quarta-feira, 30 de agosto de 2023

Resenha: Anjo Negro

 


"O grunhido de sua voz ecoava como o som de vários trovões. Por algum motivo que desconhecia, consegui entender claramente tudo que estavam falando".

FICHA TÉCNICA
• Título: Anjo Negro
• Autora: Mallerey Cálgara
• Editora: Novo Século/Novos Talentos
• Edição: 2011
• Páginas: 208
• Formato: 14 X 21 cm
• ISBN: 978.85.7679.530.8
• Gênero: romance sobrenatural
• Revisão: Aline Naomi

SINOPSE:
 Na antiga Londres do Século XVII, rondava um boato que as ruas noturnas eram tomadas por seres devoradores de almas, os Parasitas, e que os Potestades tinham o dever de recolher essas almas e encaminhá-las para o descanso. Para cada dez mil almas recolhidas, uma era resgatada do Umbral. Poucas pessoas conseguiam ver esses seres, apenas aquelas que possuíam um poder espiritual altíssimo e, dentre elas, estava alguém que passou a ter sua humilde vida transformada, quando não acreditou nos boatos e passou a circular à noite nas ruas da cidade. Até onde você iria para salvar a pessoa que ama? Até que ponto se sacrificaria e tudo porque você lutou e acreditou? Para muitos, quando tudo parecia ser o fim, para Darian foi apenas o início. Filho de um anjo que se apaixonou e se envolveu com um humano, e após ser transformada em mortal, comete suicídio. Com a passagem livre entre os dois mundos, Darian recebe uma proposta do arcanjo Miguel de recolher dez mil almas que querem ser salvas e colocá-las em uma caixa angelical. Ele vê nessa proposta um meio de amenizar o sofrimento de sua mãe, que se encontra no Vale dos Suicidas. Contando com a ajuda do seu anjo da guarda, Hadji, ele parte em sua jornada de aprendizagem, mas com grandes conflitos e indecisões. Porém, não apenas os anjos do bem o observam, e uma nova proposta de maior peso lhe foi feita por Iblis, o senhor dos infernos: “Apenas dez mil almas simples, comuns, por uma especial, uma troca justa”. Cabendo somente a ele tomar a decisão de não lhe entregar a caixa ou de salvar sua mãe e se tornar um anjo negro.

“Era noite de lua cheia, e ela, com toda sua beleza e magnitude, clareza a rua vazia, onde a fina e gélida névoa da noite eriçava até mesmo os pelos daqueles que viajavam através da película que separava o mundo real do espiritual”.

ASPECTO FÍSICO: Com acabamento fosco – o que era uma novidade elegante à época da publicação –, o livro estampa, de forma quase imperceptível, um rapaz de costas, com uma asa de cada cor: a direita é vermelha, e a esquerda, azul. As cores realmente nada têm a ver com o enredo, porém, dá para compreender a discrepância vivida pelo protagonista, o calor da consciência limpa por fazer o que é certo (vermelho) ou a frieza de ceder à proposta das trevas (azul). Sobre o fundo negro, em fonte simples, o título do livro, tendo o nome da autora, na mesma simplicidade, centralizado no alto, tudo em letras brancas. O selo da editora fica no canto inferior esquerdo. Na contracapa, apenas um sombreado enfatizando o azul e o vermelho, também sobre o fundo preto, adornando um trecho específico da obra. A diagramação é simples, limpa, sem poluição visual. O resultado é uma peça pequena, singela, enfatizando o verdadeiro valor: o texto.

“A vida que eu conhecia estava mudando diante dos meus olhos, como tudo a minha volta que estava ficando para trás”.

ENREDO: Alan é um jovem médico de vinte anos, ruivo, que atendia, com amor e esmero, o máximo de pacientes que podia, vítimas da peste negra. Do alto, um anjo o observava e começou a ajudá-lo sempre que podia, assumindo a forma de uma enfermeira... até que se apaixonou por Alan e, influenciada por um dos caídos, Kesabel, esse anjo pecou, recebendo o pior dos castigos: tornar-se uma humana. Foi assim que, casando-se com Alan, gerou Darian, um Neefilins. A existência de Darian chamou a atenção de alguns demônios, como Belial, que começaram a atormentar Bridget – anjo que gerou Darian –, ao ponto de enlouquecê-la. O marido passou a lhe ministrar fortes medicamentos para controlar a suposta insanidade da esposa. Por alguns anos, tudo deu certo. Porém, no único dia que Bridget esqueceu de tomar o remédio, outro demônio surgiu para lhe apurrinhar a vida: Pazuzu. Desesperada, Bridget se lançou contra coche, sendo pisoteada pelos cavalos e morrendo de forma trágica. Sua decisão suicida a impediu de ser resgatada pelos Potestades, e Bridget foi condenada ao Vale dos Suicidas, revivendo o terror e as dores da sua morte por uma eternidade, bem como a culpa de deixar o marido e o filho desprotegidos. Anos depois, Darian já é um rapaz, que não se nega em ajudar o pai a cuidar dos irmãos mais novos e da clínica. Um pesadelo o desperta de chofre no meio da noite. É a partir desse momento que a vida de Darian muda drasticamente. Como um viajante entre mundos e sem nada entender, o jovem se vê pelas ruas de Londres em circunstâncias anormais, com cenas chocantes que o fazem duvidar do caminhou que pegou para chegar a sua casa. Em busca de respostas, Darian segue até a fábrica abandonada que viu em seus sonhos. Lá, depara-se com a mesma garota, mas não tem tempo para conversas, pois um demônio surge, obrigando a menina a lutar. Atordoado com tudo, Darian desmaia. Quando acorda, está em um belíssimo lugar, quase um paraíso, chamado de Colônia. Ali, Darian tem a oportunidade de conversar com a menina, obtendo algumas respostas, descobrindo que o nome dela é Hadji, que é um anjo guerreiro da classe dos Potestades, e guardiã oficial de Darian. Assim que Hadji o revela como Neefilins, Darian fica confuso e não aceita tal informação, pedindo para voltar, acreditando que Hadji pegou a pessoa errada. De volta à fábrica, um portento sutil de Hadji, ela insiste em explicar a Darian sobre sua ascendência, os fatos que aconteceram com sua mãe e o que tudo isso tem a ver com ele. Quando Darian lhe mostra a caixa misteriosa que recebeu, acreditando ter sido entregue por Hadji, ela nega. Nesse momento, surge um arcanjo... é quando a aventura começa.

“Estávamos em um lugar nada agradável, onde as pessoas pareciam definhar. Um lugar triste, sem cor, sem vida, com um ar pesado e meio embaçado, como nos tempos de inverno rigoroso, sem sol, apenas com neblina”.

ESCRITA: Linguagem coloquial, porém, elegante, sem gírias. A narração se altera, ora em primeira pessoa, pela perspectiva de Darian, ora em terceira pessoa, relatada por um narrador não tão observador, pois nota-se que está presente na história. O problema é que não há um aviso, a narrativa muda de repente, como no final da página 46 até a metade da 47, onde a narração seguia em terceira pessoa desde o início do capítulo, e muda de um parágrafo para outro, voltando a ser contado por Darian. Sem um espaçamento, sem nada... Um espaçamento seria como um alerta à mente do leitor, indicando que algo vai acontecer, seja alteração de cena ou, no caso, de narrativa. Jogarei a culpa disso nos ombros da equipe editorial; um trabalho em conjunto – revisão e diagramação – sanaria o problema. Afinal, a função da autora é criar uma história e escrevê-la. Ainda sobre a narrativa, em algumas partes, a escrita pula do passado para o presente. Opinião pessoal: todo o texto em um único tempo ficaria mais envolvente e menos confuso. Não gosto quando o tempo se altera na narrativa. No prólogo, o reino de Lúcifer é descrito com Cérbero, o cão de três cabeças, e Iblis, criatura de fogo, como guardiões do portão do inferno, uma mistura de literatura cristã, grega e muçulmana, já que Iblis é citado no Alcorão ii, 34. A autora poderia ter explorado melhor essas informações ou sincretizado ambas, fato que, infelizmente, não aconteceu. O primeiro capítulo é totalmente narrativo, sem diálogos. Porém, para quem gosta do tema, não se torna cansativo. Até porque a escrita da autora ajuda. O texto é interessante e atrativo, com palavras bem colocadas, frases construídas com elegância. No capítulo 15, o personagem cita Londres como uma das cidades mais antigas do mundo. Bem, Londres não chega nem no top 15 dessa lista, que é encabeçada por Jericó e seguida por tantas outras, como Atenas, Cairo, Beirute, Jerusalém, Argos, Sídon, Xian, Aleppo... A lista é longa, e Londres, bem distante para ganhar destaque. A autora coloca os anjos com escolha de gênero quando se materializam. Ou seja, enquanto alados, são criaturas sem gênero. Não sei até que ponto aceito esse mito, mas respeito a criação de Mallerey. O fato é que desconhecemos a verdade sobre o assunto – se é que anjos existem, eu gosto de acreditar que sim. – Levando em conta que o cristianismo foi construído sobre uma base machista e misógina, é bem possível que ela esteja certa em sua concepção. Em certos pontos, o enredo é imaturo – ou sucinto demais –, como se faltasse algo. Talvez, tenha sido podado para caber dentro de uma edição "enxuta", tornando a obra mais barata, pois o selo editorial em questão pertence à Novo Século, uma editora comercial para os importados e prestadora de serviços para os nacionais. Ou seja, os brasileiros pagam um valor exorbitante por uma publicação que, se fosse independente, custaria quatro vezes menos, para bancar todo marketing dos estrangeiros. Fato! Voltando ao que interessa... Não há separação entre as cenas. Em um momento é noite, Darian tenta dormir depois de um pesadelo. Na linha seguinte é dia, e sua irmãzinha, Margot, grita e pula na sua cama. Não que não seja compreensível, porém, o espaço de uma linha, separando uma cena da outra, daria mais leveza à leitura. Os pensamentos são destacados em itálico, mas não estão entre aspas, como normalmente acontece, e sim precedidos de travessões. Ficou um tanto esquisito e, de certa forma, confundiria o leitor, se a "esquisitice" não fosse salva pelos seguimentos de fala na narrativa – pensei nisso, imaginei aqui, etc. – No capítulo que conta a história de Margot, mesmo Darian sendo mais velho, a narração é em terceira pessoa. Já no capítulo sobre Erick, quando Darian era apenas uma criança, a narrativa muda para primeira pessoa. Erick tinha apenas 5 anos quando a história da sua chegada foi contada. Suas falas são articuladas demais para uma criança dessa idade. Ainda que o enredo se passe em uma época antiga, um menino sem o mesmo acesso à educação que Darian tinha jamais conseguiria se expressar dessa forma. Não estou criticando a autora, sua escrita é primorosa, elegante. Porém, para torná-la verossímil, ainda que em trama sobrenatural, o artifício de adequar a fala do garoto à sua idade daria um glamour experiente ao texto. Infelizmente, a autora se prendeu no politicamente correto e deixou a verossimilhança de lado.  Em alguns capítulos, podemos notar a paixão de Mallerey não apenas pela literatura, mas, também, pelo seu enredo. As palavras denotam esse fascínio, juntando-se em frases deleitosamente acuidosas, arrebatando-nos ao mundo de Darian sem pejo algum. Capítulo 8 = simplesmente o melhor! No quesito "deleite literário", o mais bem escrito, narrado com maestria. Preciso enfatizar três pontos aqui: 1. quando Darian está no mundo humano, materializado, sua espada se transforma em sobretudo negro. E quando ele volta à sua forma espiritual, a lâmina ressurge em suas mãos (lembrando a caneta/espada de Percy Jackson); 2. Não foi explicado por que Darian foi acusado de roubar a caixa das almas no Caos, já que qualquer um seria identificado assim que chegasse perto, exceto os querubins e os potestades guardiões, apenas Darian passaria despercebido. O motivo? Ninguém sabe (assim como em Percy Jackson, acusado de roubar o raio de Zeus); 3. A barganha de Iblis foi com a mãe de Darian em troca de dez mil almas (Hades também barganhou a alma da mãe de... Percy Jackson). Não estou dizendo que é um plágio, até porque a série de Rick Riordan é leve e divertida, escrita especialmente para crianças e adolescentes, ao contrário da obra de Mallerey Cálgara, que tem personagens jovens, porém, com atitudes maduras e um texto sombrio. Contudo, fica nítida a inspiração da autora – não posso julgá-la, pois sou fã de Riordan... muito fã! – Finalizando essa parte, há pontos perigosos na escrita, e não posso deixar de abordá-los. Veja bem... eu mesma já cometi esses erros. Porém, após uma boa revisão, mudei os termos e consegui sanar esses lapsos, tornando minha escrita mais limpa e nada ofensiva. Do que se trata? Eis os pontos de Mallerey: • Magia negra, nuvens negras, anjo negro... tudo que é escuro, para a autora, parece ter sinônimo de coisa ruim, isso denota racismo estrutural; • Prostitutas citadas como mulheres de vida fácil, como se vender sexualmente – ou de qualquer outra forma – o próprio corpo fosse uma atitude fácil. Nenhuma mulher chega nesse ponto porque quer, e sim porque se viu sem opções. E se ela quis, o problema é dela, foi por vontade, e não por facilidade. Isso é uma alusão ao machismo – também estrutural; • Quem não foi batizado vai para o limbo. Aqui, temos o cristianismo absurdo e extremo dando o ar da sua graça. Ainda que o texto tenha um apelo espírita, é fato que muitos praticantes dessa filosofia são cristãos, e é aí que entra a intolerância religiosa. Quem não foi batizado simplesmente não se molhou nas águas, não está condenado ao limbo. A falta de amor, de compaixão, de empatia... tudo isso, e muito mais, é o que realmente leva corpo e espírito à desgraça.

“O inimigo finalmente apareceu. O ar estava pesado, gélido, e, por todos os lados do que restou da mina, podia-se ver sombras negras voando em círculos sobre os corpos que estavam no chão”.

GRAMÁTICA: Pronomes na medida certa, sem exageros, sem repetições desnecessárias. Porém, se eu, como leitora, logo na primeira apreciação da obra, encontrei alguns erros, fico a me perguntar o que a revisora fez da vida... não, a culpa não é da autora, e tais erros não podem desabonar seu talento, tampouco sua escrita – extremamente elegante. – Jogo esse fardo nos ombros da revisora, que deveria ter prestado mais atenção em seu trabalho. E que erros são esses? Página 36, último parágrafo: "gritos estridentes que essa criatura DEVA ao ser atingido"... erro de digitação. Página 71, primeiro parágrafo: "pareciam DEFINHAVAR". Erro de digitação não corrigido? Página 64, 7° parágrafo: "parecendo que não o ESTIVÁVAMOS escutando". Erro. Há um erro de diagramação na página 69, o espaçamento entre as linhas está maior que nas outras páginas. Página 90 = fimobilizour (?) erro? Sinceramente, não faço ideia do que seja isso...

NOTA FINAL: a obra é muito boa, e o texto, excelente, muito bem escrito. O problema é que ficou algo no ar, aquela coisa que nos instiga a querer mais, a saber mais. Pesquisei sobre as publicações da autora e não encontrei nada que remeta à continuação desse enredo. Portanto, não sei dizer se Anjo Negro é o início de uma série ou apenas um título único, e também não há nenhuma informação do tipo no livro, infelizmente. Espero que Mallerey conclua o que ficou no ar. Caso o faça, ganhará uma leitora certa, pois fiquei bem instigada em conhecer o desfecho da trama. Então, se você é como eu, que anseia por um final plausível, não leia, porque a raiva e a ansiedade vão te consumir. Porém, se você gosta de se aventurar na literatura sobrenatural, com cenários incríveis e em uma jornada astral e sombria, caia de cabeça e se delicie com Anjo Negro, pois não vai se arrepender! E prepare o bloco de notas, porque as teorias que criamos são tudo de bom. Aliás, eis um talento de Mallerey Cálgara, colocar o leitor para pensar. Espero muito conhecer seus outros escritos.

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