"Com os mediadores é diferente. Nós vemos fantasmas, falamos com fantasmas e, se necessário, podemos perfeitamente dar um ponta pé no traseiro de um fantasma".
FICHA TÉCNICA
• Título: A Terra das Sombras
• Autora: Meg Cabot
• Série: A Mediadora, Volume 1
• Editora: Galera Record
• Edição: 2000
• Páginas: 288
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.01068.71.2
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Clóvis Marques
SINOPSE: Suzannah seria uma adolescente como todas as outras, se não tivesse um dom especial: a capacidade de ver fantasmas. Ela é uma mediadora, uma pessoa que tem como missão ajudar essas almas penadas a descansarem em paz. E isso significa... problemas. Como explicar à mãe ou aos professores que suas travessuras noturnas foram provocadas por assombrações? Quando a mãe se casa pela segunda vez e se muda de New York para a ensolarada Califórnia, as coisas parecem que vão melhorar. Mas, ao chegar lá, Suzannah percebe que a nova família mora em uma casa antiga. E, é claro, assombrada. Só que, dessa vez, é um fantasma bonitão que nada faz para assombrá-la. Muito pelo contrário... Os problemas dela, porém, não estão no lar, e sim na escola. Lá, o espírito de uma garota, que se matou por causa do namorado, ameaça a segurança de todos. Só Suzannah, com suas habilidades e poderes especiais, pode salvar os amigos e professores da fúria terrível de uma assombração com muitos poderes. A Mediadora, mais uma série de sucesso de Meg Cabot, é uma história de tirar o fôlego. A Terra das Sombras, primeiro volume das aventuras de Suzannah, é cheio de ação, mistério, suspense e, é claro, muito romance. Pois, por mais que ela seja uma mediadora, com poderes sobre o mundo dos mortos, seu coração bate mais forte na presença concreta de um garoto atraente, inteligente, gentil e de carne e osso.
"Às vezes, a única maneira de fazer alguém ouvir é com os punhos".
ASPECTO FÍSICO: A capa tem uma simplicidade elegante, mostrando apenas parte do rosto de uma jovem, com destaque para os lábios rubros, enfatizando a ousadia da protagonista. O nome da série, em fonte rebuscada, tem os aspecto vermelho metálico sobre o acabamento brilhoso. O título do livro, bem como o nome da autora, seguem em singelo branco, que, de certa forma, ganha seu glamour sobre o fundo negro. A contra capa é simples, sem poluição visual, apenas um quote do enredo, chamando a atenção de quem anseia por ler. O destaque maior fica para a lombada, que, tal como a capa principal, tem o nome da série em letras metálicas, chamando a nossa atenção quando colocado na prateleira. A peça é pequena, 288 páginas em formato clássico, 14 X 21 cm, adequando-se às mãos sem pesar. A brochura se abre sem quebrar, sem soltar as páginas. O miolo foi confeccionado em papel off-White antirreflexivo, facilitando a leitura. Com fonte em tamanho 12 e espaçamento adequado, a leitura se torna rápida. Todos os capítulos começam em páginas ímpares, dando-nos o agradável “respiro” entre uma cena e outra. Nesse quesito, tenho três observações a fazer: 1. O cabeçalho das páginas tem fontes diferentes das que estão na capa, destoando o conjunto; 2. Na diagramação, uma página parece estar com fonte diferente da outra, ou em negrito; 3. Não há travessão nas falas, e sim hifens, tornando a leitura um tanto confusa aos que se aventuram há pouco tempo pela literatura. Esses três pontos eximiram a obra de uma diagramação limpa e primorosa como o título merece.
"Não há, no céu, fúria comparável ao amor, nem há no inferno ferocidade como a de uma mulher desprezada".
ENREDO: Suzannah é uma nova-iorquina que precisa se mudar para a Califórnia após o casamento da mãe. Sua vida se transforma por completo, pois, além do padrasto, a família cresceu. Andy, o marido de sua genitora, tem três filhos adolescentes, e Suze – como é chamada por todos – tem que aprender a conviver com os jovens – patetas – que chama de Soneca (Jake, o meio-irmão mais velho), Dunga (Brad, o irmão do meio) e Mestre (David, o ruivo caçulinha da família). Em New York, sua impopularidade era um problema, um entrave no relacionamento entre Suze e sua mãe, que muito se preocupava com as idiossincrasias da menina. Em contrapartida, as coisas parecem bem diferentes – e para melhor – na Califórnia. A ousadia de Suze chama a atenção, e no segundo dia de aula, a nova aluna é eleita vice-presidente da turma. Uma vida típica de adolescente, muitos diriam... mudanças de ares, de cultura, uma nova família... tudo isso poderia ter contribuído para a súbita popularidade de Suzannah Simon. Porém, é exatamente o que ela esconde que a torna diferente: Suze é uma mediadora, ela vê, conversa e, se for preciso, desce o cacete nos mortos. Sempre acreditou que era a única no mundo com essa maldição, como ela mesma costuma chamar. Na nova escola, a garota descobre que o diretor, padre Dominic – um simpático e gentil senhor –, tem o mesmo talento, porém, com um nível de mediação diferente. Enquanto o padre Dom opta pela empatia e por uma conversa persuasiva com os espíritos mais rebeldes, Suze prefere usar os punhos – e exorcismo brasileiro, em último caso, fato que nos rende cenas divertidíssimas. – E são exatamente esses opostos que unem padre Dom e Suze como a nova dupla dinâmica para livrar Carmel/Califórnia dos desencarnados malignos. Sim, temos muitas aventuras com uma das mais cativantes e divertidas personagens da literatura. E, para nos arrebatar de vez na trama, a autora nos presenteou com um latino sedutor... e desencarnado... que decidiu perturbar a paz de Suze, tornando-se um guardião que a envolve em pensamentos bem platônicos.
"Ele piscou com aqueles enormes olhos negros. Suas pestanas eram mais longas que as minhas. Não é sempre que dou de cara com um fantasma que também é uma graça, mas aquele cara... Caramba, ele devia ter sido uma graça quando vivo, pois, ali estava ele, morto, e eu já queria adivinhar como eram as coisas por baixo da camisa branca que usava, bem aberta, mostrando um bocado do peito e até um pouco do abdômen".
ESCRITA: Fugindo dos padrões em voga e mantendo a moda do sobrenatural, Meg Cabot nos presenteou com uma história rica, divertida e, de certa forma, inovadora. A protagonista – Suzannah, ou apenas Suze, para os íntimos – é uma adolescente estudante. “Clichê”, podemos pensar. Porém, ela não faz a mocinha frágil e desesperada para conquistar o amor do rapaz mais popular da escola – no caso dos sobrenaturais, um vampiro. Porém, tratando-se de Meg Cabot, nada é ortodoxo. – Pelo contrário, Suze é osso duro de roer e não leva desaforo para casa. Como a narração é feita em primeira pessoa, os comentários sarcásticos são divertidíssimos, e os apelidos que a personagem guarda em sua mente – e que somente nós podemos conhecê-los – são os pontos altos da escrita bem humorada de Meg. Afinal de contas, do que se trata a série? Bem, conforme mencionei acima, a autora se mostrou tão rebelde quanto sua personagem. Então, invadindo a mente de Meg, creio que, certamente, encontraremos a questão: Por que escrever sobre vampiros e lobisomens – extremamente clichê –, se eu posso criar uma personagem que interage com... Fantasmas? Exatamente isso: fantasmas! E, para variar, mantendo sua rebeldia em altos níveis, a autora não criou um príncipe encantado loiro de olhos azuis. Não... Para arrebatar de vez a mente das leitoras, Meg Cabot criou um fantasma sedutor, latino, de traços fortes e uma morenice de tirar o fôlego – caindo perfeitamente como uma luva aos nossos pensamentos brasileiros mais lascivos, estereotipados em um moreno alto, bonito e sensual, se é que me entendem... Já expressei as idiossincrasias da protagonista, uma adolescente forte, determinada e impulsiva. Nada de fragilidades e prantos mimados – e desnecessários. – Suze não é dramática, a maturidade lhe alcançou cedo. Afinal, além da morte prematura do pai e da nova união da mãe – que lhe acarretou uma mudança de estado e o fardo de três irmãos adotivos –, ela teve que lidar, desde a mais tenra idade, com seu dom: mediar as almas desencarnadas que insistem em não cruzar o Cabo da Boa Esperança. Porém, isso não a impede de fazer besteiras vez ou outra. Jesse, o nosso fantasma latino e sedutor, parece ter a deliciosa bipolaridade. No entanto, retiro a culpa dos seus ombros. Interagir com uma adolescente humana, mediadora e marrenta, não é uma tarefa das mais fáceis – sem contar o fato de que Jesse não pertence ao mesmo século, sendo que seu falecimento ocorreu há mais de cento e cinquenta anos, em uma época em que os homens eram educados, cavalheiros que cortejavam suas damas respeitosamente. – Dessa forma, o sedutor príncipe desencarnado toma para si a tarefa de proteger a desmiolada Suze, que insiste em usar métodos nada ortodoxos nas suas mediações. Padre Dominic é outra figura importante do enredo. Diretor do colégio onde Suze foi matriculada na Califórnia, o monsenhor Dom também é um mediador – o primeiro que a protagonista encontra em toda sua louca carreira sobrenatural. – Paciente, padre Dominic tenta ajudá-la a exercer seus talentos de maneira ética, primorosa e bem sucedida. Ou seja, o pobre homem tenta convencer Suze a não chutar os traseiros ectoplasmáticos dos fantasmas e a não exorcizá-los com macumba... Macumba brasileira, para ser mais específica! David, chamado de Mestre pela protagonista, é o mais novo dos três filhos de Andy, padrasto de Suzannah. Extremamente inteligente, David é atencioso com a nova irmã, conquistando-a com suas idiossincrasias e gentilezas. O garotinho ruivo também é enigmático, sendo que é diferente dos irmãos mais velhos não apenas na aparência, mas, também, na personalidade. Como se trata de uma série, a autora, sabiamente, deixou o mistério no ar, guardando o segredo de David para ser revelado nos próximos volumes. Resumindo: Temos um livro com linguagem coloquial, estilo adolescente anos 90, com muitas gírias, citações e piadas que apenas a antiga geração conseguiria entender. Porém, a narração – em primeira pessoa – é divertida. A protagonista é ousada, mas sempre mantendo o bom humor. Logo no segundo capítulo, a autora estereotipou atitudes casuais e típicas como particularidades de uma adolescência rebelde com tendência criminosa, como o uso de piercing, orelhas furadas, esmaltes escuros nas unhas e cabelos pintados... Simples adornos, que eram mais que comuns até mesmo na década de 90, foram usados para descrever uma pessoa jovem fora do normal... por uma novaiorquina!!! Fora isso, devo dizer, Meg Cabot foi fantástica.
“Será que fantasma também faz abdominal? Era o tipo de coisa que eu nunca tivera oportunidade – ou vontade – de explorar, até então. Não que eu fosse me deixar levar por esse tipo de coisa àquela altura dos acontecimentos. Afinal, sou uma profissional”.
GRAMÁTICA: Vírgulas faltando, frases que ficariam mais elegantes com verbos conjugados no tempo correspondente, pois os verbos de ligação com os gerúndios se repetiam incessantemente, destruindo a elegância sonora da leitura. O excesso de pronomes pessoais nos mesmos parágrafos, assim como os artigos definidos antes dos substantivos próprios, nos leva a crer que a revisão apenas se adequou à tradução. Não que fosse preciso parafrasear o texto original. Longe disso... Porém, é possível traduzir e organizar as palavras com mais acuidade, sem perder a originalidade do texto. Assim como em todas as obras que vem de fora, o excesso de pronomes se repete de forma chata, sendo possível encontrar a mesma palavra cerca de três vezes na mesma frase. No inglês, tal artifício se faz necessário para dar sentido ao verbo. Porém, na língua portuguesa, podemos abrir mão do mesmo para a conjugação, ou, talvez, trocar os pronomes retos pelos oblíquos átomos, tornando, assim, o texto mais sonoro e estético. Portanto, para este pecado, coloco a culpa na tradutora e na revisora, absolvendo a autora. Infelizmente, tamanho lapso é muito frequente – e irritante. – Em determinados momentos, tive a impressão de que o texto original foi jogado no Google Tradutor, depois, copiado e colado no arquivo em português. Um exemplo disso é encontrado na página 29: "O mais que posso" = more than I can = que caberia infinitamente melhor na versão típica: o máximo que posso. Todo o conjunto dessas particularidades gerou a quebra da estética sonora da leitura em voz alta ou sibilada. Por sorte, o bom humor e as tiradas clássicas da protagonista deram o time perfeito que desanuviou o efeito desgastante acima descrito. Falando em descrição, a autora acertou em discorrer sobre as paisagens que a personagem via, citando-as com detalhes sucintos, porém, suficientes à nossa imaginação. Tolhidos, sim. Nada enfadonhos. Simples e perfeito, na medida certa.
NOTA FINAL: Bem, para findar, apesar de ser uma saga voltada aos adolescentes, recomendo a leitura para os fãs do tema sobrenatural de todas as idades. O texto é gostoso e sucinto, mesmo com o excesso de pronomes, algo que muito me irrita. Vale a pena passar algumas horas diárias – terminei a leitura do primeiro volume em menos de 24 horas – na companhia de Suze, Jesse, padre Dom, David e toda a turma californiana de “A Mediadora”. Aprovado, mais que recomendado, um dos meus preferidos!


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