"Tenho milhares de momentos desse tipo - meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado".
FICHA TÉCNICA
• Título: O Ladrão de Raios
• Série: Percy Jackson e os Olimpianos
• Volume: 1
• Autor: Rick Riordan
• Editora: Intrínseca
• Edição: 2010 | 2ª Edição
• Páginas: 387
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.98078.39.7
• Tradução: Ricardo Gouveia
• Gênero: aventura mitológica, mitologia grega, literatura infanto-juvenil
• Revisão: Maria da Glória Carvalho | Maria José de Sant'Anna | Fátima Amendoeira Maciel
SINOPSE: Percy Jackson está para ser expulso do colégio interno... de novo. É a sexta vez que isso acontece. Aos doze anos, essa é apenas uma das ameaças que paira sobre esse garoto, além dos efeitos do transtorno de déficit de atenção, da dislexia... E das criaturas fantásticas e deuses do Monte Olimpo, que, ultimamente, parecem estar saindo dos livros de mitologia grega do colégio para a realidade. E, ao que tudo indica, estão aborrecidos com ele. Vários acidentes e revelações inexplicáveis afastam Percy de New York, sua cidade, e o lançam em um campo de treinamento muito especial, onde é orientado para enfrentar uma missão que envolve humanos muito diferentes - metade deuses, metade homens -, além de seres mitológicos. O raio mestre de Zeus foi roubado, e é Percy quem deve resgatá-lo. Com a ajuda de novos amigos - um sátiro e a filha de uma deusa -, Percy tem dez dias para reaver o instrumento de Zeus, que representa a destruição original, e restabelecer a paz no Olimpo. Para conseguir isso, precisará fazer mais que capturar um ladrão. Terá que encarar o pai que o abandonou, resolver um enigma proposto pelo oráculo e desvendar uma traição mais ameaçadora que a fúria dos deuses.
"As palavras tinham começado a flutuar para fora da página, dando voltas na minha cabeça, as letras fazendo manobras radicais como se estivessem andando de skate".
ASPECTO FÍSICO: A capa dessa edição é divina! Com uma ilustração especial, a cena principal do livro é retratada. O título surge em meio a letras douradas, que também brilham na lombada do livro. Infelizmente, esse dourado vai se esvaindo com o tempo, dando lugar ao nada, mas deixando nítido o sutil relevo das letras. O nome do autor vai na parte de baixo do design, simples e discreto. A contra capa exibe frases de impacto das opiniões de grandes veículos de comunicação, além dos prêmios que a obra recebeu, deixando a sinopse para uma das orelhas do livro. Confeccionado em papel pólen soft, o miolo ganha uma diagramação limpa e perfeita, com a ponta do tridente – símbolo que tem tudo a ver com o enredo – imperando no início de cada capítulo. Tamanho da fonte e espaçamento que tornam a leitura mais atrativa, principalmente ao público alvo. É uma peça leve e de fácil manipulação durante a leitura. Infelizmente, a ficha técnica não cita o nome do designer que assina a autoria da imagem de capa.
"As emoções giravam dentro de mim como pedaços de vidro em um caleidoscópio".
ENREDO: A aventura começa logo no primeiro capítulo, quando Percy, resumidamente, narra sua intrépida jornada pelas instituições educacionais... seis delas em seis anos. Sofrendo de transtorno de déficit de atenção e dislexia, ele se esforça, tanto para aprender quanto para se manter longe de problemas. Porém, Percy é um imã de problemas exatamente por ser quem é... Com o apoio do professor Brunner e de seu melhor amigo, Groover – um garoto supostamente aleijado, vítima perfeita para ser o alvo de bullying –, Percy tenta controlar seus ímpetos e se manter na escola – na verdade, um internato para crianças problemáticas. – No entanto, seu senso de justiça fala mais alto quando seu amigo, novamente, se torna alvo das brincadeiras truculentas. Percy perde as estribeiras – sem nem mesmo saber como causou isso – durante o passeio ao Museu. É nesse ponto que o véu da realidade se rompe para o jovem. A professora que mais o odeia não é exatamente uma humana, e ela pretende matá-lo. O professor Brunner aparece e lhe joga uma caneta, que vira uma espada assim que o "instrumento de escrita" toca na mão de Percy. Com ela, o jovem herói acaba com a criatura, reduzindo-a a pó. Depois, como se nada tivesse acontecido, Percy se vê confuso, acreditando que tudo não passou de imaginação... ou de insanidade, já que nem o professor Brunner parece ter participado da peleja. Aliás, todos negam a existência da professora, a senhora Dodds. Percy se esforça nos estudos, porém, nada é tão simples para um garoto com suas idiossincrasias. Ainda assim, ele tenta, sempre estimulado pelo professor Brunner, estímulo que faz com que Percy tente não decepcioná-lo. Nada disso dá certo. Percy, mais uma vez, é expulso da escola ao discutir com outro professor. Sendo assim, ele arruma suas coisas e volta para casa. Percy tem uma mãe dócil e carinhosa a lhe esperar. Porém, não entende por que uma boa e bela mulher como Sally Jackson se casou com um idiota como Gabriel Ugliano – ou, como Percy o chamava, Gabe Cheiroso, pois o cara fedia mais que defunto podre. – Como se não bastasse o padrasto fedido e abusivo, o mistério sobre seu pai o entorpece. Fazendo de tudo para agradar o filho, Sally o leva para um chalé na praia, onde conheceu o genitor de Percy. Lá, ela conta o que pode sobre o homem que tanto amou. O problema é que o sobrenatural persegue Percy, criaturas estranhas e... seu melhor amigo, que surge diante dele sem calças... porque era um sátiro. Parte do mistério é revelado durante a perseguição desenfreada. O pai de Percy é um Deus grego. Não há tempo para explicações detalhadas. Um minotauro caça o trio. Sally indica um caminho seguro ao filho, porém, sua vida é ceifada pelas mãos do monstro. Percy assiste àquilo com incredulidade. Por um breve momento, vive a tristeza, que logo dá lugar à fúria. Em puro instinto de vingança e também de proteção – afinal, Groover permanecia desacordado em meio à confusão e à mercê do monstro –, Percy ataca, conseguindo arrancar um dos chifres e matar o minotauro. Foi assim, nessa bagunça toda, que Percy Jackson chegou ao acampamento meio sangue, o lugar que seria seu refúgio por um tempo.
"Depois de duas semanas na Colina Meio-Sangue, o mundo real parecia uma fantasia".
MINHAS CONSIDERAÇÕES: A escrita é extremamente divertida. Mesmo com linguagem coloquial – tão necessário ao gênero em questão, atingindo e ganhando a atenção do público jovem –, o texto de Riordan se mantém elegante, correto e muito jocoso. Percy me lembra a versão masculina de Suze, da série A Mediadora, principalmente na narrativa. Gosto do jeito divertido e debochado que Riordan usa na narrativa para não repetir muitas vezes uma palavra no mesmo parágrafo. Um exemplo disso acontece logo nas primeiras páginas, quando o professor Brunner se refere à caneta – que, na verdade, é uma espada – como "instrumento de escrita", de uma forma jocosa e, ao mesmo tempo, elegante. As risadas começam sempre com os títulos dos capítulos. O segundo, por exemplo, foi nomeado como "Três velhas senhoras tricotam as meias da morte". Não tem como não rir! As descrições dos locais por onde Percy passa são sucintas e precisas, sem tornar a leitura enfadonha. A narração em primeira pessoa nos conecta com o personagem que, mesmo encarando o perigo com detalhes hilários, típico de um jovem de doze anos, sofre seus tormentos ao ver seu mundo desabar. Tudo que Percy pensou ser real não passava de uma farsa, e sua realidade era dada como mito a todas as pessoas da Terra. O menino sofre, se sente sozinho, desprezado pelo próprio pai, procurado pela polícia por conta das calúnias do padrasto, com a mãe supostamente morta e acusado injustamente pelos deuses. Tudo isso já seria extremamente estressante a qualquer adulto, a um pré-adolescente então... as coisas são elevadas à milésima potência. E o autor conseguiu explanar o problema com leveza, mas sem ignorar o peso emocional do seu protagonista. Não tem como não ser fã de Riordan.
"Os mortos não são assustadores. São apenas tristes".
GRAMÁTICA: Bem, estamos falando de Intrínseca, o sonho de qualquer escritor brasileiro – sonho quase impossível de alcançar, pois, infelizmente, a editora mantém os olhos fora do país. – E quando se trata de Intrínseca, erros são coisas raras de se ver. Com uma equipe digna de aplausos, o que encontramos, além da tradução perfeita de Ricardo Gouveia, são pontuações corretas nos seguimentos de fala, algo tão raro de acontecer nas publicações deste milênio, espaçamento maior entre uma cena e outra, aquele "respiro" na leitura, preparando nosso cérebro para a mudança. Gosto desse tipo de artifício. É delicioso ver uma obra bem revisada. Dificilmente nos deparamos com esse tipo de cuidado por parte das editoras. A equipe de revisão trabalhou primorosamente e merece os créditos por isso, junto com o tradutor e o adaptador. O time está de parabéns!
NOTA FINAL: Percy Jackson e os Olimpianos é uma série que diverte e ensina. Riordan conseguiu reunir diversos elementos, cenários, conceitos e personagens da mitologia grega e adaptar tudo ao cotidiano moderno do seu protagonista. Os deuses evoluíram, e não dispensam nem a tecnologia. Como não indicar esse primor? Aliás, acho que deveria ser leitura obrigatória no Ensino Fundamental II, abrangendo não apenas as aulas de leitura e literatura, como, também, as aulas de história. Riordan encontrou uma maneira divertida de ensinar, de apresentar a cultura grega aos adolescentes desta geração. Só não aproveita quem não quer. Indico? Sim! Não apenas aos jovens, mas aos adultos também. O saber morre com seu dono, e conhecimento nunca é demais. Além do mais, a gente se diverte horrores com essa leitura. Ansiosa pelo segundo volume.
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