terça-feira, 12 de setembro de 2023

Resenha: Crepúsculo

 


“A voz dele, flutuando até mim através da névoa, era profunda e nem um pouco insegura... diferente da minha, com uma tendência irritante para tremer quando ele estava por perto”.

FICHA TÉCNICA
• Título: Crepúsculo
• Autora: Meg Cabot
• Série: A Mediadora, Volume 6
• Editora: Galera Record
• Edição: 2010
• Páginas: 272
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.01.078148.8
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Ivanir Alves Calado

SINOPSE:
 Suzannah já está acostumada com fantasmas. Ela é uma mediadora, e pode não somente ver os mortos, como, também, interagir com eles. Eles a acordam no meio da noite, revirando seu armário, e aprontam coisas ainda mais sinistras. Além dos desafios comuns a qualquer menina de dezesseis anos, sua função é entender as mágoas dos que morreram e ajudá-los a resolver os problemas com os vivos. Porém, quando ela e Paul – um mediador de força inegável e intenções dúbias – descobrem que seus poderes vão muito além de ajudar fantasmas a resolver seus problemas terrenos, Suze pira de vez. É muito aterrorizante ter o destino de alguém nas mãos e saber que pode alterar o curso da história, principalmente porque Paul também sabe como fazer isso. E ele adoraria evitar o assassinato de Jesse, impedindo-o de virar fantasma e lhe garantindo uma vida tranquila, finalmente... mas no século XIX. Ou seja, Jesse e Suzannah jamais teriam se conhecido. Suze, então, está diante da decisão mais importante da sua vida: deixar o único cara que já amou voltar para o seu próprio tempo... ou mantê-lo enclausurado eternamente na semivida ao seu lado. O que Jesse escolheria: viver sem Suzannah ou morrer por amor?

“Quando ele me puxou, não questionei exatamente. Em especial, considerando que só há um lugar no mundo em que me sinto completamente segura, e era exatamente onde eu estava... nos braços dele".

ASPECTO FÍSICO: Um rosto de perfil, com cabelos ao vento e um fitar de esguelha, desconfiado, temeroso. Essa é a imagem que estampa a capa do último volume da série. Dessa vez, o título, metalizado, vem ajudando a colorir a íris verde e esperançosa de Suze – já que imaginamos ser ela a garota da capa. – Todo o resto segue o estilo, algo típico de séries. Ou seja, nome do livro e da autora em fontes simples, menores e com o sutil branco; contra capa com o quote mais chamativo, atraente. As páginas internas, em papel off-white, têm diagramação singela, e os mesmos erros das edições anteriores se repetem. Praticamente, o último chumaço da brochura se descolou por completo da capa. Porém, estamos falando de uma edição com mais de dez anos de existência. E apesar de todo cuidado que tenho com os livros expostos na minha estante, esse acidente aconteceu, e foi como um tiro no meu coração, porque a série inteira é uma das minhas preferidas. O interessante é que isso só aconteceu com o último livro. Os outros estão intactos.

“Fechei os olhos, derretendo-me no seu abraço como sempre, adorando a sensação de seus braços fortes ao meu redor, o peito duro sob minha bochecha. Queria ser capaz de ficar ali para sempre, onde nada jamais poderia me fazer mal. Porque ele nunca deixaria".

ENREDO: Paul se tornou um mediador cruel e inescrupuloso, chegando ao ponto de enganar as almas, aproximando-se dos espíritos perdidos com simpatia, prometendo exercer a mediação. Dessa forma, ganhando a confiança do desencarnado, conseguia as informações que precisava. Depois, exorcizava essas almas e seguia até onde haviam lhe contado onde estavam dinheiro e objetos de valor, roubando-os e deixando as famílias dos defuntos ao léu, sem nada. Suze tenta impedi-lo, porém, Paul ameaça mandar a alma de Jesse para o além. Apavorada, ainda mais agora, que ela e Jesse estão, definitiva e oficialmente, namorando, Suze se rende às chantagens de Paul, ficando de bico calado e concordando em aprender mais sobre o seu estilo de mediação. Por intermédio de Paul e, depois, com uma explicação mais detalhada do Dr. Slaski, Suze descobre que os mediadores/deslocadores podem chegar à quarta dimensão, ou seja, o tempo. Uma viagem no tempo, arriscada ao extremo, pois o processo de volta consistia em exterminar algumas células cerebrais, afinal, o deslocador não chegava a tal dimensão da mesma forma que transitava pela Terra das Sombras. Não... esse tipo se viagem exigia muito mais que apenas o espírito, o deslocador viajava no tempo de corpo e alma. Por um momento, Suze cogitou a ideia. O desejo de mudar os fatos, de voltar no tempo e salvar a vida do seu pai, era algo realmente instigante. Depois, a menina ponderou... ligando um fato ao outro, caso colocasse essa insana ideia em prática, Suze nunca conheceria Jesse. E foi pensando nisso que ela entendeu os planos malignos de Paul. Ele não queria matar Jesse – até porque o latino bonitão já estava morto –, tampouco exorcizá-lo. Paul queria fazer justamente o contrário, salvar Jesse. Da mesma forma que, se não tivesse ponderado sobre o desejo inicial, a ideia de Suze tiraria Jesse do seu conhecimento e, consequentemente, da sua existência, assim aconteceria quando Paul colocasse seu plano em prática. Livrando Jesse da morte e de tudo que prendia seu espírito no mundo dos vivos, Paul tiraria de Suze – e do próprio Jesse – a chance de experenciar tudo que tiveram a chance de fazer. Ainda que esse amor não tivesse futuro, saber que corria o risco de não existir era muito pior. Suze precisava agir. Mas, para isso, tinha que saber do que era praticamente impossível: o dia e o horário em que Paul agiria. Todo o resto seria mais fácil, porque Suze era tão habilidosa e poderosa quanto Paul em mediar e se deslocar. Ela só precisava acreditar em si mesma e se dar conta disso.

"A Via Láctea era como uma tira branca no céu, tão luminosa que quase envergonhava a lua, finalmente saindo de trás de algumas nuvens".

ESCRITA: O livro começa com uma espécie de prólogo, que, na verdade, é um triste flashback sobre a morte do senhor Simon, pai de Suze. Essa é a brecha que a autora, sabiamente, usou para os planos de Suze. Com esse trunfo em mãos, Meg Cabot aproveitou para explorar a discrepância psicológica e emocional da protagonista, atingindo os leitores e, consequentemente, o objetivo do enredo. Paul é o problema de sempre. Sua perversidade é irritante, porém, sua beleza e inteligência são como mel atraindo ursos. Um personagem misterioso, charmoso, suntuosamente maléfico e deliciosamente bem humorado. Paul é um dos melhores e mais bem construído personagens que já tive o prazer de desfrutar em um enredo, afinal, muitos bandidos – literários e/ou cinematográficos – carregam essas idiossincrasias consigo. Suze está mais romântica nas narrativas, principalmente quando o assunto é Jesse – eu também ficaria, afinal, a imagem que tenho dele em minha mente é uma nuance fictícia do meu próprio marido. Ou seja, para mim, Jesse é tão lindo quanto o senhor Toni Souza. – Da mesma forma, quando se trata de Paul, sua vulnerabilidade fica exposta. Porém, mantendo a personagem dentro da estrutura, Meg não retirou o sarcasmo e as palhaçadas de Suze, que nos inebria com suas tiradas hilárias. Sem cair no estilo “bondade plena e suprema, porque o bem vence o mal e espanta o temporal”, a autora explorou a redenção de uma forma surpreendente, sem descaracterizar o personagem em questão. E como nem tudo pode ter um final completamente feliz, principalmente se almejamos por um final verossímil, ainda que se trate de um enredo sobrenatural, Meg Cabot conseguiu equilibrar vitória, alegria, despedida, tristeza, romance e novas perspectivas, dando um ponto final na trama e, ao mesmo tempo, deixando uma brecha para continuá-la no futuro. Por sorte, eu soube que ela está trabalhando em A Mediadora novamente. Só espero que não seja um reboot, e sim uma continuação, ou, quem sabe, algum spin-off com Paul e seu irmãozinho. Bem, não tem como não confiar nessa autora, Meg Cabot já provou que sabe o que faz, e nos presenteou com um dos finais literários mais perfeitos.

“Eu prometi que não iria matá-lo. Não falei nada sobre impedir que ele morresse”.

GRAMÁTICA: Depois de seis volumes, abstenho-me de mais comentários neste tópico. Só espero que Meg Cabot nunca venha a saber do descaso que a edição brasileira teve com a tradução e a revisão da sua série.

NOTA FINAL: Redenção sem coroas floridas e auras brilhantes e angelicais – confere. Equilíbrio entre tristeza e alegria, vitória e derrota, vida e morte – confere. Final surpreendente, com um encerramento do enredo e perspectiva aberta para continuação – confere. Brilhante! Delicioso. Leitura fluída, divertida, intensa, daquelas que mexem com nossos sentimentos, arrebatando-nos para o mundo descrito nas páginas. Mais que recomendado, leitura obrigatória aos amantes do gênero.

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