“Em primeiro lugar, com poucas exceções, normalmente os mortos não têm nada muito interessante a dizer. E, em segundo, eu não posso andar por aí, contando vantagens aos meus amigos sobre esse talento incomum”.
FICHA TÉCNICA
• Título: Reunião
• Autora: Meg Cabot
• Série: A Mediadora, Volume 3
• Editora: Galera Record
• Edição: 2001
• Páginas: 272
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.01068.70.5
• Gênero: romance sobrenatural/literatura juvenil
• Tradução: Ivanir Alves Calado
SINOPSE: É primavera, e tudo o que Suzannah deseja é aproveitar o tempo com sua melhor amiga, Gina, que veio de Nova Iorque para visitá-la. No entanto, a vida de uma mediadora não pode ser tão tranquila assim... Suzannah tem o dom de ver e falar com os mortos e o dever de ajudá-los a resolver as pendências deste mundo para que descansem em paz. Em um dia quente, eles estão comprando um refrigerante, quando Suzannah percebe quatro jovens vestidos em roupas de gala. Ninguém mais pode vê-los, pois são fantasmas. Os adolescentes – conhecidos como “Anjos da RLS” (escola Robert Louis Stevenson) – morreram em um acidente de carro quando retornavam de uma festa de formatura. Logo, Suzannah descobre que o apelido “Anjos” não poderia ser menos apropriado. Uma série de acontecimentos sinistros coloca em risco a vida de Michael Meducci, um nerd da sua turma envolvido no acidente. Para protegê-lo, Suzannah precisa se aproximar e fingir que está apaixonada... Justo ela, que só tem olhos para Jesse, o fantasma bonitão que mora em seu quarto. Os quatro desencarnados e Michael darão muito trabalho à mediadora. Até que Suzannah consiga resolver mais esse caso e fazer com que os “Anjos” sigam seu caminho, ninguém estará seguro – nem mesmo ela, seus irmãos e Gina.
"Não é fácil para os fantasmas levantar coisas, mesmo coisas relativamente leves. É preciso um bocado de treino. Conheço fantasmas que são bons em chacoalhar correntes, jogar livros e até coisas mais pesadas - em geral contra a minha cabeça, mas isso é outra história".
ASPECTO FÍSICO: Ainda mantendo o estilo adotado para as capas da série, essa é uma das mais bonitas e elegantes. Ao primeiro momento, imaginamos que o casal da capa representa a protagonista e seu adorável fantasma, Jesse. Mas logo nos lembramos da descrição que Suze faz de si mesma, ela não é loira, e sim morena. Então, quem seriam? Amo quando as imagens de capa têm tudo a ver com o enredo. E, sim, o casal da capa faz parte do enredo... mais precisamente, do elenco dos desencarnados. O título da série, centralizado, destaca-se com as letras azuis metalizadas, um anil que segue o mesmo tom do vestido da moça. Nome da autora acima, e do livro, abaixo. Tudo simples e elegante, com muito bom gosto. A contra capa com apenas um quote e o código de barras, sem poluição visual, o básico reina, deixando, mais uma vez, a lombada em destaque, brilhando em nossa estante. O miolo, confeccionado em papel off-white, segue com a mesma diagramação – e os mesmos problemas com as fontes, citadas em resenhas anteriores. Portanto, não vou me estender aqui.
“Eu era a única mediadora em todos os cinco distritos de Nova York. É muito fantasma! Aqui, pelo menos, eu tinha o padre Dom para me ajudar de vez em quando".
ENREDO: Gina, a melhor amiga de Suze, vem de New York para visitá-la, para o desespero de Jesse – nosso fantasminha camarada e bem sedutor –, que não fica nada feliz em dividir seu quarto – e a companhia de Suze – com a “intrusa”. Em uma cena cômica, quando Gina fala que o gato adotado por Suze – Spike, o xodó de Jesse – é horroroso, ela sente a fúria sobrenatural do latino sedutor ao ver seu esmalte verde voar da penteadeira e cair sobre sua mala de roupas, estragando muitas das peças. Enquanto Gina se divide com as paqueras trocadas com Soneca (Jake) e Dunga (Brad), Suze busca entender o mistério que envolve os quatro jovens espíritos que rondam Carmel e um dos seus colegas de classe. Um acidente entre dois carros ceifou a vida do quarteto, enquanto Michael sobreviveu, com apenas duas costelas quebradas. Aparentemente assustado com tudo, Michael se mostra desolado com o ocorrido e infinitamente entristecido por sua irmãzinha em coma. Compadecida com o jovem, Suze o defende das investidas debochadas e agressivas de Brad – Dunga, seu meio-irmão. – É quando a merda se desenrola, porque Michael gruda em Suze como chiclete na sola das suas botas, seguindo-a por todos os cantos. Fato que, de certa forma, o coloca em segurança, pois as quatro vítimas do acidente estão realmente determinadas a exterminar a vida de Michael. Ainda que a contragosto e ciente de que precisa protegê-lo, Suze decide passar mais tempo com o nerd desengonçado da turma, é quando a versão Superman surpreende a protagonista e suas melhores amigas, Gina e Cee Cee. Na praia, Michael expõe o tórax, revelando muito mais que um nerd desengonçado, e sim um cosplay de Clark Kent digno de ser adorado por seu físico escultural. Se isso fosse a solução dos problemas, a vida de Suze estaria totalmente resolvida. O fato é que um atentado à vida de Brad quase extermina a existência de todos os jovens da família. O carro de Soneca tem a mangueira do fluído de freio cortada, um acidente causa um estrago considerável ao Rambler, mas, por sorte, eles – Jake, Brad, David, Suze e Gina – sofrem apenas alguns arranhões. Ao investigar os fatos, Suze descobre que isso não foi exatamente a ira dos desencarnados, e sim uma tramoia sem escrúpulos de um vivo invejoso. Nada era o que parecia ser, e a aventura começa.
"Uma coisa tenho que admitir sobre o oceano: lá embaixo é bem calmo. Verdade. Sem gaivotas gritando, ondas estourando, berros dos surfistas. Não, embaixo do mar é só você, a água e os fantasmas que estão tentando te matar".
ESCRITA: Com muitas surpresas, o desenrolar da vida fictícia de Suze foi bem empolgante. Houve, até mesmo, uma alusão a Clark Kent – identidade secreta do Superman. – E, para apimentar as coisas, a protagonista não teve que despachar apenas um fantasma irritante, e sim quatro desencarnados embevecidos de raiva e, de quebra, um humano assassino que posava de santo. Piorando a situação da pobre Suze – nem tanto, afinal, de pobre ela nada tem –, a mediadora precisou encenar um tom apaixonado que não se encaixava com o que realmente se passava em seu coração. Bem, ela estava apaixonada, mas não pelo imbecil em questão – sim, dona Suzannah entregou sua vida passional a um falecido. Contudo, estou fugindo dos spoilers. Portanto, se alguém deseja saber do que falo, sugiro que leia a série. Garanto que não haverá arrependimentos. Repleto de ação – ouso dizer que “A Mediadora” tem certa ligação com a série televisa “Supernatural”, sem dispensar o sarcasmo dos personagens nem as encrencas constantes em que os mesmos se envolvem (descartando por completo o plágio de uma parte e de outra) –, o texto faz apenas uma pequena referência ao romance – fato que, de certa forma, me agrada. Com uma carga de mistérios intrigantes, a obra instiga o leitor ao raciocínio e, a cada desvendar, uma gama de exclamações permeia nossas mentes. É realmente incrível o desenrolar dos fatos sobrenaturais agindo em coerência com as explanações da protagonista e seus assistentes – no caso, padre Dom e Jesse, o fantasma sedutor. – A reverência inteligente da autora é digna de aplausos, bem como sua capacidade de criar uma história tão deliciosa em cima de um tema difícil – tanto na aceitação dos leitores como na construção de enredo verossímil, apesar dos pesares. – Fico realmente feliz em apreciar uma série em que os personagens se mantêm constantes. Já li obras em que, creio eu, os autores se perderam durante a escrita e transformaram seus heróis em verdadeiros babacas retardados. Graças aos céus, tamanho lapso não ocorre nessa série. Veja bem, uma coisa é o protagonista passar por uma fase difícil na ficção, afinal de contas, até mesmo nós, meros mortais, nos deprimimos. Outra, bem diferente, é mudar da água para o vinho de um capítulo para o seguinte. Meg colocou seus personagens em pleno equilíbrio, conservando suas idiossincrasias do início ao fim. Obviamente, há aqueles que enganam com suas aparências, posando de bons moços. No entanto, isso é aceitável, compreensível e instigante, enriquecendo o texto com o fator mistério/surpresa. Algo que muito aprecio nos “filhos” de Meg Cabot são suas vulnerabilidades. Suzannah, por exemplo, não é cem por cento “fodástica”. Ela comete erros, e tais erros a levam a situações embaraçosas. No caso do padre Dom, volta e meia ele se vê compelido a acatar as sugestões da pupila – mesmo que não concorde plenamente com os métodos de mediação por Suze usados. – Nesse terceiro volume, a autora explorou um pouco mais a personalidade dos secundários, como Jake – chamado de Soneca pela meia-irmã. – O rapaz se mostra cuidadoso – e até um tanto ciumento – com Suze, e não se envergonha em declarar o carinho que sente pela nova esposa de Andy, seu pai. Adorei conhecer Jake nessa perspectiva, foi bom saber que, apesar de parecer um cara lindo e atlético, o jovem tem personalidade e atitudes – que seriam aprovadas pela maioria das mocinhas. – Ou seja, Jake não é somente um rostinho bonito em um corpo envolto em músculos – mesmo que só descrito em palavras, porém, minha mente é excessivamente fértil para imaginá-lo como Justin Hartley –, mas um jovem universitário trabalhador com objetivos atingíveis. Novamente, Meg Cabot é digna de aplausos.
“A mente humana é capaz de qualquer coisa para acreditar em tudo, menos na verdade: que pode haver alguma outra coisa lá fora, algo inexplicavelmente... algo que não é exatamente normal. Algo paranormal”.
GRAMÁTICA: Apesar do vocabulário mais rico e elaborado, o problema encontrado nos dois primeiros volumes persiste. Dessa vez, os erros de pontuação se tornaram a irritação maior, sendo que é terrível desfrutar de uma boa trama quando as vírgulas estão fora do lugar. No entanto, creio que, infelizmente, esse deve ser o lapso da moda, pois vejo que todas as editoras nacionais insistem na péssima tradução, adaptação e revisão. Como tive a oportunidade de apreciar a obra em seu idioma original, antes de pegar o exemplar traduzido, digo que minha crítica aqui envolve apenas a equipe brasileira de edição. Portanto, o talento da autora não deve ser desabonado. Aliás, venho criticando apenas de forma construtiva. As editoras comerciais são as que mais se empenham no trabalho editorial, enquanto as prestadoras de serviço – aquelas que os autores pagam fortunas para publicar seus escritos – são as mais relaxadas, sendo que deveriam ser as mais empenhadas, afinal, recebem por isso. No caso da Galera Record, eu realmente não sei o que está acontecendo, não vejo esforço, os erros persistem, principalmente nos best sellers. Nesse ponto, a Intrínseca dispara, mantendo seu lugar no topo. Enfim... para completar, na página 50, no último parágrafo, encontrei a palavra: "instilar" = erro de digitação? Também pensei que fosse. Porém, ao pesquisar no Google, descobri que a palavra existe, está correta. Instilar significar aconselhar, encaminhar ou estimular. Vivendo e aprendendo... A Mediadora é pura cultura!
NOTA FINAL: Usando um meme antigo: estou digitando com os pés, pois as mãos estão ocupadas, aplaudindo. Como sempre, recomendo a série. E não apenas para os curiosos sobre o tema, como, também, para os que desejam explorar um mundo fantasmagórico extremamente divertido... e romântico!


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