As mães de autistas, essas preciosas borboletas de asas coloridas, provavelmente se identificarão com este texto. Ainda que cada autista seja único, algumas particularidades são comuns. Não neles, e sim nas pessoas comuns, aquelas que se acham melhores que tudo e que todos, aquelas que nos encaram com pena, ou com um julgamento estúpido e falsamente cristão de que estamos pagando pelos nossos pecados. Se estou sendo castigada com a presença do meu autista na minha vida, que assim seja, pois meu filho é o mais belo e precioso castigo que eu poderia ter. Mas este texto é para falar da minha experiência como mãe de autista e da minha literatura em sincretismo com o autismo, como fiz da minha arte uma homenagem ao meu príncipe. Foi quando uma nova era surgiu em Mystikal que fiz do autismo minha literatura...
Resumindo os eventos de dezessete anos de existência, quando ele nasceu, eu já era mãe de duas meninas. Ao longo do seu desenvolvimento nos quatro primeiros anos de vida, percebi que meu menino era diferente. Suas reações eram insólitas as que eu estava acostumada. Na escola, as professoras me provaram que não estavam nem um pouco preparadas para lidar com alunos diferentes. Elas queriam o que era fácil, sem precisar sair da zona de conforto. Mostravam-se como experts, crescendo-se diante de mim com o único intuito de nos insultar, de forma sutil – e como se estivessem cheias da razão –, sobre as atitudes do meu filho. Os psicólogos eram os piores. Quem mais deveria ajudar foi quem mais nos prejudicou. Passamos dois anos com o errôneo diagnóstico de síndrome do pânico e de depressão profunda – minha sobrinha havia falecido havia pouco tempo, e esses supostos, fátuos e imbecis profissionais tiveram a pachorra de dizer qualquer baboseira que lhes vinha à mente. – Trocamos de escola, para piorar a situação. O tão renomado colégio era pior que o outro. Enquanto meu filho ganhava os campeonatos de xadrez e levava os troféus para a tal instituição, ele prestava. Depois, sem o acompanhamento adequado, afinal, os psicólogos não cumpriram com o básico da profissão, desonrando seus diplomas, seus nomes e a nós, as crises do Juninho avançaram, e ele não era mais bem vindo ao suntuoso Colégio Leão XIII. Sim, uma instituição católica simplesmente nos enxotou, como se fôssemos crias do capeta. O que esperar do "amor cristão"? Eis algo com o qual nunca me deparei na prática, apenas na teoria. Nas palavras, eles são lindos e amorosos. Na vida real, o diabo chega a ser santo perto dessa turba.
Enfim, novamente, mudamos de escola e, finalmente, caímos no lugar certo. A equipe do Colégio Moderno nos acolheu com amor, com profissionalismo e muita humildade. A orientadora, mil vezes mais profissional que os tais psicólogos, nos encaminhou a uma equipe de especialistas. Apesar da verdade nua e crua, não posso negar a excelente recepção que nos dedicaram. Essa equipe deu o veredito: meu filho era um autista. De certa forma, foi um alívio, pois finalmente saberíamos como lidar com ele daquele momento em diante. Juninho se tornou o primeiro autista do Colégio Moderno, e toda equipe escolar se dedicou em aprender, em evoluir, em entendê-lo. Nunca me esquecerei das palavras da diretora: Ele não tem que se adaptar aqui, nós que temos que nos adaptar a ele, trazer o mundo dele para dentro da escola. Tiro certeiro! Com o apoio da APAE de Santos e do Colégio Moderno, meu filho encontrou o caminho certo em meio ao mundo bagunçado.
Para que entendam o tal do “mundo bagunçado”, voltemos ao dia em que a equipe médica me passou o diagnóstico... Eu suspirei aliviada, saí dali ansiosa para aprender mais sobre o autismo e disposta a facilitar a vida do meu filho, que me esperava, do lado de fora, junto com o pai. Quando o peguei no colo e o enchi de beijos – mesmo sem saber que isso era horrível para ele –, entreguei a pasta do seu prontuário ao genitor do meu príncipe. Ele analisou aquilo e, por fim, falou a maldita frase: “Eu não quero um filho autista”. Ok, não era um produto, uma mercadoria com defeito que podia ser trocada ou devolvida. Era uma criança linda, inteligente, com suas idiossincrasias e que eu amava mais que a mim mesma. Foi exatamente o que eu disse, e ganhei um soco na cara por causa disso. Nem necessito dizer que não precisei pedir, ele foi embora de casa, deixando-me sozinha naquela nova e assustadora jornada.
A família não aceitou muito bem no começo, todos nos olhavam de soslaio e insistiam para que eu procurasse uma segunda opinião, sendo que a tal equipe médica era composta de treze profissionais – neurologistas, psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos – que, unanimemente, não procrastinaram em entender as particularidades do meu menino. E demorou anos para que a família finalmente aceitasse e entendesse que não havia nada de errado com o Juninho, ele apenas via o mundo de uma forma diferente, seus sentidos eram diferentes, seu mundo era outro. Usei até a alusão do Pequeno Príncipe para florear as coisas, e confesso que foi meu golpe de mestre, pois, até hoje, Juninho é o Pequeno Príncipe da família.
Bem, eu tinha ganhado a escola, a família, perdi alguns falsos amigos, o marido foi embora, a APAE nos acolheu com todo carinho do mundo e... eu me sentia sozinha. Não há acolhimento para as mães, não existe na minha cidade um grupo de borboletas de asas coloridas para dizer umas às outras: não estamos sós, unidas somos fortes. Juntas, podemos vencer o mundo que nos olha com desdém. Bem, talvez hoje exista esse grupo, o que não era o caso há catorze anos. Quem me salvava de mim mesma era meu próprio filho, e a literatura fez o seu papel na minha vida. Como sempre, expurguei meus demônios criando enredos e destilando as raivas e frustrações em arquivos do word. Uma das obras em que deixo isso explícito, é a série Eclipse Sagrado, onde coloco pequenos deuses, incompreendidos e invejados, como autistas, pois é exatamente assim que o mundo se comporta diante dessas belíssimas criaturas.
Os livros da série Eclipse Sagrado foram como a sutil fortaleza de uma mãe superprotetora contra o mundo cruel... e eu queria xingar muito mais agora, porém, já passei dessa fase. Hoje, simplesmente aplico a terapia do “Dane-se”, porque o mundo me cansa. É como se, cada vez mais, eu adentrasse em longos passos no mundo do meu filho e deixasse este para trás, porque a crueldade é estafante. Dá preguiça até de discutir. Simplesmente me fecho e deixo minha vida fluir por uma vereda mais serena. Ainda assim, como um espólio de guerra, um brinde às borboletas de asas coloridas, deixarei alguns trechos dos livros para o nosso puro deleite de uma vitória contra os inexoráveis humanos de mentes fátuas.
Os professores atuavam como amebas, afinal, não se mostravam como os profissionais capacitados que se declaravam. A paciência dos mestres atingia nível zero quando precisavam trabalhar em prol do aprendizado, levando-os a classificar o coeficiente intelectual de Alec como, pejorativamente, inativo. Diagnosticado como autista, o menino sofria com o preconceito e a incompreensão do mundo ao seu redor. A falta de informações transformava a condição de Alec em algo parecido com doença altamente contagiosa. Os pais afastavam as crianças de sua companhia, e relacionar-se de qualquer forma com o aluno “retardado” teria um penoso castigo como consequência.
Contrariando a opinião alheia, Letty enxergava a inteligência extraordinária do filho. Alec resolvia equações matemáticas de forma rápida, mental e precisa. Certa dificuldade curiosamente se apresentava quando o menino se embrenhava na selva de letras de uma leitura. Contudo, jamais decepcionava sua mãe, atingindo o objetivo esperado ao desbaratar corajosamente os obstáculos impostos das palavras.
Somente a prole de dois mystikals seria considerada como excepcional na Sociedade dos Homens. E Letícia era a princesa daquele reino, vivendo em um mundo que não lhe pertencia, que não a entendia, que a considerava – de certa forma – insana. Alec não era diferente. Pior ainda, seu sangue tinha um poder redobrado. Se os humanos taxavam a filha de Daniel Lopez como louca, o que diriam do pequeno Alec, seu neto? Ora, o óbvio. Quando a sociedade não compreendia e não aceitava a existência de um pequeno deus em seu meio, simplesmente o declarava como doente mental. Para esses desprovidos de sensibilidade, era mais fácil classificar a perfeição plena como um erro genético que acatar a única e certa verdade: os humanos eram inferiores e ridículas criaturas diante de divindades ocultas pelas máscaras impostas. Autistas... Portadores de diversas síndromes... Besteira! Eles eram divindades incompreendidas pelo mundo imperfeito dos relés mortais.
Em sua empreitada de reconhecimento, deparou-se com filhos híbridos das divindades aliadas de Dominus e Mysti. Jovens renegados, perdidos na Sociedade dos Homens. Suas idiossincrasias eram refutadas com asco. As particularidades que os tornavam belos e exímios foram tratadas como doenças. Habilidades físicas e mentais foram diagnosticadas como autismo. A dificuldade de interação – provocada por essas mesmas divergências – foi registrada como “Síndrome de Asperger”. Talentos jogados no lixo, porque os humanos tinham a estranha mania de se colocarem acima de tudo e de todos; um complexo de superioridade que os levava a menosprezar aqueles que eram infinitamente melhores que sua composição defeituosa. Por eles, Darken faria de sua curiosidade uma missão. Batalharia em prol dos renegados.
Confuso? Talvez... Afinal, os mystikals jamais seriam criaturas de fácil entendimento. O fato era que Darken faria usos e frutos de seus poderes em um universo que não lhe pertencia, mas que estava disposto a conquistar. E seu primeiro passo foi adentrar oficialmente na Sociedade dos Homens. Por meios ilícitos, conseguiu a carteira de identidade, assumindo o nome de Daniel Lopez, suposto filho de Baltazar e Dolores. Com o documento em mãos, obter um trabalho foi tarefa fácil. Não era algo deslumbrante, porém, aquilo lhe bastava. Afinal, galgaria degrau a degrau para alcançar os objetivos que tinha tramado em mente. Sim, Darken conhecia mistérios que os humanos jamais sonhariam conquistar.
Meu filho é minha nova era, é meu novo mundo, meu Mistikal. Foi por ele que lutei, foi por ele que me desfiz de mim mesma e aceitei essa viagem perfeita. Agradeço a ele por sua existência. Não é meu filho quem precisa de mim, eu que sou uma eterna dependente do seu amor. Eu te amo, Juninho, meu Pequeno Príncipe ♥

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