• Parte 1
• Parte 2
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Assim que caminhei em direção à cozinha, o relógio que eu tinha acabado de ganhar do meu pai caiu e quebrou. Assim, do nada. Senti um aperto no coração, mas não entendia o motivo. Acho que era porque tinha gostado do presente além do que imaginava.
Mesmo não funcionando mais, tornei a pendurar o relógio na parede e fiquei ali, parada, fitando a máquina quebrada, na esperança de que voltasse a funcionar. Os ponteiros marcavam dezessete horas e vinte e nove minutos. Foi nesse horário que meu relógio parou de funcionar para sempre...
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O telefone tocou. Corri para atendê-lo, imaginando que algum dos meus amigos estivesse do outro lado da linha. Porém, para minha surpresa, a notícia era melhor que os “parabéns” de qualquer amigo. Era o responsável pela editora que recebera meus arquivos originais, dizendo que a tal empresa estava disposta a publicar meu livro, uma história com anjos e demônios. Radiante e feliz, declarei para mim mesma:
— Talvez esse vinte de julho seja o ano da virada!
Contudo, a bomba ainda estava por vir...
Antes que pudesse retornar para os meus afazeres, o telefone voltou a tocar. Foi quando descobri que a felicidade nunca viria sozinha, ela sempre chegava de mãos dadas com a tragédia.
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Meu pai não apareceu para comer o bolo. Ele morreu no dia vinte de julho, às dezessete horas e vinte e nove minutos. E o pior de tudo: eu fui avisada. De alguma forma, ele me avisou.
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Novamente, parei de frente para o relógio e o fitei, com o olhar perdido, com a tristeza consumindo, com o torpor de uma saudade me afligindo.
Minha avó tinha ido buscar seu filho. Meu pai achara o seu caminho de casa... O garotinho ruivo era ele. Acho que, no além, todos ficam mais novos... Mas só teria certeza disso quando lá chegasse.
E eu estava ali, fitando o relógio parado. Dezessete horas e vinte e nove minutos para sempre, nunca mais sairia desse horário, nunca mais sairia da minha parede.
Senti mãos suaves me envolvendo. Era minha mãe, somente ela era capaz de me tirar daquele torpor. Somente ela foi capaz de me fazer derramar todas as lágrimas que estavam trancadas dentro de mim. No meu mundo, eram 17h29min. No mundo real, já passava das vinte. Tinha que enfrentar a realidade. Ele velou meu sono, eu passaria a madrugada velando o seu adormecer eterno.
Foi a pior noite da minha existência.
Na manhã seguinte, no cemitério, enquanto o corpo do meu pai descia para sua morada final, escutei uma voz me chamar. Foi apenas um sibilar, porém, alto o suficiente para ganhar minha atenção. E vi minha avó, do mesmo jeito que estava quando apareceu no meu banheiro. O garotinho ruivo estava ao seu lado, segurando sua mão. Ambos sorriam e pareciam tranquilos, serenos e felizes. Acenaram alegremente para mim. Depois, aquela imagem se esvaiu.
Era o fim para ele, contudo, a minha vida ainda tinha um curso a seguir...
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Sua Falta – Autoria: Vanessa Araujo – da obra Acasos da Vida.
Parte 4 - Dia Outubro/2023. Aguardem... e comentem!

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