quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Conto: Sua Falta - Parte 2

 


Para ler a parte 1 deste conto, clique aqui.

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Uma brisa fresca tocou meu rosto, mas me recusei a abrir os olhos. Ainda estava entorpecida de sono, pois não havia descansado o suficiente. Permaneci deitada e com as pálpebras cerradas, lembrando-me do sonho esquisito que tive com a versão mais nova da minha avó e com um pirralho ruivo irritante.

— Érica, acorda!

Abri os olhos e a criaturinha ectoplasmática ainda estava ali, deitado ao meu lado.

— Mas que merda! – exclamei, enquanto sentava-me abruptamente. – Não foi tudo um sonho?

— Não! – ele respondeu, dando de ombros. – Mas pode ficar tranquila, já fiz o que deveria ser feito.

— Que seria...? – instiguei.

— Encontrar o caminho de casa.

— Bom para você. Sendo assim, faça uma boa viagem e, por favor, esqueça meu endereço. Aliás, esqueça a rota do mundo dos vivos.

— Tenha um feliz aniversário – declarou, sorrindo, deixando suas rosadas bochechas mais redondinhas.

Com as sobrancelhas erguidas em surpresa por saber que ele conhecia tal data, tudo o que consegui lhe responder foi:

— Obrigada.

— Seja feliz. Tenho muito orgulho de você. Adeus, Érica.

Observei seu caminhar desde a beirada da minha cama até a porta do quarto, enquanto sua imagem se esvaía. De repente, ele cessou os passos e me lançou um último olhar. Sorrindo, falou novamente:

— Lembre-se da hora.

— Que hora? – indaguei confusa. – Hora de quê?

— A minha. Dezessete horas e vinte e nove minutos.

Dito isso, o garotinho sumiu de vez. E eu nem tinha lhe perguntado seu nome...

Atônita, fui conferir o relógio.

— Pirralho burro – murmurei sozinha. – São oito e meia da manhã.

Bem, decidi que não contaria o ocorrido para ninguém – até porque, não acreditariam, e ao invés de receber presentes, ganharia uma camisa de força e um atestado de insanidade, com certeza. – Porém, era um fato impossível de ser esquecido.

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Eu estava terminando de confeitar meu bolo com raspas de chocolate e cereja, quando meu pai chegou com um presente nas mãos. Um fato raro, diga-se de passagem, pois ele era tão desligado que nunca sequer se deu ao trabalho de comprar um presente. Tal tarefa era sempre designada para minha mãe. Porém, naquele ano, ele resolveu surpreender a todos com essa atitude.

Abri o pacote, ansiosa para descobrir qual era o meu presente. Tamanho foi o meu sorriso ao me deparar com um lindo relógio de parede que combinava perfeitamente com a nova decoração da minha sala.

No mesmo instante, coloquei as pilhas e pendurei o relógio em lugar de destaque. Depois, fiquei apreciando meu presente.

Após agradecer ao meu pai – ainda surpresa com sua atitude –, o flagrei sem jeito, dando de ombros e respondendo:

— É simples, mas é de coração.

— E eu gostei. É perfeito.

Percebi que ele escondeu um sorriso de satisfação. Meu pai era assim mesmo, sempre brincalhão, mas um tremendo idiota tímido na hora de demonstrar suas verdadeiras emoções. Ele nos amava muito, entretanto, aquele era seu jeito, não adiantava esperar que mudasse. E, para falar a verdade, o adorávamos como era.

— Voltarei mais tarde para comer o bolo – anunciou, enquanto se dirigia para a porta de saída.

— Estarei esperando.

Eu só não sabia que teria que esperar tanto para comer o bolo com ele...

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Sua Falta – Autoria: Vanessa Araujo – da obra Acasos da Vida.
Parte 3 - Dia 13/09/2023. Aguardem... e comentem!

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