosso lugar".
FICHA TÉCNICA
• Título: Estrela da Noite
• Autora: Alyson Noël
• Série: Os Imortais, volume 5
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2011
• Páginas: 234
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.8057.060.1
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Flávia Souto Maior
• Revisão: Shirley Lima e Rodrigo Rosa
SINOPSE: Certa de que Ever é responsável pela morte de Roman, Haven está determinada a destruí-la. Seu primeiro passo é separá-la de Damen, e, para isso, conta com a arma ideal: um segredo terrível sobre suas vidas passadas, que lançará uma nova luz sobre o relacionamento de Ever e Jude. Obrigada a enfrentar seus maiores medos com relação ao companheiro que escolheu para a eternidade, Ever é lançada em um combate mortal contra Haven, que poderá significar a destruição de todos. É chegado o momento de se questionar: para sobreviver, ela seria mesmo capaz de condenar Haven à escuridão de Shadowland? E será que todo seu futuro com Damen poderia mesmo depender de uma revelação do passado?
"Nós desenvolvemos nosso carma pelas escolhas que fizemos, pela rapidez ou pela lentidão com que aprendemos as lições que realmente importam no mundo, pela velocidade com que nos entregamos à verdadeira finalidade de estarmos aqui".
ASPECTO FÍSICO: Nunca pensei que diria isso, mas... a contra capa é mais bonita que a capa da frente. Aliás, quebrando os padrões da série, essa capa conseguiu ser tenebrosa, completamente sem sentido. Até tentei entender aquele frasco de perfume na mão da modelo, como se fosse o vidro contendo o antídoto do elixir, porém... não deu. O texto é específico sobre o antídoto, citando-o como um frasco pequeno – que cabe no bolso da camisa de Roman – e com o líquido verde. Na capa, temos – além do excesso do Photoshop, que deixou a modelo com cara de manequim de plástico –, nitidamente, um vidro de perfume e... ok, encerro os comentários, antes de registrar minha indignação com essa imagem. No entanto, a contra capa, também fugindo um pouco dos padrões, continua com o arabesco emoldurando a sinopse. O que muda é o vermelho, chamativo e atrativo, sobre o fundo preto. Logo abaixo da sinopse, as capas das edições anteriores. Ficou elegante e, mesmo com o rubro berrante, diferenciou – e salvou – o projeto. A diagramação segue todo estereótipo dos volumes anteriores, portanto, não há muito o que comentar.
“Não consigo deixar de imaginar como é ser ela. Como é viver em um mundo onde tudo é tão ordenado, obediente, metódico, organizado. Onde todos os problemas têm uma solução lógica; toda pergunta, uma explicação acadêmica, e todo dilema pode ser resumido em um simples veredito de inocente ou culpado. Um mundo em que tudo é preto e branco, e todos os tons de cinza são rapidamente eliminados".
ENREDO: Roman se foi, recebeu o triste – e, de certa forma, imerecido – fim dos imortais. Um equívoco de Jude mandou a alma do atentado Roman a Shadowland. E Haven não se conforma, culpando Ever e jurando vingança. Temendo a força da amiga – que, agora, é uma imortal poderosa, pois se alimentava do elixir elaborado por Roman, aparentemente mais forte que o feito por Damen –, Ever passa a treinar – isso mesmo, treinar – os golpes que pode usar para acertá-la no chacra principal, caso a encrenca chegue às vias de fato. As aulas recomeçam, e encarar Haven é algo do qual Ever não estava preparada. Então, ela simplesmente se afasta da escola. Pior ainda, em Summerland, ela vê uma cena – deturpada – sobre seu passado com Damen, colocando-o como inimigo impiedoso. Perdida, Ever também se afasta do seu namorado, buscando o apoio de Jude. Unindo o útil ao agradável, Ever aproveita o ensejo para estar sempre ao lado dele, com o intuito de protegê-lo, sendo que Haven fez uma ameaça explícita contra Jude. Em meio a tudo isso, Miles retorna, cobrando de Damen uma explicação sobre os quadros antigos que viu em Florença. Determinado a não ocultar mais nada nessa amizade, Damen é totalmente sincero, revelando seu maior segredo. Confuso e magoado, Miles vai até Ever, pedindo para que seja honesta sobre tudo e todos. E nossa protagonista recebe a maior lição de moral que precisava para atinar os sentidos. O problema é que nem as palavras de Miles conseguem colocá-la nos eixos. Então, Ever busca suas respostas em Summerland, nos Grandes Salões do Conhecimento. O problema é que ela faz as perguntas erradas. Consequentemente, as resposta que recebe em nada lhe ajudam. Ever acaba se afastando ainda mais das pessoas que a amam e que se preocupam com ela. Em contrapartida, sua aproximação com Jude desperta sensações que a colocam em dúvida sobre o amor de Damen. E quando ela finalmente encontra o rumo certo, Haven ataca. A vida de Ever fica em perigo, e Damen é o único que pode ajudá-la.
“Como um turbilhão glacial repentino, como uma escultura de gelo delineada em curvas bem definidas. Ela é atraente, exótica e estupenda, como um frio invernal inesperado em um dia quente de verão".
ESCRITA: A escrita da autora amadureceu muito neste volume, e para melhor. Os jogos de palavras com que as frases são construídas simplesmente nos deleitam. Um êxtase que apenas os amantes da literatura conseguem compreender. Porém, sempre que cita os Grandes Salões do Conhecimento, a descrição enfadonha é a mesma... Em todos os livros, desde que foi citado pela primeira vez. Com acesso aos Grandes Salões do Conhecimento, Ever faz as perguntas erradas e se vitimiza. A autora não encontrou um ponto de equilíbrio ou um extremo para conduzi-la. Ou a personagem é bondosa demais, ao ponto de perdoar seu pior inimigo e de amar sua melhor amiga arrogante e desprezível, ou ela culpa o universo por todos os seus erros e se recusa a assumir que a sabedoria não faz parte da sua existência simplesmente porque ela não quer. Ever é a garotinha fútil e rica, uma personagem que tinha tanto potencial... Damen esconde segredos, algo que, pelo jeito, Haven e Jude já descobriram. É nesse ponto que o extremo da personagem vem novamente à tona. Sem um pingo de sabedoria e de audácia, Ever simplesmente dramatiza tudo. Tais segredos poderiam ser descobertos sutilmente, pouco a pouco, afinal, ela tinha a eternidade pela frente. Mas a jovem opta pelo drama. Não que eu não goste de um drama, é empolgante em certos pontos de um enredo. Porém, tal como na comédia, o drama pede o time perfeito, e a autora não soube usar isso a seu favor. Ever ficou parecendo a eterna menininha indefesa que só faz besteiras, oculta segredos, é emocionalmente fraca e fica putassa quando alguém lhe esconde os próprios mistérios. Ever queria um conto de fadas e ganhou a vida real. Culpou a tudo e a todos por isso. Miles é um dos melhores personagens – ganhando minha atenção ao lado de Jude. – Divertido, maduro, focado. Ele enxerga a vida por uma perspectiva única, uma mente tão bem construída que entra em discrepância nítida com a protagonista. Ever deposita toda sua confiança no amuleto de cristais que Damen lhe deu, confiança que se torna inútil e infantil quando ela precisa encarar Haven. Sem o amuleto, que lhe é arrancado, Ever – uma imortal que se diz poderosa – se torna uma imbecil vulnerável. O problema entre Damen e Ever – e não falo dos desafios do relacionamento adolescente em si, mas da maldição que os afasta de qualquer toque – se estende por mais um livro, tornando-se cansativo. A autora poderia simplesmente ter resolvido essa pendência na trama anterior e construído outro enigma para os personagens encararem, já que a própria Haven se tornou uma inimiga com potencial tão grande quanto o de Roman. Gosto da personalidade inicial de Damen justamente por ele parecer um badboy bruto e carinhoso. Porém, colocá-lo como santidade plena e suprema, acima de qualquer pecado, foi demais. Pior ainda – evitando spoiler –, a autora fez a protagonista chata, dramática e vitimista ganhar sua redenção e ser salva do destino inexorável simplesmente por... ser chata, dramática e vitimista. Nem o próprio Roman merecia aquele destino, ao contrário da Santa e abençoada Ever. Quando Haven ataca Ever, não consegue matá-la porque Damen chega a tempo. Depois disso, a protagonista narra que não tem mais pontos fracos, que todos os seus chakras funcionam corretamente, inclusive seu quinto chakra, que seria o do mal uso do conhecimento e de confiar nas pessoas erradas. Capítulos à frente, Ever prova exatamente o contrário, ainda tramando em fazer besteiras. Mesmo que a empreitada tenha sucesso, ela continua com o mau uso do conhecimento. Essa controvérsia foi decepcionante. Prefiro dizer que foi um erro de continuidade. Porém, como autora, ciente de que tal erro é possível, estou sempre revisando meus textos para não cometer tamanho lapso. Isso me leva a crer que Alyson Noël não se deu ao trabalho de tentar rever as falhas, talvez por confiar plenamente em sua escrita – mostrando que assume, em certos momentos, a personalidade da sua protagonista – ou por delegar a tarefa aos editores. Triste saber que nenhuma equipe de edição, tanto estadunidense quanto brasileira, sanou o problema. E isso me conduz a outro estranho ponto... não é possível que nenhum dos profissionais de edição não tenha notado os erros de continuidade e alertado a autora – que, com uma simples frase acrescentada ao texto, poderia resolver isso rapidamente. – Caso ela tenha sido alertada e simplesmente ignorado o fato, bem... o estrelismo de "autora best seller do New York Times" lhe subiu à cabeça, coisa que não me surpreenderia. O título do livro, Estrela da Noite, apesar de bonito e sonoro, não se adequa ao enredo. Há apenas duas sutis menções a uma suposta estrela, que nenhuma importância tem à trama. Não faço ideia do motivo que levou a autora a escolher esse nome. É tão empolgante quando, no desenrolar da leitura, uma epifania nos assola, fazendo-nos exclamar: "Claro, isso faz sentido!"... Isso não acontece em momento algum em relação ao título. Na verdade, a impressão que temos é de que a autora, para justificar Estrela da Noite, simplesmente jogou duas cenas aleatórias para enfatizar o nome do volume. Pela minha perspectiva, tentativa altamente falha. Sabine está insuportável com o seu ceticismo. Todos os livros de autoajuda que leu, sobre como lidar com adolescentes, parece que só ajudaram a enriquecer o bolso de quem os escreveu – tal como realmente acontece com esse tipo de publicação... A arte imitando a vida. – Em vez de ajudar, ela só atrapalha e afasta a sobrinha. Nem com toda mediação de Munhoz, seu namorado – e professor de Ever –, Sabine baixa a guarda, tornando-se tal como a sobrinha: a poderosa dona da verdade absoluta.
“Para que eu aprenda e cresça e me aperfeiçoe, preciso viver. Preciso ter uma vida plena, em todos os seus estágios... juventude, meia idade, velhice... quero tudo. Não dá para interpretar a vida se não se permite vivê-la”.
NOTA FINAL: Ficou claro que a autora tem muita imaginação para o drama, porém, não tem um pingo de criatividade para tramas. Novamente, o problema Damen e Ever, que se arrasta desde o segundo livro, fica sem solução. Estavam perto de conseguir, e voltaram à estaca zero. Qual o problema? Por que não resolver logo isso e criar outros perigos para o casal imortal enfrentar? Enrolar por toda a série foi um tiro no pé. Sei que Os Imortais deve ter sua legião de fãs – que vão me odiar ao ler esta resenha, já que fã nunca usa a razão, sabe que algo está errado, mas sempre defenderá com todas as forças e sem um argumento plausível, atacando apenas com xingamentos. – O fato é que tudo não saiu da mesmice de sempre. A situação ficou enfadonha. A série – que tinha tanto potencial, podendo até chegar no ponto distópico, mostrando um futuro distante do casal – se tornou um emaranhado de dramas pessoais, perturbações adolescentes, imaturidade e casualidade. Não tem mais aquela emoção de ler para saber qual será a próxima aventura, porque será sempre a mesma: Ever tentando conseguir o antídoto, Damen lhe pedindo paciência e cautela, ela sem escutar ninguém e agindo de maneira imprudente, o antídoto tão perto das suas mãos e tudo indo por água abaixo... A única mudança é o vilão em questão. Todos vão morrendo, e nada da solução. Só vou ler o último volume para finalmente encerrar esse capítulo da minha vida literária. Porque Estrela da Noite foi a gota d'água! É preciso amar demais os personagens ou ter muito paciência com uma série desse tipo. Recomendo apenas para quem não consegue descansar em paz sem terminar de ler uma série.


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