“Os dois eram como o joio e o trigo, a cruz e a espada, a água e o fogo. E se amavam! Se entendiam e se adoravam”.
FICHA TÉCNICA
• Título: Sereias
• Subtítulo: O Segredo das Águas
• Autora: Mirella Ferraz
• Editora: Novo Século/Novos Talentos
• Edição: 2011
• Páginas: 208
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.7679.784.5
• Gênero: romance urbano/sobrenatural
• Revisão: Equipe Novo Século
SINOPSE: Neste romance encantador, urdido a sal e água, é narrada a emocionante história de Coral, uma garota de aparência exótica, que nasceu envolta de mistérios sobrenaturais e um estranho fascínio pela água. Poderá ela, com a ajuda do apaixonado Marcelo, desvendar todos os enigmas que cercam sua vida? Conseguirá sua mãe, Marina, afastá-la de um destino que, para ela, parece apavorante, mas que constantemente se revela inexorável? Qual preço você estaria disposto a pagar para ajudar seu grande amor? Com uma narrativa dinâmica e empolgante, o leitor viajará pelo mundo de uma das mais fascinantes figuras lendárias, e presentes, de todos os tempos: a sereia. E verá que, muitas vezes, as lendas são mais reais – e estão bem mais próximas de nós – do que imaginamos.
“Sempre que encontramos a felicidade extrema a vida dá um jeito de nos passar uma rasteira. E essa rasteira chegou sem dar qualquer aviso”.
ASPECTO FÍSICO: A Capa é o que mais chama a atenção logo de cara, um capricho que raramente vemos em edições nacionais. Não estou dizendo que os artistas gráficos brasileiros são ruins, muito pelo contrário, a versão brasileiras de muitas obras "importadas" ganham um glamour especial com a arte dos nossos designers. O problema são as editoras, que raramente se dedicam com o aspecto físico da turminha BR. Por sorte, Mirella Ferraz ganhou esse presentão, pois, convenhamos, essa capa parece de um best seller do New York Times (e o conteúdo não deixa nada a desejar para esse título). Por dentro, encontramos, além de um enredo maravilhoso, uma diagramação simples, limpa, com fonte em tamanho adequado e espaçamento na medida certa, tudo sobre o muito adorado e idolatrado papel pólen bold, que não prejudica a leitura.
“Senhor inconstante de fúrias e calmarias, que guarda a riqueza da vida e toda história do mundo, contemplo-o à distância, servindo-me de quimeras para que a esperança não se ausente... E para que, um dia, através de tal devoção, eu consiga ter o destino da Lua, encontrando-se contigo em todo final de entardecer”.
ENREDO: A história começa em Itapuã, bairro de Salvador, onde o casal Tom e Marina decidem passar a segunda Lua de mel. Queriam reacender a esperança da luz que lhes faltava, um filho. Em um passeio noturno pelas ruas do bairro, um evento estranho acontece. Depois de passarem um tempo indeterminado e, aparentemente, grande diante da estátua de uma sereia, eles vão até à praia, atraídos pela figura de uma negra senhora, vestida de branco, cuja roupa reluzia como pontos iluminados por pequenas estrelas. Seus olhos azuis e o turbante branco na cabeça completavam a aparência exótica. Ela entrega uma rosa à Marina e diz que tem direito a um pedido. Marina, em silêncio, pede para que seu ventre floresça. Depois, seguindo a orientação daquela senhora, vai até o mar e atira a rosa, notando que um dos espinhos furou seu dedo, escorrendo um filete de sangue pela rosa. As águas do mar se aquecem e se iluminam em volta dos tornozelos de Marina. A senhora lhe fala coisas que, ao mesmo tempo em que aviva a esperança do casal, também parece revelar uma sombria profecia. Irritada com aquilo, Marina pega na mão do marido e vai embora. Ambos voltam à pousada onde se hospedaram. Ali, eles se amam, e esse ato de amor atinge o clímax no mesmo instante em que o sol desponta no horizonte. Um mês depois, o casal se alegra com a notícia, Marina estava grávida. A partir do quinto mês de gestação, novas profecias atormentam Marina. Dessa vez, por sonhos. Temendo pelo destino da criança que carregava no ventre, desejando protegê-la com todas as suas forças, amando-a mais que tudo, Marina se torna arredia a quem se aproxima para tocar em sua barriga. Uma situação inesperada provoca alarde em Marina, que se vê em dores de parto enquanto apreciava seu momento especial na banheira. A ocasião a impediu de sair dali, e as dores abafavam seus pedidos de ajuda. Ainda assim, o socorro veio. De forma sobrenatural... A mulher que surgia em seus sonhos apareceu ali, auxiliando-a no parto. Então, aos sete meses de gestação, Marina deu à luz uma linda garotinha, que ganhou o nome de Coral. Desde a mais tenra idade, Coral se mostrou uma criatura determinada e efusiva. Precoce em tudo, suas habilidades se voltaram para as artes e os esportes. Exímia dançarina, atleta obstinada, apaixonada por livros, Coral era fascinante. E seu amor pelos animais determinou um estilo de vida insólito a uma criança. Por conta própria, Coral decidiu ser vegetariana. Todos os animais eram seus amigos, e ela não mataria, tampouco comeria seus amigos. A menina, paulistana, via o mar apenas pela TV, e tais imagens a maravilhavam. Pediu aos pais para conhecer o mar. Porém, a mãe, temerosa e determinada a proteger sua filha, protestou veementemente ao pedido da menina e à insistência do marido. Para alívio de Marina, Tom recebeu uma proposta de trabalho no interior do estado - bem afastado do mar. – E a família se mudou para uma pequena cidade chamada Pirassununga. Estranhamente, foi lá que Coral aprendeu a nadar... e que conheceu Marcelo, aquele que determinaria seu destino.
“Só de pensar na possibilidade de poder tocá-la novamente, beijá-la novamente, sentir o perfume de seu cabelo serpenteando em meus dedos, chegar perto de sua pele, ouvir seu coração junto ao meu num abraço, era como provar o néctar dos deuses, roubar o mel e a ambrosia sagrados, relegados somente aos divinos e invejado moradores do Monte Olimpo”.
ESCRITA: Antes de começar a leitura, acreditei que estava diante de mais um romance adolescente, ou de algo mais cômico, como o antigo filme "Splash, Uma Sereia em Minha Vida" – estrelado por Tom Hanks e Daryl Hannah. – Porém, para minha surpresa, deparei-me com uma trama madura, com um estilo de escrita diferente, único. Surpreendendo-me ainda mais, a história é narrada pela perspectiva masculina de um personagem muito interessante. Marcelo, apesar de ser um adolescente durante todo o período em que a história é relatada, se mostra racional, comedido e, de certa forma, maduro. Coral é arrogante, estúpida, e encerro aqui meus comentários sobre ela. Eu tenho uma personagem estúpida, que foi criada exatamente com esse intuito, uma protagonista cujo objetivo era levantar a fúria do leitor. Caso tenha sido essa a mesma estratégia de Mirella, a autora conseguiu o feito com maestria. Linguagem coloquial, porém, elegante, muito bem escrita, com palavras adequadas que, mesmo singelas, formam frases efusivas e belas. Capítulos rápidos, tolhidos, gostosos de serem lidos. Descrições sucintas, mas na medida certa para conduzir nossa imaginação ao vislumbre do cenário. Capítulos narrativos, com um diálogo ou outro, como em uma crônica. Ainda assim, pelo talento da autora, a leitura é fluída, leve, nada cansativa, conseguindo nos arrebatar para dentro do enredo. Temos a sensação de que o narrador nos leva a uma viagem astral, enquanto nos conta sua história. Podemos dizer que o livro tem três fases. Os dez primeiros capítulos ocorrem dessa forma, narrativa e rápida. Afinal, Marcelo não estava presente, apenas nos conta os fatos como lhe foram repassados. A segunda fase é a amizade e o amor surgindo entre Marcelo e Coral, tendo a melhor amiga da garota como tormento do casal. A fase final é quando o amor é negado a ambos, e Marcelo, corajosamente, elabora um plano para salvar sua amada. Marina é uma criatura insuportável, cruel, uma criminosa que coloca a própria filha em cárcere privado. Além do egoísmo horrendo, essa personagem mostra toda sua maldade com frieza. Não, não foi por amor. Eu sou mãe, jamais faria com meus filhos o que Marina fez com Coral. Essa mulher merecia cadeia ou sanatório, porque é uma louca criminosa. Meu ódio por ela é tão grande que só me faz elogiar a autora. Veja bem... quando somos arrebatados plenamente ao enredo, vivenciamos tudo com (e pelos) personagens. Amar ou odiar alguém do elenco do livro é uma sensação transcendental. A autora cumpriu seu papel, sem se preocupar em montar um elenco politicamente certinho, onde tudo é bom e belo. Ela ousou, explorou o que pode haver de pior em uma mãe, e se tornou digna da nossa admiração ao não temer seu próprio enredo. O plano de fuga colocado em prática, desde o telefonema de Marcelo para Dara, foi o ponto alto do livro, o clímax que nós, leitores, amamos. Sofremos junto com os personagens, ficamos ansiosos, torcendo, o coração palpitando. A autora conseguiu nos tocar, algo tão difícil de alcançar nesse estilo de escrita. Isso se chama talento! Mirella Ferraz é merecedora de aplausos.
“Eu havia perdido. Não havia como lutar contra um oponente tão poderoso. Olhei para a lua e amaldiçoei minha vida patética, aos prantos”.
GRAMÁTICA: Não encontrei erros de pontuação e/ou gramática, acho que estava absorta demais no enredo, algo insólito – que evidencia o talento da autora. – Porém, há um erro de continuidade no capítulo 38. Para ser mais específica, no capítulo 31, na página 166, o narrador relata seus planos de fuga, contando que os personagens Marina e Tom viajaram dia 5 de fevereiro. Mais à frente, no início do capítulo 38 – páginas 205 e 206 –, enquanto intercalava os acontecimentos da fuga e a viagem de Tom e Marina, a data mudou para janeiro – o que não fazia sentido, pois o narrador enfatizou que precisava ser em fevereiro a tal fuga, quando completasse dezoito anos e, assim, ninguém pudesse impedi-lo de embarcar no avião. – No capítulo 39, página 211, a data volta a ser citada em fevereiro. Uma boa revisão, com olhos atentos, resolveria a questão. Como sempre, a Novo Século escancarando seu descaso com a literatura nacional e pensando apenas no dinheiro... sim, porque o selo principal da editora é comercial, porém, o selo Novos Talentos é prestação de serviços. Talento não se compra... infelizmente, no nosso país, talento é tratado dessa forma... quem tem mais $$$ paga mais e se transforma em grande talento. Mirella Ferraz merecia atenção e mega produção, não apenas porque pagou pela publicação, mas, também, por ter algo que muitos não têm: talento e um estilo único de escrita.
NOTA FINAL: Mirella Ferraz me surpreendeu da melhor maneira possível! Sua escrita é tão diferente que encanta, uma marca registrada, algo só dela, porque nunca vi estilo parecido, ímpar, sem comparações. Além de linda, mostrou suas melhores qualidades: inteligente ao ponto de elaborar uma trama muito bem escrita, talentosa, criativa, humilde. Sem palavras... apenas comprem o livro, apreciem, viagem a esse mundo, amem e odeiem... voltem a amar, porque Mirella nos conduz nesse carrossel de emoções durante toda a trama. Indico. Super indico! Vale a pena.
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