sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Crônica: A Realidade das Redes Sociais

 


A tecnologia vem nos abençoando de inúmeras formas, facilitando nossas vidas, gerando praticidade e rapidez. As longas cartas que costumávamos enviar demoravam dias para chegar ao destinatário – principalmente com o sempre parco serviço dos Correios, que nunca hesitou em demonstrar total descaso com os clientes. Sim, clientes, porque tais serviços têm um preço, e não é barato. – Hoje em dia – abençoada seja a tecnologia –, temos o correio eletrônico, o famoso e prático e-mail, com envio instantâneo. Minha geração desfrutou desse benefício como se fosse o auge da tecnologia. E aguardávamos pacientemente a resposta do interlocutor, que poderia vir na mesma hora ou cerca de dois dias depois. O prazo era curto, se comparado aos Correios físicos. O fato é que tínhamos a santa paciência. Até que a tecnologia mudou, a informática avançou, as crianças cresceram e a paciência se estagnou, praticamente deixando de existir... criando uma geração imediatista que exige tudo para ontem... da parte alheia, porque, para eles, é quando der na telha.

Meu trabalho exige que meus conhecimentos se mantenham atualizados no ramo da informática – até onde sou capaz ou no que se faz necessário para exercer minhas atividades. – Portanto, tenho meus perfis nas principais redes sociais. Sendo assim, acompanho a arrogância virtual no Facebook, a vida ilusória no Instagram e a hipocrisia no Twitter. Convenhamos, todo mundo é perfeito, em todos os sentidos, nas telas coloridas – ou, como prefiro, no modo noturno – das redes sociais. 

O Facebook é o antro de indiretas de pessoas de meia idade, frustradas com a vida, prestando mais atenção na existência do vizinho que na sua própria. Como se não bastasse desperdiçar seu precioso tempo em divagar como a vizinhança se porta diante da sociedade – invejando o carro novo que Fulano comprou ou a hora que Beltrana sai e volta para casa, criando mil ficções na mente –, os quarentões e cinquentões correm para o Facebook e, cheios de marras, colocando-se como poderosos violentos capazes de derrotar Thanos com apenas um golpe, postam suas frustrações em forma de indiretas. Nós sabemos que a realidade é bem diferente. O autor da postagem não levanta a bunda gorda do sofá nem para levar o prato para cozinha, e fica ali, com a cara na janela e o celular na mão, aumentando a gordura localizada na pança e digitando horrores indiretamente contra o pobre vizinho que cumprimenta todos os dias com um simpático sorriso no rosto. Mas no Facebook todos são os valentões repletos de razões. Os justiceiros da moral e dos bons costumes... os vingadores pançudos. 

A geração dos trinta adora viver de sonhos no Instagram. Afinal, uma imagem vale mais que mil palavras, certo? Bem, eu prefiro momentos. E quando os momentos são bons o suficiente, levando em conta a raridade dos bons momentos atualmente, quero mais é curti-los, e não desperdiçar meus preciosos minutos em busca da foto perfeita para postar em uma rede social. Não que eu não poste nada, eu posto – aliás, já faz alguns meses que meu Instagram não é atualizado. – Apenas não faço disso algo mais importante que viver o meu momento. E quantas daquelas belíssimas imagens que vemos são reais? Conheci pessoas que chegam no absurdo de gastar o dinheiro da conta de luz para alugar – por míseros trinta minutos – um cenário propício para tirar lindas fotos – fakes – de viagens estonteantes – que nunca existiram – e postar no Instagram. No mês seguinte, a luz foi cortada. Mas as curtidas e a ilusória imagem que passou aos seguidores é o que importa, não é verdade? Outra pessoa preferiu deixar de almoçar para comprar on line uma sacola de papel de uma das lojas de grifes do shopping. Assim que a encomenda chegou, a pessoa encheu a sacola com qualquer coisa para fazer peso, correu para o shopping e, fingindo que acabara de sair da loja depois de uma riquíssima aquisição, pediu para alguém lhe fotografar. Minutos depois, lá estava a foto no Instagram, com a legenda: "um mimo a mim mesma, porque eu mereço". Fiquei com pena, ela deveria estar morrendo de fome. Eu sei o que é deixar de almoçar por um bem maior... no meu caso, foi porque a situação financeira estava crítica e preferi alimentar meus filhos. Enfim, como diria minha avó, cada um sabe de si...

E chegamos no Twitter, rede muito usada pelos mais jovens, a nova geração supostamente desconstruída, que insiste em dizer que é justa e taxativa. Bem, isso é o que dizem, porque a realidade é bem diferente... A justiça acaba quando a injustiça começa. E a injustiça começa quando os pais trabalham, a mãe se mata com o infindo serviço do lar, enquanto o jovem fica no Twitter, bradando por justiça, sem nem ao menos se dar ao trabalho de lavar as próprias roupas íntimas. E cultura do cancelamento rola solto por lá, pois são todos santos e donos da verdade absoluta, imunes de erros, porque só acertam. Coloque uma vírgula fora do lugar no Twitter e pronto, você experencia o verdadeiro inferno virtual, com direito à ameaça de morte para toda família. Aliás, é errado usar vírgula no Twitter, assim como é terminantemente proibido escrever corretamente. Caso aconteça, a tropa vem com força, e ser chamado apenas de "boomer" se torna até um elogio agradável. A lei do Twitter é tretar com todos os erros de português e abreviações indecifráveis possíveis. É a rede da hipocrisia, onde a ordem é xingar muito, enxovalhar a todos e, fora das telas, fazer exatamente o que fizeram aqueles que foram atacados.

Por fim, temos a rede de agrado geral, disponível a todas as idades, um surto que tornou as pessoas imediatistas, como se cada segundo sem resposta fosse o fim de uma existência: o Whatsapp. Esse famigerado aplicativo de mensagens instantâneas fez com que as pessoas exigissem respostas ainda mais instantâneas. O desespero e a grosseria rolam soltos quando não respondemos dentro de trinta segundos. É quando vem a raiva e os xingamentos. Eu costumava deixar o Web Whatsapp conectado enquanto trabalhava no notebook. Porém, como tenho muita disciplina, seguia minha agenda, reservando um horário específico para responder as mensagens. Quando abria cada janela, lia o que tinha sido enviado primeiro e, em seguida, as diversas afrontas de "você está on line e não responde; por que não me responde; fala comigo, incompetente de merda; não me deixa esperando; por que você me odeia tanto"... E o drama shakespeariano prosseguia em uma longa lista de cobranças. Detalhe: a mensagem principal era um "bom dia" ou "você assistiu aquele filme?" Nada que não pudesse esperar, nada urgente, nada que colocasse uma vida em risco. E se eu visualizasse e não respondesse, as ligações começavam. Passei a odiar o Whatsapp com todas as minhas forças! Não o uso mais nem a trabalho. Quem quiser falar comigo, que me mande um e-mail. Simples assim.

Moral da história: tenham suas redes sociais, mas mantenham os pés no chão. Não gritem que odeiam mentiras, sendo que postar uma vida ilusória é uma mentira. Deixem a hipocrisia de lado e sejam exatamente o que são. O que importa a opinião alheia? Faça bonito ou faça feio, faça o bem ou erre às vezes, as pessoas sempre vão criticar. Então, vá curtir a vida. Viva! E poste sim, porém, poste a sua verdade, sem se esforçar tanto para se esconder atrás de falsas aparências. Fez um bolo e ficou bonito? Fez com carinho e todos gostaram? Sim, registre o momento, coloque essa alegria nas redes sociais, contudo, esqueça os likes... tenha uma nova perspectiva. Cada postagem é um arquivo, um registro captado daquela felicidade. Reveja, reviva, sempre que a nostalgia se fizer presente... você sentirá a leveza desse novo mundo. É assim que vivo agora no meu mundo B-Fly, livre, leve, solta... selvagem, como alguns chamam... porém, feliz com meu amado Toni ♡

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