quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Poética: Dívida Sem Crédito

 


O título desse poema parece estranho. Na verdade, Dívida sem Crédito é o que eu costumo chamar de karma. A pessoa faz, o destino se encarrega de ricochetear a bofetada. É quando surgem as lamúrias de “a vida é injusta, nada fiz para merecer isso”, como se a pessoa cobrasse do universo um crédito de bondade infinda que depositou ao longo da jornada, esquecendo-se das pequenas – imensas – maldades que cometeu durante o percurso. Temos o que merecemos. Depois de muitas pancadas da vida, aprendi a aceitar a situação. Veja bem, não sou uma acomodada inútil culpando o karma. Não mesmo! Longe disso! Acomodados não se movimentam, apenas choram e lamentam. Aceitar é entender que errou, cumprir sua pena, consertar o âmago para que esses erros não sejam novamente cometidos. Ou seja, gerar crédito para dívidas futuras, equilibrar a balança. Dívida sem Crédito é um dos poemas da série Filhos do Pecado, abrindo o capítulo 6 do terceiro volume, intitulado Nova Ordem.

— Dívida Sem Crédito —

Eu pago,
Tomo pelo meu preço.
Ele recebe,
Pela minha vingança, um adereço.
Está feito,
Negócio fechado. Paguei seu preço,
Cumprimos um tratado.
Ele volta,
Novos argumentos, novas cobranças.
Uma dívida sem crédito,
Ameaçada pela vingança.
Um sorriso de vitória.
A carta na manga.
O sagrado vendeu-se,
Esqueceu-se, fez cobrança.
De quem é o erro, pergunto.
O preço foi pago,
Julgamento nulo.
Ele solta ameaças,
Eu largo meu trunfo.
Dois jogadores distintos,
Ele joga pelo céu,
Eu dou o recado do submundo.
Quem vencerá?
A nubente do inferno
Ou o santo sem mérito?
A vitória é minha,
Sua dívida é sem crédito.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Autores Nacionais: Mirella Ferraz

  Ganhei o primeiro livro de Mirella Ferraz de presente há muitos anos, logo após sua publicação. Porém, acreditando erroneamente que se tra...