quarta-feira, 31 de maio de 2023

Conto: Sua Falta - Parte 1

 


Pequenos gestos podem mostrar grandes sentimentos. É preciso notá-los na rotina diária da existência, antes que seja tarde demais para sentir falta...

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Dia 20 de julho de 2014.

O relógio marcava dezessete horas e vinte e nove minutos. E não sairia mais desse horário, assim ficaria para sempre, pois estava quebrado. Caiu da parede e parou de funcionar. Sempre seria 17h29min naquele relógio. E estava assim há exatamente um ano.

Eu só queria que ele estivesse aqui e visse meu sucesso, visse onde consegui chegar. Estava vivendo um daqueles momentos em que toda pessoa no auge se pergunta: “O que faço aqui?”.

Apesar de todo luxo e glamour da celebração, ele não estava presente, e eu já não tinha mais motivos para comemorar. Não consegui lhe mostrar o que estava preparando antes de sua partida. E ele nem me esperou para me ver colhendo os frutos de tardes inteiras colocando minhas imaginações no papel. Só desejei que soubesse do que eu era capaz, ansiei revelar qual era o meu segredo, o que fazia enquanto me trancava e sentava na frente do computador por todas as tardes e em longas madrugadas.

— Sinto sua falta – sibilei para o nada ao meu redor. – Sinto tanto a sua falta... Morro de saudades de ti, pirralho ruivo.

Conferi meu relógio de pulso. Os ponteiros marcavam quinze horas. Eu precisava sair e enfrentar meu compromisso, um evento que tanto esperei e lutei para conquistar. Porém, que já não fazia mais sentido. Mas tinha que ir, precisava estar presente, afinal, eu era a estrela da festa.

Cheguei à recepção do luxuoso hotel e me dirigi ao salão principal. Era ali que aconteceria a festa de entrega do meu prêmio: Escritora Revelação do Ano.

Outros colegas de profissão, que também seriam homenageados, chegaram e se acomodaram. Fui cumprimentada, contudo, não prestei a mínima atenção em nenhum deles. Apenas assenti com a cabeça, estampado em um sorriso falso. Na verdade, minha mente flutuava de volta para o passado, para o mesmo dia em questão, o dia do meu aniversário. O dia em que aconteceu a pior tragédia da minha vida. E, também, o dia em que todas as portas se abriram. As portas do sucesso e do reconhecimento de todo meu esforço, bem como as portas do meu inferno...

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Dia 20 de julho de 2013.

Era oficial, passava da meia noite e já era o dia seguinte. Vinte de Julho. Meu aniversário. Não que eu quisesse comemorar, não estava nem um pouco ansiosa por isso. Entretanto, era algo inevitável, sendo que minha mãe insistia em celebrar a vida... ou o passar dela.

O problema nem era o fato de ficar mais velha – porém, confesso, isso me incomodava... Muito! – Minha preocupação era sobre tudo o que poderia acontecer. Não era nenhuma vidente, só que alguns fatos eram idiotamente notáveis em minha existência. E o pior: sempre acontecia algo de ruim – de muito ruim – nessa data. Todo ano. Sem nunca pular nenhum. O destino me perseguia, me sondava, me atacava.

Bem, eu não podia reclamar, afinal, estava viva e com saúde. Porém, para provar o quanto era azarada, tinha uma lista das mais intensas tragédias, as que mais chamavam a atenção no todo de trinta e cinco itens.

Dentre todas as merdas que me aconteciam nesse dia, algumas viraram top de linha. Tive meu carro roubado em um ano; arrebentei-me toda no outro, tendo que comparecer em minha própria festa de aniversário vestida de múmia, pois estava com braço e perna engessados; fui assaltada; e mais uma montanha de estranhos ocorridos. Já aconteceu de tudo no dia vinte de julho. Acredite, é fato!

Claro que aquele ano não seria diferente. Eu já estava até preparada. Aliás, fazia três dias que treinava minha mente para tudo o que poderia acontecer. Por tal motivo, decidi passar as vinte e quatro horas daquele dia totalmente acordada.

Certo, eu esperava por uma tragédia “light”, do tipo... Cair e quebrar um braço; ou ser atropelada; talvez, levar um soco no rosto sem saber de onde partiu o golpe... Mas não estava preparada para a fatalidade que o destino havia me reservado...

Como disse, já passava da meia noite. Decidi esfriar a cabeça com um banho relaxante, tentando desviar minha mente e esquecer-me da maldita tradição do destino de me pregar uma peça no dia vinte de julho. Foi naquele instante que senti que havia mais alguém no banheiro.

Muitos diriam que eu tinha surtado de vez. No entanto, estava mais sóbria das ideias do que jamais estive. Não senti medo, não gritei e não fiz nada, além de dizer:

— Oi, vovó.

Para deixar claro, minha avó falecera havia dez anos, mais ou menos. Mas ela estava lá, vestida com um tailleur cinza, uma blusa branca de extremo bom gosto, carregando uma linda carteira nas mãos, tendo a cabeça adornada com um chapéu sem abas – no estilo “pillbox” –, e os cabelos bem arrumados em um coque elaborado. Para uma senhora de oitenta e tantos anos, a velhinha parecia mais nova que eu. Seus lábios estampavam um sorriso estonteante. Sua pele claríssima era lisinha, e seus olhos azuis brilhavam como safiras.

Nada demais... Tudo demais! Era minha vovozinha morta... Parecendo mais jovem, mais magra e mais bonita que eu! Ao menos, pude constatar que a morte lhe caía muito bem, afinal, a tal alma penada parecia uma estrela de cinema.

Não costumava ver criaturas desencarnadas por aí. Na verdade, foi a primeira vez que me deparei com uma coisa ectoplasmática. E tudo o que imaginei era que aquela seria a tragédia do ano, ver a alma da minha vovozinha morta no meu banheiro.

Como o que não tem remédio, remediado está; e já que a velhinha decidiu visitar-me enquanto eu saía do banho, aproveitando que nenhum medo me assolava, decidi prosseguir com a comunicação sobrenatural.

— A senhora precisa de alguma coisa? Posso ajudá-la com algum assunto? – indaguei casualmente.

— Vim para buscar meu filho – ela respondeu.

— Bem, seja mais específica. Afinal, foi mãe de um time de futebol! – declarei em tom jocoso. – Para que eu possa te ajudar, terá que me dizer qual dos doidos veio buscar.

— Não sei. Não lembro direito. Mas ele estava comigo e saiu correndo quando se soltou da minha mão.

Isso era uma boa notícia. Afinal, indicava que o filho que ela tinha ido resgatar já estava no além, e não era um dos que ainda viviam, incluindo meu pai. Suspirei aliviada, mas logo me lembrei de que a alma mirim de um pirralho poderia estar escondida na minha humilde residência. E eu não estava nem um pouco a fim de lidar com tal situação.

— Tudo bem – respondi, querendo despachá-la dali o mais rápido possível. – Se eu o vir, lhe direi que a senhora o procura.

E quando virei meu rosto para tornar a fitá-la, a velha já tinha desaparecido. Dei de ombros e fui para o meu quarto, decidida a passar o resto da noite acordada, desfrutando de uma boa leitura. Grande erro! Apesar de ser meu hobby preferido, ler me deixou com sono. Desistindo da ideia inicial, coloquei o livro de lado e apaguei as luzes.

Minha intenção era dormir... Porém, pequeninas mãos me sacudiram insistentemente, e uma voz fininha me perturbava:

— Érica, acorda! Levante-se. Vamos.

Bufando de raiva, sem nada entender, abri os olhos para ver quem era a figura irritante. Deparei-me com um garotinho branco como cera, de cabelos ruivos encaracolados e lindíssimos olhos azuis. Ele trajava um pijama listrado – como os personagens “Bananas de Pijamas” – e pantufinhas fofas.

— Outra alma penada? – indaguei com o cenho franzido em confusão. – Quem é você e o que quer comigo?

— Procuro o caminho de casa.

Como se aquela noite não pudesse ficar ainda mais esquisita, e como se já não me sentisse louca o suficiente por ver e conversar com uma criatura ectoplasmática do além, lhe respondi:

— Querido, não posso te ajudar. Veja bem, estou viva e você... Meio que... Já passou dessa para uma melhor. Não posso pular essa cerca. Terá que buscar ajuda em outro lugar.

Tornei a deitar e me enrolei no cobertor. Porém, ele insistiu:

— Érica, não seja má. Ajude-me, por favor.

Era impossível ignorá-lo. Sentei-me bruscamente e passei a vociferar irritada:

— Olha aqui, pirralho desencarnado, para te ajudar eu teria que morrer e...

Não consegui terminar a frase. Com um raciocínio besta, entendi qual era o destino daquele dia vinte de julho. Morrer... Algo que, definitivamente, não estava nos meus planos. Mas era o que os fatos demonstravam. Primeiro, vi a minha avó no banheiro. Depois, o pirralho insistia em perturbar meu sono pedindo que o lavasse para além do cabo da boa esperança. Era fato, eu ia bater as botas!

— Sou jovem demais para morrer! – protestei em alta voz a minha discrepância de sentimentos.

— E quem te disse isso? – indagou o garotinho ruivo, gargalhando das minhas palavras. – Acho que é melhor eu deixar que você durma um pouco. Ficarei aqui até amanhecer.

Não entendi merda alguma do que o pirralho falava, afinal, minha mente estava entorpecida com a maldita ideia de morte. Bem, se era para partir, que fosse dormindo... E que Deus me recebesse no paraíso, porque, se eu fosse para o inferno, pobre do Diabo, pois iria perder seu cargo de chefe do submundo! Sendo assim, decidi adormecer, mesmo sabendo que um fantasminha camarada estava ali, velando meu sono.

Ele se deitou ao meu lado e acariciou meu rosto suavemente. Antes de me entregar aos braços de Morfeu, fitei-o e enxerguei olhos azuis tão familiares, tão brilhantes... Mas não consegui assimilar e descobrir quem era o dono de iguais safiras.

Com ternura, o garotinho declarou:

— Você não vai morrer, Érica. Não hoje.

E ele continuou acariciando minha face até que eu apaguei em sono profundo...

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Sua Falta – Autoria: Vanessa Araujo – da obra Acasos da Vida.
Parte 2 - Dia 28/06/2023. Aguardem... e comentem!

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