segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Resenha: A Hora Mais Sombria

 


“Fora o orgulho, meu bronzeado era a única coisa que iria realmente sofrer por passar mais um dia com Jack”.

FICHA TÉCNICA
• Título: A Hora Mais Sombria
• Autora: Meg Cabot
• Série: A Mediadora, Volume 4
• Editora: Galera Record
• Edição: 2001
• Páginas: 272
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.01068.70.5
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Ivanir Alves Calado

SINOPSE:
 Suzannah está perdidamente apaixonada por Jesse – o fantasma "muito gato" que vive assombrando seu quarto. – Para se distrair, tudo o que ela quer é passar as férias de verão pegando sol, descansar e, quem sabe, arrumar um encontro com um garoto de carne e osso. Mas isso não será possível. Não na nova família. Os filhos do padrasto estudam ou trabalham durante o verão. E, sonhando com um par de Manolo Blanik, ela resolve trabalhar como babá no Peeble Beach Hotel and Golf Resort. Só que tomar conta dos filhos dos ricaços não será o único desafio de Suzannah: ela vai conhecer um pequeno mediador – um menino que, como ela, tem o dom de falar com os mortos. Só que ele ainda não sabe disso, e Suzannah se nomeará sua orientadora. Mas seu maior problema surge quando seu padrasto resolve cavar um buraco no quintal para instalar uma piscina. Durante as escavações, são encontradas cartas de Maria de Silva, jovem de família nobre que vivia na cidade há cerca de 150 anos. Não por acaso, ela era noiva de Jesse... e como não quer ver seus segredos revelados, decide fazer uma visitinha nada amigável a Suzannah, exigindo que a obra seja interrompida. Nossa mediadora, que também não está nada animada com a escavação, começa a pensar no que o fantasma tem tanto medo de encontrar. A possibilidade de ser o corpo de Jesse não está completamente descartada. E se for isso mesmo? E se, ao solucionarem o homicídio, o rapaz conseguir, enfim, passar para o outro lado e ir embora do seu quarto para sempre? Como ela vai aguentar de saudade? Suzannah nunca imaginou encontrar tantos perigos ao lidar com fantasmas. E também não seria capaz de adivinhar até onde uma mediadora iria por amor! Com uma trama romântica cheia de mistérios e aventuras, A Hora Mais Sombria é o quarto volume da série A Mediadora.

“Suspirei. Verdade, aparentemente seria pedir demais que eu tivesse um verão normal. Quero dizer, um verão sem nenhum acidente paranormal".

ASPECTO FÍSICO: Com uma imagem elegante, a capa deste volume retrata uma das personagens do enredo, a algoz da vez, um espírito de uma época antiga que retorna para atormentar a protagonista. Nem mesmo o leque ficou de fora! E como é o estilo adotado para as capas da série, o título da mesma segue com as letras metalizadas. Dessa vez, em tom de rosa antigo, adequando-se perfeitamente ao tema. Todo o resto é como nos volumes anteriores, mantendo o layout adotado. A diagramação também não mudou, mantendo-se com o mesmo padrão – e com os mesmos “erros”, se é que se podem ser chamados assim, afinal, está mais para o que eu acho que poderia melhorar do que um lapso propriamente dito. Além das medidas exatas, da centralização das páginas e tudo mais que as gráficas exigem, todo o resto é “tema livre”. O fato é que minha mente metódica exige que tudo fique em harmonia, o conjunto todo combinando... capa, diagramação, enredo. O livro não é apenas uma peça, é um sonho materializado, é um mundo criado na mente e jogado em arquivos para, depois, ganhar forma. Enfim, chega de filosofar...

“E então, não pergunte como, a coisa toda saiu aos borbotões. Verdade. Foi como se ele tivesse apertado um botão na minha testa que dizia 'Informações, por favor', e o negócio saiu".

ENREDO: Férias de verão. Suze tem que trabalhar, pois essa é uma das leis dos Ackermans, sua nova família. Ao lado de Jake – irmão mais velho que ela, carinhosamente, chama de Soneca –, Suze é contratada como babá do Pebble Beach Hotel and Golf Resort. É assim que, cuidando do pequeno Jack Slater, Suze conhece Paul Slater, irmão mais velho de Jack. Paul é inteligente e divertido, carismático. Leitor voraz de Nietzsche e Kierkegaard. Jack é uma criança diferente, introvertida, um tanto manhosa. Está hospedado com os pais e o irmão no melhor hotel, na mais cara suíte, e hesita em deixar o quarto para aproveitar o verão. Com o mesmo cuidado que um elefante em loja de cristais, Suze puxa o assunto, até que Jack, rendido e temeroso, confessa seu problema à sua babá, de forma divertida, dizendo: “Eu vejo gente morta”. Sim, Jack é um pequeno mediador, porém, sem o bom senso que Suze tinha na sua idade. O menino revelou tal segredo aos pais, que eram médicos e, obviamente, não acreditaram nele, enviando o garoto para as melhores clínicas psiquiátricas. O fato é que Jack não quer sair do quarto do hotel porque tem medo dos fantasmas, acreditando que esses desencarnados querem matá-lo. Suze lhe explica sobre o que realmente são: mediadores, e lhe ensina como fazer o serviço. Por sorte, a alma penada que estava no Pebble Beach Hotel and Golf Resort era a de um homem que lá trabalhou, e tudo que ele queria era que a irmã devolvesse à sua filha o colar que roubou. Com uma simples ligação, Suze resolve o problema do falecido, o homem segue para o seu caminho de luz e Jack perde seu medo, transformando-se em outra criança, que agora brinca, se diverte e não tem medo de encarar seus dons. A transformação de Jack chama a atenção da sua família, principalmente de Paul, irmão mais velho do jovem mediador, que se mostra extremamente interessado em Suze... e ela não está nem aí, sua atenção é totalmente voltada à paixão da sua vida – que, ironicamente, é um morto: Jesse, o sedutor espírito que divide o quarto com Suze. – Em meio a tudo isso, Andy, padrasto da protagonista, cava um buraco no quintal para instalar uma piscina, até que encontra um cadáver com cerca de 150 anos de existência enterrado ali. O espírito da ex-noiva do cadáver aparece para Suze, ameaçando-a de morte, pois teme que seus segredos – enterrados no buraco da piscina, o mesmo onde estava o esqueleto – sejam descobertos, destruindo sua reputação de moça casta e descente. Maria – a defunta em questão – trama um plano perfeito, enganando o pequeno Jack, que, compelido a salvar Suze – ou assim ele acreditava –, exorciza Jesse. É quando a verdadeira aventura começa.

"Há uma coisa sobre os mediadores: somos duros de matar. Sério. Você não acreditaria no número de vezes em que fui derrubada, arrastada, pisoteada, socada, chutada, mordida, gadanhada, acertada na cabeça, mantida embaixo d'água, alvejada por tiros e jogada de telhados".

ESCRITA: Suzannah é, realmente, uma das melhores personagens. Amo seu bom humor, suas tiradas apimentadas, até mesmo quando a situação é crítica. Nos momentos de perigo, ainda que admitindo o medo, ela solta suas piadinhas, arrancando-nos boas risadas. É como assistir Um Tira da Pesada ou alguma outra película do gênero. Suze sabe que está encrencada, então, assume o estilo "o que é um peido para quem já está cágado?" e lança suas ironias aos oponentes. Nesse estilo "perdido por um, perdido por mil", nossa debochada protagonista finalmente assume – para si mesma e para os leitores – sua paixão platônica por Jesse. Aliás, uma gostosa idiossincrasia dessa série é esse contato direto com a personagem. A escrita de Cabot deixa aquela deliciosa impressão de estarmos conversando com a protagonista, enquanto ela conta suas aventuras e, como se pudesse ver nossas reações durante a leitura, lança um "não me julgue, ok?". Jake – carinhosamente (nem tanto) chamado de Soneca por Suze – é um personagem que ganhou minha atenção. O rapaz é responsável, tem dois empregos e ainda encara a faculdade. Tem planos para comprar seu próprio carro e economiza para isso. Atencioso – quando está acordado –, já aceitou Suze como irmãzinha e a protege sempre que pode – ainda que a própria Suze não reconheça o fato. – Sabe aquele tipo de brutamonte fofo? Assim é Jake. Senti falta de uma participação maior do padre Dom. Porém, convenhamos, a turma estava de férias, e ele não hesitou em fugir das loucuras de Suze e correr para um retiro. Quando Paul convida a protagonista para um encontro, Suze cita Dirty Dancing. "Ninguém deixa Baby de canto". Uma alusão ao que poderia ser sua relação com Paul, porém, com papéis invertidos: a funcionária do hotel com o filho rico do médico. É exatamente esse tipo de comentário que faz com que nós, adultos devoradores de livros, nos apaixonemos pela série, porque entendemos as citações da personagem, captamos as referências que nos conduzem a uma deliciosa aura de nostalgia. Nesse ponto da história, ficou claro que Suze não é uma mediadora comum. Se no segundo livro descobrimos que ela não podia só ver, como, também, invocar os mortos; no quarto volume vemos uma espécie de viajante – ou xamã. – Para evitar spoiler, encerro aqui os comentários. Mas posso dizer que esse enredo tem um desfecho que nos deixa boquiabertos, de tão inesperado que é, uma situação que realmente não dá para imaginar, e que faz total sentido. Meg atirou no escuro, e acertou o alvo! Mais uma vez, tenho que aplaudir essa diva da literatura.

“E foi assim que, banhada, maquiada e vestida com o que eu considerava o auge do estilo mediadora chique, senti-me preparada para dominar não apenas os lacaios de Satã, mas, também, os funcionários do Pinha de Carmel”.

GRAMÁTICA: Eu realmente gostaria de pular este tópico, porque temo que minhas críticas possam desabonar o trabalho da autora, que nada tem a ver com isso... até porque, a obra original foi escrita em outro idioma, e o que temos ao nosso alcance é uma tradução. Já expliquei, nas resenhas anteriores, sobre as diferenças entre o inglês e o português, porque o primeiro idioma SEMPRE exige pronomes pessoais antes dos verbos e dispensa muitas vírgulas, ao contrário da língua portuguesa, que é complexa e cheia de regras. Bastava uma atuação unida entre tradução e revisão para sanar todos os problemas de gramática que são encontrados no texto. Esse pecado se tornou marca registrada da editora, infelizmente. Sim, um erro ou outro acontece, é normal, passa despercebido. Porém, o que encontramos são vários, e isso irrita os olhares mais aguçados. Ainda assim, enfatizo, é preciso abster a autora dessa culpa – talvez ela nem saiba que revisão do português tenha tantos problemas. – O fato é que a escrita de Meg Cabot é tão leve, divertida e fluída, que fica fácil ignorar a tradução do “Google Tradutor” e a revisão inexistente da obra. Que o nosso foco permaneça nas aventuras e no bom humor de Suze, para que nossas mentes se esqueçam da meleca da gramática.

NOTA FINAL: Misericórdia! A série inteira é um primor de originalidade, de suspense e de diversão. Mas esse volume excede nossas expectativas, deixando-nos boquiabertos e ansiosos por mais. É perfeito para todas as idades, até mesmo para quem não curte o tema. Continuo indicando, insistindo, pedindo uma chance... sim, virei fã, amo a escrita de Meg Cabot e recomendo A Mediadora, implorando ao universo cinematográfico para que, assim como O Diário da Princesa ganhou sua versão para as telonas, Suze e sua turma um dia cheguem às nossas salas de cinema. Nota mil!

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