quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Crônica: Pôr do Sol

 


Ela estava sentada entre amigos e, estranhamente, para uma pessoa que já havia abolido qualquer tipo de romance na vida, esperava por ele. Essa viagem tinha o trabalho como foco principal. Porém, quando deu por si, já estava com os olhos fixos em alguém especial.

Logo ele chegou, e seus olhares se cruzaram em uma mágica surreal e bela. Sorrisos foram trocados e, com eles, disseram o que palavras não conseguiriam revelar.

Um movimento sutil com a cabeça, e ela já aceitava o convite para um passeio de moto, uma aventura, um romance de verão... Seu coração se acelerava, não por medo da moto ou da viagem, e sim pelo fato de não saber o que iria acontecer.

Belas paisagens pintavam o quadro desse romance e, à beira do mar, ele estacionou. Carinhoso, pegou sua mão e a encaminhou até o píer. Sentaram-se e nada haviam dito, apenas olhares e sorrisos. Assim que viu o pôr do sol acontecendo, ela entendeu porque o momento dispensava palavras, entendeu o que era ser livre e o motivo da sua existência... Teve que viver para testemunhar a mais bela despedida do sol, que abria caminho para a linda lua cheia que já despontava ao longo do céu escurecido.

Trocaram mais um longo e profundo olhar e, sem que percebessem, suas bocas se encostaram; um beijo tão suave quanto a brisa que tocava em sua pele. Arrepios denunciavam a vontade de ir além, porém, suas mentes prendiam os desejos dentro da prudência. Não sabia o seu endereço, e nem ele sabia o dela. Mas o encontro de mãos entrelaçadas os avisava que isso não era necessário naquele momento. Apenas sorrisos tímidos, olhares profundos, carinhos intensos e o encontro das bocas era o que realmente importava.

— Não vá – ele disse por fim.

— Eu preciso – a moça sussurrou triste.

— Só mais uma semana contigo?

— Apenas isso – ela respondeu, com a tristeza antecipada de uma partida, de deixar um local que a fez se apaixonar por sua beleza, e novos amigos que sempre a fariam feliz. – Vim trabalhar, e não decidir meu destino. Aqui não é meu lugar, não é onde minha vida funciona.

— Não deixaria tudo?

— Depende – declarou tímida e dando de ombros.

— Do quê?

— Do motivo que me fará retornar.

— Então, voltará? – insistiu.

— Pode ser. – E outro sorriso escapou dos seus lábios.

— Voltaria por mim?

— Voltaria por todos.

— E se eu fosse contigo?

— Chega de sacrifícios em sua vida – a moça sibilou distraída –, vamos apenas viver, curtir sem compromissos, sem romance, sem nada a ser dito.

E seus olhos castanhos se aprofundaram nos dela, com um toque de decepção e tristeza. Nada podia ser feito, mas o momento mágico e belo não seria quebrado, apenas teriam um ao outro ali, enquanto uma nova noite e seu sereno gelavam seus corações; antes quentes pela paixão; agora, frios com a tristeza da partida. Um momento que jamais seria esquecido e que, com certeza, a traria de volta.

— Vamos, minha paixão – ele disse, depois de outro beijo gostoso –, nosso sol já se pôs. Agora, somos você e eu. Essa lua não me agrada, enquanto ela não disser que você é minha.

— Jamais serei tua, anjo. Podemos nos conhecer, mas o destino colocou muitas horas de viagem entre nós.

— Mas as horas passam, e o tempo muda – ele declarou de um jeito esperançoso e brincalhão.

— É verdade... As horas passam, e o tempo muda – ecoou suas palavras, com um sorriso maroto.

— E o que é agora, pode não ser amanhã.

— E o que o amanhã nos reserva, pode ser uma surpresa – ela completou.

E nada mais foi dito. Porém, ambos sabiam que esse momento seria eterno, pois era a mais linda visão dos olhos de dois bobos encantados pelo desconhecido mundo de uma paixão de brincadeira, de uma brincadeira de felicidade, de uma fumaça de alegria que começava a se dissolver naquela semana... Mas esse era só o primeiro pôr do sol em Porto Alegre. Porque ele sempre estaria lá para recebê-la de braços abertos em seu amor...

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