"E a ironia da resistência é que você acaba perdendo tanto tempo e energia concentrada nas coisas às quais está resistindo, nas coisas que não quer, que acaba atraindo exatamente essas coisas".
FICHA TÉCNICA
• Título: Chama Negra
• Autora: Alyson Noël
• Série: Os Imortais, volume 4
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2011
• Páginas: 239
• Formato: 16 X 23 cm
• ISBN: 978.85.8057.012.0
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Flávia Souto Maior
• Revisão: Umberto Figueiredo Pinto e Shirley Lima
SINOPSE: Enquanto tenta ajudar Haven na transição para a vida imortal e libertar Damen do feitiço que não permite que ela toque nele, Ever se aprofunda mais e mais nos mistérios da magia negra. O feitiço, porém, vira contra a feiticeira, e ela se vê presa ao seu maior inimigo, Roman. A força estranha e poderosa que toma conta do seu corpo impede que Ever pare de pensar nele, de desejá-lo. Ela quer resistir à atração incontrolável que a está consumindo. Ele quer se aproveitar desse momento de fraqueza. A ponto de se render, Ever procura ajuda de Jude, arriscando tudo e todos para salvar a própria vida e seu futuro com Damen.
"Quando você foca no que teme, atrai mais daquilo que teme. Quando foca no que não quer, atrai mais daquilo que não quer. Quando foca em tentar controlar os outros, acaba sendo controlada. Sua concentração em algo traz mais disso e mais coisas como isso para sua vida. Impor sua vontade aos outros, para persuadi-los a fazer algo que normalmente não fariam... bem, isso apenas não funciona, como também acaba voltando diretamente para você. E resulta em carma, assim como todas as ações, só que não é do tipo que age a seu favor, a não ser que esteja disposta a aprender algumas lições muito importantes".
ASPECTO FÍSICO: As capas dessa série são sempre atrativas, belíssimas. O quarto volume tem uma das mais belas, colocando duas moças – a protagonista na frente e outra ao fundo – para simbolizar a amizade entre Ever e Haven, que, tal como a frágil chama de uma vela, está em risco. Falando em vela, a chama em questão não tem nada a ver com caminhos iluminados, porém, faz parte do enredo. O interessante foi a vela ser roxa, uma cor que indica transmutação, levando-nos ao mundo alquímico de Damen e, ao mesmo tempo, a transformação que ocorre no âmago da protagonista. Com o formato 16 X 23, a peça se adequa às mãos na hora da leitura, sem pesar. Porém, a fonte miúda ainda é um tormento a mim. Preciso me esforçar muito para ler sem que as letras se embaralhem na minha visão. Por ser uma série, e tal como é típico da editora, a Intrínseca manteve o padrão de capa, contra capa, lombada e diagramação. Então, para não me tornar repetitiva, encerro aqui meus comentários neste tópico.
"O monstro não é um ser externo que encontrou um jeito de entrar em você, não é uma possessão demoníaca, nem nada desse tipo. É você. O monstro é seu lado negro".
ENREDO: Roman colocou Ever em uma situação de escolha nas últimas cenas do volume anterior. Ela poderia ter o que tanto queria – ou seja, o antídoto que curaria Damen e, consequentemente, o levaria, em todos os sentidos, de volta aos seus braços – ou a vida de sua melhor amiga. Ela escolheu Haven, que estava prestes a morrer. Agora, Haven é como Ever, uma imortal. Ao primeiro momento, a exótica Haven aceita a nova vida e agradece Ever por essa oportunidade. Depois, birrenta como sempre, Haven se volta contra a amiga, buscando abrigo nos braços de Roman, que a doutrina pela sua perspectiva, tornando a nova namorada uma imortal forte e ousada, fato que complica, e muito, a vida de Ever. Em contrapartida, a protagonista segue em sua busca ensandecida pela cura, e isso, incrivelmente, a afasta de Damen... e de todos. Ever não se convence de nada do que lhe dizem, traçando seus próprios caminhos – torpes –, que a colocam em perigosas situações. A magia de amarração que ela fez contra Roman, com o intuito de colocá-lo sob suas rédeas e, assim, fazê-lo entregar-lhe, de livre e espontânea vontade, o antídoto, se volta contra ela. Agora, Ever está obcecada, uma fera a consome no âmago, uma chama negra que a incendeia, que instala em seu ser uma fissura desvairada pelo seu maior inimigo. E a magia é tão forte que ela não consegue expressar o que lhe acontece, não nesse plano. Ever precisa seguir para Summerland. Damen insiste para que ela lute contra isso, mas Ever não lhe escuta, e isso os afasta. Por sorte, Jude está ali, como um fiel guerreiro, assumindo a linha de frente das suas batalhas. Porém, essa chama negra a consome no plano material, Ever emagrece, sua pele adoece, ela já não é mais a mesma, e Haven se compraz com esse torpor da melhor amiga. E quando Ever, finalmente, encontra uma luz no fim do túnel – uma luz que não é essa chama negra, uma luz que se acende pelas descobertas de Jude –, a protagonista entende que sempre esteve procurando no caminho errado. Ela decide perdoar... perdoar a todos e a si mesma. O perdão a cura, o amor a eleva. Quando as coisas parecem se encaixar e a vitória está, literalmente, em suas mãos, uma fatalidade vem para assolar e levar para longe, para o infinito, para sempre, a felicidade que traria seu grande amor de volta.
"É errado usar magia para fins egoístas e desprezíveis. Há um carma a pagar, e isso voltará para você multiplicado por três".
MINHAS CONSIDERAÇÕES: A autora foi muito ousada ao brincar com Hécate, uma divindade grega, considerada, principalmente, como deusa da lua, da magia, da feitiçaria, do parto e, principalmente pelo local onde era mais adorada, na Trácia, deusa das terras selvagens. No neo paganismo, Hécate é reverenciada como deusa tríplice (donzela, mãe e anciã) e deusa do submundo, afinal, ela fugiu para o reino de Hades, após roubar um pote de carmim da sua genitora, deixando o Olimpo e correndo para os braços de Persefone, que a acolheu e a criou como filha. No livro, além de colocar Hécate como uma deusa que atendia os desejos maléficos, estereotipando-a como uma versão feminina de Lúcifer, ela também foi descrita como “rainha do mundo inferior, com três cabeças e cabelos de serpente”. Eu desconheço tal descrição de Hécate – no caso, os cabelos de serpente, porque, sim, na Trácia antiga, algumas imagens de Hécate eram esculpidas com um corpo e três cabeças, representando seus três aspectos; porém, nunca com malignidade. Aliás, chamar Hades como “reino inferior”, no sentido pejorativo da palavra, é uma audácia que não vale a pena. Tudo que a autora me provou foi que, novamente, fez uma busca rápida pelo Google, clicou no primeiro link que achou, absorveu as porcarias que ali estavam e, depois, simplesmente jogou tudo no enredo. Veja bem... “mundo inferior” poderia ser substituído por “mundo imaterial”, que tem uma conotação de “abaixo”, de localização, e não de classe mais baixa da hierarquia, como ficou nitidamente expresso no texto. Arrisco dizer que a autora não é pagã, nunca foi. No máximo, entrou na vibe new age, algo meio hippie com toque de wicca, onde abraçar árvores, praticar o bem e sempre julgar os outros é a lei maior. Convenhamos, ela citou a Lua Negra, um dos Esbbaths mais celebrados pelos pagãos, de uma forma totalmente errônea, completamente fora de contexto. Até onde eu sei, para os pagãos, lua negra é o período de 3 dias que antecedem a Lua Nova. E, para a astronomia, é a segunda Lua Minguante dentro do mesmo mês. No livro, não se passa nem uma semana e já é Lua Cheia. Pelo calendário lunar, uma semana após a Lua Negra, nós temos a Lua Nova já migrando para a Lua Crescente, período chamado de Lua Emergente. Mais uma vez, dona Alyson Noël não fez um bom trabalho nas suas pesquisas. E as coisas não param por aí... ela citou a Lei Tríplice!!! Wicca não é uma tradição, e sim um Coven fundado por Gerald Gardner, que foi um praticante da antiga religião celta, o druidismo. As leis aos seus membros foram baseadas sobre o mesmo domínio da igreja católica, impondo o medo para manter a ordem. A Lei Tríplice é um bom exemplo disso, e ela só funciona, só é ativada, quando existe um juramento em cima dela. Submetendo-se a tal lei, você é obrigado a levar porradas astrais e a nada retribuir, pois tudo que enviar retornará a ti três vezes mais forte. Compreendem? Um membro não podia atentar contra o outro, tampouco contra os líderes; caso contrário, sofreriam as consequências do juramento da Lei Tríplice. Voltando a falar de Gardner e do seu Coven, a perseguição cristã o sucumbiu, e o grupo se desfez. Quando um Coven é quebrado, todas as suas leis caem por terra, não existem. O grupo não existe, as leis não têm a quem reger. Nada disso existe mais. Então, de repente, alguém confundiu reconstrucionismo com neo paganismo, e eis que surgiram os magistas com coroas de flores na cabeça, abraçando árvores, falando mal dos outros pagãos, mas dizendo-se bons e superiores a todos... por causa da Lei Tríplice. E esse é o único argumento que conta aos neo wiccanos. “Você quer discutir comigo? Faça como quiser, pois tudo que desejar a mim receberá três vezes de volta”. Comigo não, você jurou, não eu! Sim, eu mato a cobra e mostro a cobra morta. Se os pagãos podem levantar seus argumentos para criticar meus livros – e nenhum deles é plausível o suficiente para me refutar –, eu posso fazer o mesmo nas minhas resenhas. Voltando ao que interessa... Ever realmente se perdeu, tornando-se a dona da verdade absoluta, enquanto todos os outros estão errados. Se alguém quer que ela faça algo, tem que falar justamente o contrário, porque a teimosia sem limites a leva para outro caminho. A protagonista se tornou insuportável, o poder lhe subiu à cabeça. E mesmo quando tudo dá errado, ela não dá o braço a torcer. E depois ainda se pergunta por que as portas dos Grandes Salões do Conhecimento não se abrem mais para ela... Ever não se dá nem ao trabalho de escutar Ava, que agora tem acesso aos registros akashicos. Neste ponto, a autora ganhou o meu respeito. É preciso muita coragem para construir uma personagem com esse nível de teimosia. Se o intuito era irritar o leitor, o feito merece aplausos, pois foi concluído com maestria. Digo isso porque tenho uma personagem exatamente assim em Eclipse Sagrado, ela foi construída para ser odiada, para se tornar uma criatura irritante, que não escuta ninguém, pois só assim sua redenção teria êxito e destaque. É o que acontece com Ever, e eu não vou criticar a autora por esse artifício. Muito pelo contrário, meus elogios, nesse quesito, são plenos. Haven já era insuportável antes, agora está pior. Findando minha opinião para a escrita criativa... Ever, disfarçada de Avalon, usa o exemplo de amigo imaginário como dom de ver espíritos, algo que acontece na infância e que depois é sufragado pelo que a sociedade impõe. Concordo plenamente com a ideia da autora sobre isso, um ponto que poucos exploram e que valia esse destaque.
“Não se pode forçar o carma. Ele funciona em seus próprios termos”.
NOTA FINAL: Apesar das minhas duras críticas – acima descritas – sobre o modo como a autora abordou certos pontos do paganismo, digo que Chama Negra é um dos melhores enredos da série. O texto explora o martírio psicológico, é um jogo intenso, algo que já vi acontecer na vida real, no qual fui vítima pelo lado contrário e, de certa forma, como coadjuvante da história. Digamos que existia um Roman, uma Ever, e eu era como Damen nessa história, a boba alegra que não sabia como ajudar. Usando e abusando desse artifício, a autora nos presenteou com um suspense que inebria nosso cerne, tocando-o profundamente, levantando o ponto, ainda que de maneira torpe, de que o livre arbítrio não deve ser tomado de ninguém, e que o carma existe, está aí, lutando ao lado da lei da física – toda ação gera uma reação. – No fim das contas, o feitiço sempre se vira contra o feiticeiro. Essa é a maior lição que as aventuras de Ever Bloom nos ensina em Chama Negra. Recomendo, há muitas lições importantes que nos são passadas. Não aplaudo, gosto de respeito com toda e qualquer cultura – desde que os praticantes da mesma também me respeitem como cristã, o que não é o caso dos wiccans e, por tal motivo, cansei de respeitá-los como grupo, aderindo ao julgamento individual. – Alyson Noël falhou com o paganismo, falhou com a disseminação dessa cultura tão rica. Fora isso, Chama Negra é, de longe, o segundo melhor título da série Os Imortais.
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