“O Arcano Nove. O Eremita, a nona carta do Tarot, guia as almas dos mortos para além da tentação das fogueiras ilusórias ao lado da estrada, de modo que possam ir direto ao seu objetivo mais elevado”.
FICHA TÉCNICA
• Título: O Arcano Nove
• Autora: Meg Cabot
• Série: A Mediadora, Volume 2
• Editora: Galera Record
• Edição: 2001
• Páginas: 272
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.01068.69.9
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Ivanir Alves Calado
SINOPSE: Suzannah está adorando sua nova vida na ensolarada Califórnia. Uma festa atrás da outra, amigos e até um potencial namorado – nada menos que Tad Beaumont, o garoto mais bonito e rico da cidade. – Porém, como toda adolescente, Suzannah enfrenta muitos problemas. Um, em especial, é só seu: fantasmas que não a deixam em paz. Suzannah é uma mediadora, uma pessoa capaz de se comunicar com os mortos, resolver as pendências deles na terra e ajudá-los a descansar em paz no além. É o caso de Jesse, a assombração de plantão na casa onde Suzannah mora com a família. Jesse é um fantasma jovem, bonito, bondoso e, acima de tudo, um gato! No entanto, é inatingível. Não apenas por estar morto. Aparentemente, ele não sente qualquer atração por Suzannah – ao contrário de Tad, que logo a convida para seu primeiro programa a dois. O fato de Tad não ser como Jesse é compensado pela matéria – carne e osso. – E Suzannah se entusiasma com as possibilidades que o convite do rapaz representará para sua vida amorosa. Até que o mundo dos mortos se manifesta e complica tudo novamente. O fantasma de uma mulher assassinada não larga do pé de Suzannah – que não tem como ignorá-la. – Pior ainda, tudo indica que a morte dela está relacionada com um mistério no passado de Tad. Para Suzannah, o que parecia uma chance de amor pode significar risco de vida.
"Às vezes, a única maneira de fazer alguém ouvir é com os punhos".
ASPECTO FÍSICO: As chamas na capa, sobre o fundo negro e com a carta que leva o título do volume, estranhamente tem a ver com o enredo, ainda que de maneira sutil, e esse fato muito me surpreendeu. Quando peguei o livro em mãos, analisei o título e me questionei por que não havia ali, estampando a capa, apenas uma carta de Tarot. Mais precisamente a do Eremita, que é o Arcano em questão. Porém, ao me deliciar com o enredo, percebi que o fogo realmente tinha um simbolismo direto com a trama, tanto no sentido literal – quando a protagonista se vê em situação de perigo – quanto metafórico – enfatizando sua paixão, um tanto platônica, por Jesse. Seguindo o estilo adotado para o conjunto – e eu amo esse tipo de artifício –, o título da série surge em destaque, com fonte especial e estampada com letras metálicas e douradas, contrastando-se com os nomes do volume e da autora, em singela fonte branca – ainda assim, com o ênfase devido. – A contracapa segue a mesma ordem, fundo negro com um quote a nos incitar. E, tal como citei na resenha do primeiro volume, a lombada ganhou um adorno especial, destacando-se com fervor em nossa estante. O miolo também segue as mesmas particularidades e os mesmos lapsos anteriores: papel off-white, capítulos que se iniciam em páginas ímpares, fontes diferentes em algumas páginas – como se estivessem em negrito e, depois, em estilo normal – e cabeçalho que, além de grande demais, também usa fonte diferente da que está na capa.
“Naquele momento, de fato, minha voz saiu meio esganiçada. Geralmente é assim quando estou falando com Jesse. Com mais ninguém. Só com Jesse. O que é fantástico. No único momento em que quero parecer sensual e sofisticada, fico esganiçada. Fantástico".
ENREDO: A vida estudantil e mediadora de Suze parece ter entrado nos eixos. Tudo seguia perfeitamente bem, a garota começava a se adaptar ao novo lar, à nova família e, até mesmo, aos novos sentimentos. Sempre divertida, Suze divaga com sua alergia pelo sumagre venenoso e sobre os acontecimentos que envolviam seu meio irmão, Brad, com uma colega de escola, durante a festa na piscina de uma de suas mais populares e novas amigas, Kelly Prescott. Ao fundo, padre Dominic lhe passava um simpático sermão sobre as mediações nada delicadas de Suze com as almas penadas que cruzavam seu caminho. Sim, tudo perfeitamente normal na nova vida de Suzannah... até que um espírito a acorda no meio da noite, berrando loucamente. Levando em conta os conselhos do padre Dom e de Jesse, Suze tenta mediar a maluca desencarnada, que urra sem parar. A mulher pede para que um recado seja dado. É quando a aventura começa. Com um único nome dado pela morta, Red, Suze tenta localizar o destinatário da mensagem, deparando-se com um suposto vampiro, um empresário assassino e sem escrúpulos e com Tad, um jovem atraente que a envolve e lhe dá o primeiro beijo, despertando o ciúme de Jesse. Em meio a tudo isso, outros espíritos decidem importunar a jovem mediadora. Primeiro surge Tim, um garotinho que morreu de câncer e que entrega a Suze a insana tarefa de resgatar seu gato, Spike, um felino arredio e horripilante. Depois, o falecido pai de Suze aparece subitamente, cobrando-lhe cuidado ao lidar com o tal de Red e muitas explicações sobre o espírito de Jesse, que divide o quarto com a protagonista. As aventuras se desenrolam de forma divertida e empolgante, prendendo-nos ao enredo do começo ao fim.
"Esse é o estilo de Jesse. Ele aparece quando eu menos espero e desaparece quando menos quero. É assim que os fantasmas agem".
MINHAS CONSIDERAÇÕES: Conhecendo melhor os personagens, o texto flui deliciosamente. O sarcasmo latente da protagonista torna a leitura agradável, e a história prende nossa atenção. Nesse segundo volume, há uma pitada extra de figuras mitológicas. E o desenrolar da trama é realmente surpreendente! Apesar da inclusão inesperada, é interessante a abordagem que a autora usou para fantasiar tal mito e, ao mesmo tempo, desmascará-lo. Meg realmente se superou! Os desencarnados continuam sendo o principal problema da protagonista. No entanto, para quem espera por romance, terá que aguardar pelos próximos volumes, porque Meg fez apenas uma leve alusão ao adocicado sentimento. Ainda assim, para os fãs de uma boa aventura – como eu –, a autora não desaponta. Pelo contrário, Meg está sempre nos surpreendendo. A impressão que temos durante a leitura é de que estamos nos deliciando com um eclipse de Supernatural com Smallville. Sem exageros, quase atingi o nirvana quando comparei a personagem Jo – de Supernatural – com Suzannah. Agora, pasmem: Imaginem Jo como amiga da Chloe – de Smallville. – Utopia? Antes mesmo de ambas as séries existirem, Meg ousou e aplicou a ideia. Para ser sincera, não a desaprovo em nada. Nota mil em nível ninja de criatividade para Meg Cabot! Adorei a continuidade das personalidades criadas pela autora. O interessante – e um tanto difícil de encontrar nas obras voltadas ao público adolescente – é a vulnerabilidade do elenco. Suze, a protagonista, por exemplo, mantém seu sarcasmo típico. Porém, tem seus momentos de fraquezas – e burrices –, tornando-a tão real quanto qualquer um de nós. E esse é um ponto positivo de Meg Cabot, ela constrói e mantém o padrão, não sai do foco. Melhor ainda, equilibra seus personagens. Odeio ler uma trama onde a garota é a fodástica nota mil ou seu oposto, uma retardada deprimida ao extremo. Obviamente, trata-se de um enredo sobrenatural – fato que, por si, já foge por completo da realidade. – Contudo, é essa jogada que nos transporta a um universo quase tão verossímil quanto a de um romance urbano. O problema é que nem tudo é perfeito, nem mesmo em um livro... Meg pecou. Ok, um crime venial, mas de uma magnitude esmagadora. Explico: A Mediadora é uma série adolescente que já está em sua décima edição. Certamente, sua versão original deve ter, no mínimo, uns quinze anos – não sei dizer ao certo, pois não pesquisei o assunto. O fato é que as aventuras de Suze continuam em voga, e as publicações não cessam, o que nos remete ao problema em questão: os deboches da protagonista. Se uma das minhas filhas apreciasse o texto, viria confusa até mim para perguntar o que significa “Chips”, “S.O.S. Malibu” e “Supermáquina”. Uma repaginada e uma pequena atualização nos termos resolveria o lapso – apenas uma humilde sugestão de leitora e fã. – Para a época da sua criação, A Mediadora seria perfeita. No entanto, para a atualidade, chega a ser levemente confusa. Enfim, tal observação não desabona em nada o trabalho da escritora, que, conforme acima declarado, é maravilhoso e surpreendente. Extremamente recomendado! Passando rapidamente para citar o título desse volume, o Arcano Nove é a carta do Eremita no Tarot de Marselha. No livro, por meio de uma correspondência de Gina, melhor amiga de Suze, o arcano é dado como aquele que conduz as almas dos desencarnados pelo rumo certo. Tecnicamente, o Eremita seria um mediador. E não estou aqui para dizer que qualquer citação pagã é certa ou errada, até porque desconheço qualquer verdade como absoluta. Porém, pela minha perspectiva, O Eremita tem outro significado, que, de certa forma, não foge tanto dos padrões citados no livro. Resumindo, apenas para encerrar sem mais delongas, o Eremita é um sábio recluso, em busca de sabedoria por meio do autoconhecimento, iluminando seu próprio caminho passo a passo, um por vez, sem atropelar a jornada.
“E aquele cara, que podia ou não ser um vampiro, mas que, certamente, era responsável pelo desaparecimento de um bocado de gente, estava solto por aí”.
GRAMÁTICA: A escrita, ainda mantendo a linguagem coloquial, com tiradas divertidas, em conversa direta com o leitor e muitas gírias, melhorou muito. Posso dizer que, dessa vez, ficou nítido que as equipes de tradução e revisão decidiram trabalhar em união, gerando um texto elegante, carismático e sonoro. O problema de excesso de pronomes e palavras repetitivas persiste nesse segundo volume, destruindo – em minha opinião – a riqueza original da obra. E, novamente, culpo a tradutora, Ivanir Alves Calado – que deveria mesmo permanecer, no quesito revisão, tal como seu sobrenome sugere. Ok, fui rude. Encontrei algumas palavras erradas. Porém, como não anotei o número das páginas onde as mesmas aparecem, vamos deixar como erro de digitação. Vida que segue. O que realmente nos importa é a trama da autora, e isso é um deleite aos amantes da literatura.
NOTA FINAL: A trama de A Mediadora é tão instigante que nos arrebata de uma forma inexplicável, conduzindo-nos àquele mundo, viciando-nos até que não queiramos mais desertar do universo de Suzannah Simon. A leitura flui, é rápida, deleitosa, sublime. Não há uma só página enfadonha, pois a protagonista está sempre nos arrancando risadas ou acelerando nossos corações em suas aventuras. E Jesse... bem... eu queria um Jesse exclusivamente para mim. Novamente, recomendo, aprovo, ovaciono, aplaudo.


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